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O Brasil e a disputa pela hegemonia global - Por Roberto Amaral

O Brasil e a disputa pela hegemonia global - Por Roberto Amaral

24/04/2023 07h16 Atualizada há 3 anos atrás
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O Brasil e a disputa pela hegemonia global - Por Roberto Amaral

O ponto de partida de qualquer análise da chamada “guerra daUcrânia” é a irrecusável evidência de que a antiga república soviética foiinvadida pela potência vizinha e quase irmã e permanece  há mais de um ano sobcerco militar. Sua  integridade, de paísreconhecido como soberano pela comunidade internacional,  é ameaçada por anexações anunciadas ouefetivadas pelas tropas do Kremlin, que não pode ser apresentado como herdeiroda utopia socialista frustrada no solo russo, embora devam ser reconhecidosseus esforços na resistência ao imperialismo.  Não se conhecem  dados confiáveissobre o número de vítimas de ambos os lados da fronteira, e ainda é cedopara  o inventário da destruição noterritório ucraniano.

 Esta  guerra é tudo isso, mas não é apenas isso,pois é principalmente o vestibular de um trânsito de eras (e eis a questãocentral), o que é percebido pela diplomacia brasileira restaurada.  Vivemos o perigoso desdobramento da disputa da hegemonia planetária exercidapelos EUA, em franco embate com a emergência chinesa como potência econômica emilitar em pleno desenvolvimento capitalista, pondo em questão o sonho americano da unipolaridade que lhe caíra no colo  com o suicídio da URSS anunciado no apagardas luzes de 1991. A  guerra comercial etecnológica contra Beijing, aprofundada a partir de Trump, teve sua naturezaalterada ao se  expressar em conflitoarmado,  ainda quando, como é o casopresente, os principais contendores estejam aparentemente fora da arena, poisainda lutam por intermédio de terceiros. Uma vez mais, lembrando Clausewitz, aguerra (clássica)  é mera continuação dapolítica, no caso concreto uma trágica necessidade determinada pelo fracasso político da guerra diplomática, comercial e tecnológica  liderada pelos EUA na até aqui frustradaexpectativa de conter o novo “eixo do mal”: a frente eurasiana levada à China, à Rússia e ao Irã pelas contingências  históricas. O conflito em curso,  em sua modalidade militar, consiste numaguerra terceirizada, que pode ser apenas um “freio de arrumação”,  um teste de forças antes da perspectiva de umembate maior,  que o andar da carruagempode fazer inevitável.   Mas igualmentepode ser seu prelúdio, e neste caso a imaginação do epílogo fica fácil.

O jogo, como sempre, aliás, é muito mais profundo do que sugere sua aparência, e não pode sercompreendido pela análise maniqueísta, binária, ditada pela grande imprensabrasileira, sem autonomia intelectual ou política. O conflito, que nada tem deideológico,  é mais que uma disputa demercado, por significar a disputa pela hegemonia planetária (econômica, militare ideológica) em que se engalfinham os impérios, como quem caminha por caminhostortuosos que, por força do processo histórico, não podem ser evitados.

A substituição da guerra tout court pela via negociada (queno momento parece só interessar à Rússia e à Ucrânia) enfrenta obstáculos, acomeçar pelos poderosos interesses da indústria bélica, o complexomilitar-industrial ao qual  se referiu DwightEisenhower no famoso discurso de transmissão da presidência dos EUA, em 1961. Oexpansionismo da OTAN (braço armado dos EUA na Europa) a caminho das fronteirasrussas e a resposta  russa, ensejam oarmamentismo mundial, de especial na Europa e no Japão, e vem fortalecer aindústria bélica estadunidense, a grande beneficiária. É momento de grandesnegócios. Quando o  emprego de armasnucleares passa a integrar o discurso das potências, a guerra convencionalsurge como um alívio.

O leitmotiv da continuidade da guerra (e o cimento dasalianças que se vêm estabelecendo à sua margem), portanto, não é a defesa daintegridade ucraniana, dificilmente recuperável.

Que pretendem os EUA fazendo a guerra por intermédio deprepostos? A estratégia ostensiva do Pentágono parece ser  sustentar nos níveis atuais (guerra comerciale conflito armado convencional por intermédio da Otan e aliados). Essaestratégia, que fala ao curto prazo, resguardaria os EUA  de novos desastres militares (Vietnã eAfeganistão), ademais de reduzir  osriscos de uma guerra nuclear, indesejada, mas jamais de todo descartada, e paraa qual todos se preparam. Na operação presente um dos frutos já colhidos é afragilização do aliado atômico de seu contendor.

Além do efetivo comando da OTAN, a invasão da Ucrâniaensejou o fortalecimento da liderança dos EUA sobre uma Europa que já acalentousonhos autonomistas. Hoje, continente- protetorado, não pode mais alimentar aexpectativa de projeto estratégico próprio.

De outra parte, a estratégia chinesa claramente persegue o adiamento do conflito diretoentre as potências, confiada na continuidade de seu desenvolvimento acelerado(o PIB do primeiro trimestre de 2023 cresceu 4,5%). Qualquer que seja o sumárioda guerra, a China será vencedora, sem haver necessitado terçar armas.

Além da paz, a história anuncia  dois derrotados, a Ucrânia por tudo o que éóbvio, e a Rússia, que até aqui não logrou realizar o objetivo que na retóricado Kremlin havia imposto a invasão: assegurar sua defesa ameaçada pelo cercodas tropas da  OTAN.  Neste sentido, o que vemos é a continuidadedo expansionismo da aliança militar, e portanto dos interesses geopolíticos deWashington. A organização militar (com bases de lançamento de artefatosnucleares na  Bélgica, Alemanha, Itália,Holanda e Turquia), sai fortalecida com a adesão de países antes neutros, comoSuécia e Finlândia,  enquanto vários deseus membros já anunciaram a decisão de aumentar os orçamentos militares, comoé o caso da Alemanha. No Pacífico, em nome da confrontação com a China, o Japãoanuncia sua adesão ao armamentismo.

Qualquer que seja o fim que a história tenha reservado parao conflito, a Rússia emergirá dele como devedora e tributária de uma Chinaextremamente poderosa, tanto na esfera econômica, quanto na esfera política,quanto na esfera militar (fortalecida com o acervo nuclear da aliada), quanto,por todas essas razões,  no plano dageopolítica mundial.   Segunda potênciado planeta, aguardará sem ansiedade o anunciado fim do largo ciclo de hegemoniados EUA. Viveremos, então, o intermezzo de um tempo multipolar. Serão os tempos da emergência da Eurásia.

A história presente abre espaço para a retomada de nossopapel como sujeito ativo e altivo  nasrelações internacionais, a um tempo consciente de seu peso e de suas limitações,livre de condicionamentos maniqueístas. Lula já deu  inumeráveis demonstrações da consciência deseu papel – uma indeclinável contingência histórica – como presidente do Brasil e líder regional, acertadamenterejeitando o maniqueísmo no qual a grande imprensa e os setores mais atrasadosda sociedade brasileira pretendem nos encarcerar.

O caminho está aberto, mas o caminhar conhecerápercalços,  em face da correlação deforças dominante, avessa a um projeto nacional de soberania e independência.Nossa política de relações com o mundo, para se manter de pé, precisa de contarcom o apoio da sociedade, o que requer debate amplo com todas as forçassociais.

Perguntar não ofende – Em qual Oásis os dirigentes do PDT edo PSB devem repousar? No apoio ao governo, ou engrossando as fileiras dojagunço do atraso? 

 Por: Roberto Amaral.

Com a colaboração de Pedro Amaral

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