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Seu Jorge, o comunista

Seu Jorge, o comunista

17/04/2023 09h51 Atualizada há 3 anos atrás
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Seu Jorge, o comunista

Nos anos 80 apareceu por Paulo Afonso na Bahiaum senhor vindo de Garanhuns, Pernambuco. Ele era, como se diz por aqui, “umpintor de mão cheia”. Foi logo se integrando a juventude que estava disputandoa prefeitura da cidade na eleição de 1985. Foi a primeira para prefeito após ogolpe de 64. 

Vencida a eleição com Zé Ivaldo, então com 26 anos, Seu Jorge se integrou a equipe da administração na assessoria decomunicação. Ficou responsável pelas confecções das faixas com anúncios deações a obras da prefeitura. 

Na equipe de governo muitos, mesmo no MDB –Movimento Democrático do Brasil e já no PT – Partido dos Trabalhadores, faziamparte do PCB – Partido Comunista Brasileiro na ilegalidade. Ainda eram tempossombrios e que eram enfrentados nas ruas e nas disputas eleitorais queprecederam a luta pelas diretas já no Brasil. 

Pois essa turma, em 1986, resolveu fazer umcongresso do PCB na cidade. O convite foi passado de pessoa a pessoa, sem nadaescrito ou qualquer meio que pudesse ser descoberto. Mesmo na administração domunicípio, os cuidados eram enormes naqueles dias. O encontro seria em umdomingo de maio na escola João Bosco Ribeiro. 

Naquele domingo, por volta das 09:00, se deuum encontro inusitado em frente a escola. É que Seu Jorge, o velho comunista,que não sabia onde ficava o local do congresso, se encontrou com Moreira, quetambém participaria. Os dois não se conheciam ainda. E se deu o seguintedialogo: 

- Bom dia! Você poderia me informar se é essaa escola João Bosco: Perguntou Seu Jorge. 

Já assustado, Moreira diz que não sabia. Eemendou. 

- Mas hoje é domingo e não tem aula nasescolas. 

Foi quando ouviu. 

- Não é aula. É que vai ter um congresso doPartido Comunista nela. 

Moreira grelou os olhos naquele velhocomunista e saiu do local. 

Seu Jorge soube, por outra pessoa que passavapor lá, que a escola era aquela que ele estava na frente. Foi recebido pelosparticipantes com entusiasmo e participou o dia todo do evento. 

Moreira não apareceu naquele dia. Sua faltafoi sentida pelos presentes no domingo, e nos dias que se seguiram também. Trêsdias depois descobrimos que Moreira nem tinha ido ao trabalho e estava em suacasa trancado a sete chaves. 

Descoberto seu paradeiro, fomos a casa delesaber o que tinha acontecido. E foi aí que ficamos sabendo que após a conversacom “um homem com cara de policial federal” que o abordou na rua no domingo,ele saiu de lá as pressas com medo de ser preso. O federal era Seu Jorge, ocomunista. Rimos um bocado da situação e nunca mais Moreira participou das reuniõesdo PCB em Paulo Afonso, mesmo continuando a conviver na política conoscodurante os anos seguintes e até hoje. 

 

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