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O Pastor que vendia votos

O Pastor que vendia votos

06/12/2020 16h35 Atualizada há 6 anos atrás
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O Pastor que vendia votos


Júlio de Maria do Beco era um cabra bemconhecido na comunidade onde morava. Tinha esse nome porque sua mãe, que tinhamais oito filhos, após ser abandonada pelo marido, que se mudou para São Pauloatrás de emprego no final dos anos 70, nunca mais voltou e ela foi morar noBeco do Cuscuz em sua cidade natal, Paulo Afonso na Bahia.

 

Eleouvira falar que este ano teria eleição na cidade e que se o sujeito secandidatasse e fosse eleito, iria receber um bom salário. Quando ficou sabendodo valor da importância que cada um edil recebia, cerca de uns R$ 3.200,00(três mil e duzentos reais), ele foi logo se animando e já fez planos com oprimeiro dinheiro que viesse a ganhar, se eleito fosse. Coisa que de imediatoele acreditou que seria.

 

Conhecidopor todos do Beco. Amigo das putas do cabaré da feirinha, onde por algumasvezes já entrou em brigas para defender algumas delas, que apanhavam defregueses, que sem dinheiro, saiam sem pagar. Ele também lembrou que parte dosvagabundos que perambulavam pelas ruas, tomando cachava, fazendo serenatas epegando as meninas, ele conhecia a todos. Júlio era amigo dessa turma toda etambém da polícia, que mesmo já o tendo recolhido algumas vezes paraaveriguação, nunca encontrou um mal feito dele que merecesse o trancafiar. 

 

Eleprocurou o amigo André Cabeção, que pelo nome você já imagina o sofrimento damãe ao parar o cabra, para orientá-lo como fazer para ser candidato pelopartido político. 

 

-Tô querendo ser candidato a vereador este ano. Tu que é metido com esse bandode cabra safado da política, me diz como devo proceder. E não me enrola não. 

 

Seuamigo disse que ele deveria procurar o presidente da Câmara de Vereadores, quetinha acabado de pegar um partido novo e estava buscando pessoas que queiramser candidato. Este era o caso de Júlio. 

 

Ditoe feito. Filiado, passou pela convenção, teve seu nome homologado, assim comooutros que lá estavam, foi inscrito na Justiça Eleitoral e com o númerodisponível, Júlio agora já podia sair pelas ruas pedindo votos a seus possíveiseleitores. 

 

NoBeco do Cuscuz ele começou pelas casas dos seus melhores amigos. 

 

-Júlio, tu tem certeza que vai se meter nesse negócio de política mesmo, e tuacha que vai ter votos para se eleger? Perguntou DonaAurora, amiga das antigas dele e da família.

 

Acada casa que ele ia, as perguntas se repetiam e ele respondia quase a mesmacoisa, “é claro que sim. Tantos amigos que eu tenho como não vou ter votos? ”,respondia ele com, também, uma pergunta. Os dias passavam e poucas eram aspessoas que declaravam que votariam nele. E ele foi vendo que aquilo não eratão fácil assim. Enquanto o presidente da Câmara, que era do mesmo partido,andava nas ruas com um magote de gente atrás, entrando nas mesmas casas, equando saia tinha o seu cartaz “apregado” na porta, Júlio não tinha conseguidoum único amigo que fizesse o mesmo com ele. 

 

Bateua tristeza em Júlio. Ele, que antes tinha certeza da vitória nas urnas, agoracomeçava a duvidar de sua própria capacidade de conseguir votos. Foi quando emum lampejo de memória ele lembrou que no cabaré, as amigas sempre o recebiamcom carinho. Se mandou para lá em busca de apoios. 

 

Socorro,mulher formosa com um corpo escultural, pele morena, cabelos pretos e longosque caiam por sobre seus ombros indo até o meio das costa e uma das suasmelhores amigas e era a moradora mais famosa do Gedeão, casa de acolhimento dehomens desesperados, resolveu ser sincera com ele e disse: 

 

-Júlio, se eu fosse tu desistia desse negócio. Isso não é algo para homem quepresta. Tu já viu os cabras que tão lá e quantos anos faz que cada um está? 

 

-Eu não tinha pensado nisso. Mas agora não dá mais para desistir. Eu preciso dasua ajuda. Falou ele, quase implorando. 

 

-Eu vou te ajudar com uma informação. Porque com o meu voto tu não conte não. Eujá vendi ao Pastor daquela Igreja que fica lá no Beco. Ele passou aqui e disseque vai me dar R$ 50,00 (cinquenta reais) se eu votar no Zé Ronaldo. Aquelecabra safado que tem duas mulheres e todo culto não saí da Igreja. 

 

-E o Pastor sabe disso? Perguntou Júlio. 

 

-Claroque sabe. Todo mundo na cidade sabe. O Pastor que é a parte dele.

 

-Mas assim fica difícil. Ele já está comprometido. 

 

-Tá nada. Todo mundo sabe que quem oferecer mais, o Pastor muda os votos nahora. Até eu, se ele mandar, voto em tu. Eu só quero o que me foi prometido. 

 

Comaquela informação em mãos, Júlio esperou o Pastor na porta da Igreja às 19h. Aspessoas iam chegando e estranhando aquela pessoa encostada no portão. Parecianervoso, e estava mesmo. Júlio precisava de um apoio como dessa magnitude paradeslanchar a sua candidatura. 

 

Eleviu o Pastor chegar de carro. Foi ao encontro do mesmo e já foi logo perguntandocomo faria para ter o apoio, e votos dos membros daquela Igreja. Assustado coma pergunta, o homem disse que não era um mercador, que o máximo que faria,quando assim era abençoado, era indicar as pessoas algum amigo que ajudava aobra de caridade que ele fazia naquela comunidade. Registre-se que ninguémnunca viu uma pá de terra para ajudar um miserável que precisasse. 

 

-Mas Pastor, o Sr. sabe que eu sou dessa área. Desde que minha mãe veio moraraqui, eu nunca mais saí. Conheço todo mundo, inclusive todos aqui. Nunca deixeique mexessem com vocês, e agora que estou precisando, não recebo o mesmo apoio? 

 

-Meu filho, você sabe que nós aqui somos unidos. Basta um pedido do Pastor quetodos aqui seguem. Mas para isto, o trabalho precisa ter uma ajuda.

 

-E quanto é isso? 

 

-Você sabe... 

 

-Pastor, deixa de enrolar e me diz quanto vai custar esse apoio? Mas eu queroque o Sr. peça os votos de todos os irmãos da Igreja para mim. 

 

-Um pelo outro a R$ 100,00. 

 

-Oxente! Socorro lá do cabaré me disse que o Sr. tá pagando a ela R$ 50,00. Quenegócio caro é esse agora? 

 

-Meu filho, aqui o povo é consagrado, e lá é um povo perdido. 

 

Feitoo acordo. No mesmo dia o Pastor levou Júlio para dentro da Igreja e oapresentou a todos. Prestigiado, o candidato viu o culto religioso serinterrompido no meio para que ele fosse apresentado a todos, que levantavam asmãos e diziam “amém”, a toda vez que ouvia um pedido de votos. 

 

Júliosaiu de lá certo que agora os votos apareceriam nas urnas. Só a Igreja do Becotinha para mais de 500 membros, e após ir a mais de cinco cultos e serapresentado, ele teve a certeza que a sua eleição viria. Como só precisava de250 votos para assumir uma das cadeiras, as contas feitas indicavam que dariatudo certo. Além das cestas básicas que recebeu do prefeito para distribuir,dos sacos de cimento que alguns amigos apareceram com eles e doaram paraajudar, Júlio não tinha nenhuma dúvida. Ele seria eleito. 

 

Chegouo dia da eleição e o povo foi votar. Júlio recebeu exatos 12 votos. Ficandomuito distante do que precisava para conseguir uma cadeira na câmara devereadores da cidade. 

 

Aborrecido,ele partiu em direção a Igreja onde encontrou o Pastor e azoado foi logoperguntando: 

 

-Pastor cadê os votos dos irmãos da Igreja que eu comprei? 

 

-Irmão Júlio, você não é o único a reclamar dessa situação, até mesmo os irmãosjá me reclamaram que não mais aguentavam ver tantos candidatos no altar daIgreja pedindo votos. Foram tantos esse ano, que na próxima eleição eu não maisvou querer tantos políticos aqui conosco. Se algum quiser ajudar nas obras, eureceberei a ajuda, mas os votos dos meus irmãos são sagrados.

 

- Pastor, se nem os irmãosestão cumprindo mais com suas palavras, o que esperar de quem vive no mundão demeu Deus? Perguntou Júlio.

 

- Já não se fazem mais irmãoscomo antigamente Júlio.

 

- Nem Pastor que preste nessaIgreja meu senhor.

 

Júlioconheceu o Pastor que vendia votos, mas não entregava. 

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