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A atualidade da crítica impura

A atualidade da crítica impura

14/05/2023 09h22 Atualizada há 3 anos atrás
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A atualidade da crítica impura

Produto sociopolítico, a historiografia é, sempre, umaleitura ideológica do fato, narrado, comentado ou tentativamente interpretado.E, sabidamente, toda leitura ideológica se caracteriza pelo descomprometimentocom a realidade fática, pois seu elemento essencial (a lente mediante a qual onarrador ou intérprete lê o mundo) é uma tábua de valores. Não há, portanto,nem escrita, nem crônica, nem leitura pura: a narrativa histórica é uma versãoda realidade matizada pela visão de mundo do observador, visão que igualmentenão é uma dádiva dos céus como o orvalho: reflete o papel do indivíduo na sociedade e desvela  sua posição de classe. Daí resulta ainutilização da história narrada? Não, mas a advertência de que, ao lado da versão da classe dominante, a quem cabea saga dos vencedores, há a versão dos subsumidos pelo capital, escrita pelosseus intelectuais orgânicos, ou revista pelos intelectuais que se apartaram dosinteresses de sua classe de origem, como bem ilustra a versão euclidiana domassacre dos camponeses de Canudos, contraposta com a narrativa do exército,reproduzida pelos historiadores do sistema.

O historiador é seu meio e seu tempo; sua obra reproduz suasua maneira de ser no mundo.

O processo social, ao definir o papel do cientista e do filósofo,como o do historiador, define o destino da ciência, tanto quanto da filosofia,da política e da história, que é, tão só, uma versão da realidade, isto é, umaprodução ideológica. Trata-se, portanto, de um processo de evasão da realidade,fundamental para a reprodução do modo de produção vigente, a matriz do poder,que, por seu turno, depende da ditadura da ordem, que aprisiona o movimento.Ou, lembrando o cinismo de Tancredi (O Leopardo, de Lampedusa), toda mudança évetada, a não ser aquelas que garantem que nada mudará. Assim, no contrapelo darevolução, o statu quo se transforma em futuro. O mando é intocável. 

Essas reflexões me são sugeridas pela leitura de Brasil,crítica impura – viajando pelo tempo presente (LetraCapital. Rio, 2023), do cientistapolítico  Lincoln de Abreu Penna, paraquem “O estudo da historiografia é o estudo das condições [materiais, segundoMarx] de produção das ideias”. Lincoln, na boa trilha traçada por AstrojildoPereira, põe em relevo o papel dos interesses de classe na conformação dosentido histórico, e afirma: “O passado é usado para legitimar o presente”,advertência que nos chega em momento crucial do esforço coletivo de pensadoresde diversos matizes visando a interpretar (para alterá-la) a história brasileirapresente: 500 anos de impasse, ou seja, de vitória da conciliação de classesobre a ruptura social.

Por sem dúvida que a leitura do passado ilumina o presente,mas não o determina como resultado de uma relação mecânica, simplesmente porqueo presente é uma construção do presente, de sua classe dominante presente, queoptou, no caso brasileiro, pelo projeto da casa-grande, ou seja, optou pelaprojeção do passado. A continuidade se dá mediante a conciliação, projetoideológico mediante o qual a classe dominante (algo como 1% da população)controla 50% da riqueza nacional enquanto a realidade permanece congelada: oatraso, a miséria, a fome, o desemprego, a extrema concentração de renda,fazendo de nosso país uma das mais perversas experiências sociais na periferiado capitalismo. 

Uma das características das interpretações dominantes dahistória presente é a de que somos, como a imagem no espelho, a simplescontinuação do que que sempre fomos), e, produto de um passado presente, nãopoderíamos ser senão o que somos, e com isso se naturaliza quase tudo, acomeçar pela ascensão do protofascismo, ora explicado como  produto inevitável de nossa formaçãohistórica fundada escravismo, no genocídio das populações originárias, nolatifúndio e na violência necessária para sustentar tudo isso; ora explicadocomo mero reflexo de uma tendência mundial contra a qual não podemos terçarforças. Uma sociedade conservadora – e por que somos, seríamos, uma sociedadeconservadora? – só poderia produzir uma política conservadora. Registre-se quenenhuma dessas interpretações foi arguida nos momentos em que o país respiravaares de avanços democráticos...

O desafio, e Lincoln Penna trabalha com essa compreensão,não está em colocar novas molduras no velho retrato de nossa história social,mas em resgatá-la para poder modificá-la. Remontamos a Marx, levado a abjurar afilosofia, para poder realizá-la na política. Na célebre 11ª tese sobreFeuebarch, nos dirá que os filósofos já haviam interpretado bastante o mundo,era chegada a hora de transformá-lo. O filósofo, o escritor, o historiador, ointelectual de um modo geral, antes de autor de livros ou de teorias, é alguémque está concretamente em um mundo concreto. Literatura e ação, como a ciênciae a história,  pertencem a único tempo.

Lincoln nos fala de um passado ainda presente, mas não odestaca para justificar a persistência do atraso social, e sim para denunciá-locomo ponto de partida para sua revogação. Não é, decerto, um saudosista dacasa-grande. O historiador – e assim ele se insere como sujeito político,comprometido com a revolução – não é um colecionador de fatos ou episódios, masagente político, um formulador; mais do que intérprete, agente social, seja namudança seja igualmente na preservação da ordem imobilizadora, papel dointelectual tradicional, porque o pensamento não se desliga da ação, que lheempresta valor: o pensador – seja o filósofo, seja o historiador, seja oformulador politico – é, necessariamente, um homem de seu tempo, cujascontradições reflete e reproduz. A história, ensina a tradição marxista, não éa sistematização lógica de fatos do passado, mas a interpretação, comprometida,do fenômeno social, que explica, emprestando-lhe valor e significado. E essainterpretação não se esgota em si, pois, também fruto da ação do homem em seumeio, é a chave de sua intervenção no processo social.

O historiador, portanto, é (ou deve ser) um intelectualcomprometido. Esta a ideia que perpassa, com extremada congruência, todas aspáginas de Brasil, crítica impura, impura exatamente porque expressa suasconvicções de ensaísta militante, como muito apropriadamente se autoqualificaLincoln Penna.

O intelectual clássico é definido, desde o caso Dreyfus(1894-1906) como aquele “homem de letras” que se põe a serviço de uma causa,política ou social. O paradigma seria Voltaire. Nessa galeria se encontramVictor Hugo, Zola e, dominando o século passado, Bertrand Russell e sobretudoSartre, o intelectual “engajado” por excelência; prementemente comprometido,não professa distinção  entre teoria eprática, discurso e ação. Gramsci grafou a expressão “intelectual orgânico”para, em oposição ao conceito de intelectual tradicional, aquele sempre aserviço da classe dominante, definir o intelectual que se conserva fiel aosinteresses de sua classe de origem e deles se faz porta-voz. Luiz Inácio Lulada Silva é exemplo paradigmático de intelectual orgânico da classetrabalhadora, assim como Luiza Erundina, que nunca mudou de lado. Há, porém, efelizmente não são poucos (os exemplos matriciais remontam a Engels e Marx),aqueles intelectuais que, apartando-se dos interesses de sua origem de  classe, adotam como causa de vida e produçãointelectual a defesa dos interesses das massas subjugadas. No mundocontemporâneo é a saga dos intelectuais socialistas e comunistas de modo geral,mas, de especial, dos de filiação marxista, rol no qual se insere LincolnPenna. Sua característica é a militância, caminhando a mesma trilha deAstrojildo Pereira.

 Ser histórico,contemporâneo, o intelectual de esquerda, necessariamente militante, cumpre amissão de incomodar, inquietar, desassossegar. Uma consciência atormentada eatormentadora. Seu compromisso em face da realidade é alterar o mando declasse.

***

O cerco do atraso – O BRICS, abalado pela guerra, e teoricamente fortalecido com arecuperação  política brasileira,  se debruça, hoje,  sobre dois temas principais: 1) a adesão denovos membros (há 2 dezenas de interessados); e 2) a adoção de uma moeda comumpara transações intrabloco. Em relação ao primeiro tema, comenta-se que ainclinação da maioria é remar devagar, possivelmente criando uma categoria demembros observadores (como tem a OCDE). No tocante ao segundo, se a moeda comumse estabelecer e o bloco incluir a Arábia Saudita, haverá uma alteração noequilíbrio do poder mundial, com os petrodólares deixando, em larga medida, deser dólares estadunidenses. É a tarefa que estará posta sobre a mesa de DilmaRousseff. Sabe-se que esse objetivo já é pacífico no Itamaraty, no Planalto, emesmo no Ministério da Fazenda. De onde se espera uma forte resistência? Desetores das forças armadas, do grande capital e, por consequência,  do Banco Central, que se consolida como um Estado (autônomo) dentro doEstado brasileiro.

 Por: Roberto Amaral.

 Com a colaboração de Pedro Amaral.

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