Aemocionante viagem no tempo percorre o luxuoso palácio de cinema carioca doséculo XX, construído pela MGM na Rua do Passeio - o primeiro a dispor dear-condicionado na época - funcionando até 1964, sendo substituído peloMetro-Boa Vista, e desativado em 1997. Com produção da IDEOgraph e apoio doPrograma de Pós-Graduação em Mídias Criativas (PPGMC), da UFRJ, depois depercorrer desde abril mostras em Portugal, Suíça, Alemanha, Inglaterra eColômbia, a produção imersiva de quase 10 minutos acaba de ser selecionada parao BIAF, festival internacional de animação na Coréia do Sul (de 22 a 26 deoutubro de 2021) – também em outubro, participará de festivais na Rússia,Hungria e Porto Rico, fechando a agenda do ano na Inglaterra, em novembro(Aesthetica Short Film Festival 2021).
Fruto doprojeto de pesquisa do Mestrado em Comunicação, “Cine Metro: ExperiênciaImersiva” tem o mérito de contextualizar o passado para a contemporaneidadeatravés de uma experiência imersiva em vídeo 360º e amplamente acessível. Apesquisa realizada pelo diretor Eduardo Calvet baseou-se em uma coleta devestígios consideravelmente ampla, que incluiu periódicos de grande circulação(Jornal do Brasil, Correio da Manhã, Diário Carioca, Revista Cine Arte),folhetos de programação, livros, artigos, dissertações e teses acadêmicas,sites e também visitas ao edifício que efetivamente abrigou o cinema. Apesquisa também se baseou em relatos orais, já que boa parte das informaçõessobre o interior do prédio – como cores e texturas – foram encontradas a partirda memória de frequentadores da época.
A partirde fotografias e modelos originais, foi possível reconstruir, com muitafidelidade e apuro técnico, a experiência única de se frequentar o Cine MetroPasseio dos anos 30: o contraste das fontes na marquise, as formas decorativasdo foyer no estilo D. João V, os refinados traços do mobiliário, a proporçãovolumétrica e curvatura da grande sala de exibição, os detalhes de iluminação,a distribuição da plateia em níveis, a tonalidade das poltronas e a diferençade ruído entre a rua e a poltrona. Em termos sonoros, o espectador pode ouvirelementos importantes de espacialização com o respectivo cálculo de proximidadee movimento de cabeça do observador: as então inovadoras luzes em neon na parteexterna do imponente edifício, o gongo, o som característico dos projetores eos múltiplos elementos de cada ambiente.
Valeressaltar que salas de exibição cinematográfica foram os espaços de maiordifusão artística e cultural do século XX. De sua incipiente origem em 1888 atéseu domínio cem anos depois, a sétima arte evoluiu mobilizando recursos humanose materiais em proporções inimagináveis ao meio cultural dos anos 1900. Tãoimportante quanto o filme projetado, a ambiência criada pelo espaço físico deexibição era extremamente valiosa: o conforto dos assentos, a plasticidade doscontornos arquitetônicos, o refinamento da decoração, a maciez dos carpetes, oisolamento acústico impecável. Tais requisitos faziam da visita aos cinemas nãoapenas uma supressão do desejo pela obra, e sim um evento social atrelado aopróprio ritual de expectação, uma experiência sensorial apuradíssima, que teveseu primeiro auge brasileiro exatamente no final dos anos 1930, com espaçoscomo o Cine Metro, conhecidos como “palácios cinematográficos” (movie palaces).
O filmedocumental de Calvet busca reproduzir, com a máxima fidelidade nos detalhes, asessão de estreia deste cinema icônico, em 1936, com o filme “O Grande Motim”,com Clark Gable no elenco. Através de trechos de jornais e revistas da época,foram criados os textos de locução, cuja versão em inglês, inclusive, baseou-seem publicações americanas que noticiaram a inauguração do Cine Metro, como osperiódicos Variety e Motion Picture Herald, dentre outros. Por conta daescassez de documentos e registros oficiais, a reconstrução tridimensional etodo o cálculo do espaço interno foram formulados a partir de detalhadaobservação das fotos, a geometria das imagens, a proporção dos elementosdispostos e a planta baixa, conseguindo alcançar um resultado com aconfiguração original mais provável. Os espaços reconstituídos foram modeladosem altíssima resolução com mais de 25 milhões de polígonos no modelo 3D,somando os quatro ambientes do cinema: área externa, sala de exibição,antessala e sala de projeção – utilizava-se, na época, quatro projetores, nomínimo, para atender às limitações tecnológicas (os filmes vinham em rolos,havia também a necessidade de um projetor reserva e outro para a exibição dosslides dos anúncios e “trailers” prévios de cada exibição).
“Ainda queacontecimentos passados não possam ser revisitados de forma ativa, asferramentas exploradas em “Cine Metro: Experiência Imersiva” nos transportampara momentos indeléveis da vida social de uma geração: hábitos, costumes edinâmicas”, comenta Calvet. “Pistas preciosas, de valor inestimável napavimentação do caminho de quem somos hoje enquanto sociedade... se não épossível viajar no tempo, pelo menos podemos reconstruir em realidade virtualum mosaico digital de fragmentos de nossa herança cultural, que pode trazersubsídios poderosos e proporcionar um verdadeiro legado para as geraçõesfuturas”, conclui.
Por: Fábio Cezanne.
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