Aqui a classe dominante festeja o desemprego, e um BancoCentral autônomo em face dos interesses nacionais combate o desenvolvimentoimpondo ao país uma taxa de juros que sufoca a atividade produtiva, ao tempoque atribui a persistência inflacionáriaà queda das taxas de desemprego e aos reajustes salariais, que abjura.
Quando o Banco Central aumenta os juros, seu objetivo claroé reduzir os investimentos produtivos (aqueles que criam emprego e fazem girara economia) e, na sequência, o consumo das famílias (cujo poder de compra cai),criando um círculo vicioso que termina por promover a recessão, como,aliás, vimos no experimento do ministro Joaquim Levy em 2015. A chamada“autoridade monetária”, dispensada de prestar satisfações à sociedade, usa aociosidade mórbida da economia, de particular o freio na já agônica atividadeindustrial, como medida anti-inflacionária e lamenta (lamenta o BC e lamenta aFaria Lima) que o desemprego tenha caído menos que o projetado, e que menos queo projetado tenha caído o consumo das famílias, adiando a recessão tambémprojetada.
O cenário, no curto e no médio prazos – os tempos que nosinteressam, pois no longo prazo todos estaremos mortos, como lembrava oesquecido Lord Keynes – é o encontro da recessão com a política contracionistaimposta pelo Banco Central, com seu rol inefável de perversidades: retração daeconomia, concentração de renda, desemprego e fome. No segundo ou terceiromaior produtor de alimentos mundo, nada menos que 61 milhões de pessoaspassaram dificuldades para se alimentarem 2022, nada menos que 33,1 milhões não têm garantido o que comer (dados doSegundo Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar). Nosso país, sob oreino do agronegócio, está, desde 2018, de volta ao Mapa da Fome.
Burocratas, empresários e prepostos de empresários ebanqueiros pensam em uníssono (todos estudaram nas cartilhas da Escola deChicago traduzidas pela Fundação Getúlio Vargas), e chegam às mesmasconclusões, porque em suas equações não há espaço para o elemento humano. SamuelPessôa, escrevendo em julho de 2015 (“Luzes no final do túnel”) e comentandorelatório do IBGE, comemora a queda dos rendimentos dos trabalhadores comofator deflacionário: “A ´boa notícia foi a queda de 5% do rendimento médioreal. (...) A ´boa notícia`, portanto, foi que os salários nominais têmcrescido a taxas cada vez menores (...)”.
Já em nossos dias, o Valor (24/4/2023), em coluna assinadapelo repórter Alex Ribeiro, registra que a inflação não cai, apesar da políticade juros altos, porque “a taxa de desemprego não vem subindo, até agora, daforma esperada e os reajustes de salários estão mais fortes do que o BancoCentral antecipava”. O governo se empenha na promoção de emprego e renda, oBanco Central se empenha em gerar desemprego. O governo precisa investir parapromover o desenvolvimento econômico; o BC, expressando a vontade da FariaLima, cobra a redução de gastos e impõe o “equilíbrio fiscal” – e, assim, e aum só tempo, desorganiza a produção, promove o desemprego e reduz o poder decompra da população. Confessadamente persegue a recessão e já nos deixapróximos do casamento da estagnação com a inflação. Segunda maior concentraçãode renda do planeta, convivemos com a maior taxa de juros reais: 9,1%, contra-0,7% do Canadá, 0% dos EUA, 4,4% do México, 2,2% da França, -4,2% da Itália,4% da Rússia em guerra, 2,9% da China, -4,2% da Turquia e -3,2% do Japão(fonte: tradingeconomics.com).
Nada obstante a realidade, o presidente do BC reafirma que ameta da instituição é combater a inflação mediante a elevação dos juros, e suavontade é, nas circunstâncias, imperial. Mas ainda não é tudo, porque acasa-grande é insaciável. Impõe o culto do ajuste fiscal, mantra do monetarismoque conquista almas à direita e à esquerda, sem necessidade de demonstração.Assim não se discute, nem no governo nem no Congresso, e muito menos naacademia e nos sindicatos, o caráter do modelo econômico que nos é imposto pelogrande capital – sem que tenha por trás de si o amparo da soberania popular queé o arrimo do mandato do presidente Lula, a quem é imposto um modelo de país ede economia que nega o pronunciamento eleitoral do dia 30 de outubro do anopassado. E nega, acima de tudo, as necessidades de desenvolvimento do país, querequer gastos, investimentos em infraestrutura e saneamento, em saúde, emeducação, ciência e tecnologia, além de incentivos à necessária e urgenterecuperação da indústria manufatureira. O país, inerme, não se dá conta dessaviolência contra a soberania popular e as bases da democracia representativa,que é a usurpação do poder pelo Banco Central.
A esquerda de um modo geral absorveu o discurso do “equilíbrio fiscal” defendido pelos donos dopoder. Trata-se de um modeloverdadeiramente de fundo escravista, revela o ranço da casa-grande: um modelobaseado na manutenção de baixa atividade econômica, elevado desemprego eachatamento dos salários, tudo para garantir as taxas de lucro do capital. É o desespero do pobre que garante o"equilíbrio" exigido pelos donos do poder.
Abandonada a alternativa industrial-desenvolvimentista, pelaqual oportunamente optaram as grandes potências de hoje, somos, lembrando aorigem colonial, uma grande província agroexportadora das commoditiesrequeridas pelo chamado “ primeiro mundo”. Os principais produtos comercializados peloBrasil no último ano foram soja (14%), óleos brutos de petróleo ou de minériosbetuminosos, óleos crus (13%) e minério de ferro in natura e seus concentrados(8,6%), reforçando o setor primário como protagonista da economia do país(https://www.domaniconsultoria.com). No terceiro milênio como na colônia, noimpério e na república velha.
Padecemos os males essenciais do capitalismo e contribuímoscom a iniquidade de monstruosa desigualdade de renda, que aumenta a pobreza e aprofunda o atraso, namesma medida em que concentra o poder nas mãos de uma minoria mínima debiliardários desvinculados da produção de riquezas e da geração de emprego.Nossa burguesia, isto é, a burguesia aqui instalada, se conforma comoprocuradora da banca internacional. Naturalizamos a violência em todos osmodelos imagináveis, desde o genocídio das populações nativas (recentementereavivado pelo bolsonarismo), e o escravismo, larvar, ostensivo, da colônia edo império, até, na modernidade capitalista, as mais variadas formas detrabalho análogo à escravidão. Não me refiro apenas às formas clássicas deexploração do trabalho humano no campo, a corveia, a meação, a exploração doagregado, do morador. Mas já a formas de espoliação que a imprensa identificacomo “similares à escravidão” encontradas nas modernas vinícolas do Suldesenvolvido de hoje.
A herança escravagista e colonial, a ocupação predatória danatureza e dos homens na terra achada, são essenciais na moldagem da sociedadebrasileira de nossos dias, exacerbadamente excludente, mas não encerram a história toda. É precisoter sempre em conta o papel crucial desempenhado pela classe dominante aportadae aqui criada. A renúncia a um projeto próprio de sociedade, a opção conscientepelo atraso, pelo agrarismo e pela dependência econômica, política e cultural,o império autoritário e a república sereníssima, sem povo, obra de nossas elites,são essenciais na moldagem da história presente.
Coloca-se para o governo de centro-esquerda a resistência, epara os socialistas a denúncia do modelo político-econômico que aí está. Omodelo capitalista vigente, que, de um lado, exige a expansão da fronteiraagrícola para garantir superávits das exportações no mercado global; de outro,tem como pré-condição a produção crescente de pobreza e miséria (pilar do“equilíbrio fiscal”), o que, por exemplo, empurra ribeirinhos e demais trabalhadores precarizados para dentro dasreservas indígenas, em busca de sobrevivência - objetivo que a imensa maioriapersegue.
A preservação do meio ambiente tanto quanto o combate à fomee ao desemprego está ameaçada pelasimples continuidade do modelo - ainda que não tenhamos mais um facínora napresidência.
O grande tema da atualidade brasileira, neste2023,portanto, é a abolição daescravidão.
Por:
Com a colaboração de Pedro Amaral
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