Geral O

O golpismo, em marcha (Por Roberto Amaral)

O golpismo, em marcha (Por Roberto Amaral)

03/06/2023 18h53 Atualizada há 3 anos atrás
Por:
O golpismo, em marcha (Por Roberto Amaral)

"Quando começo a pensar no próximo filme, meu desejo érealizar uma obra-prima, o filme dos filmes. Então as filmagens começam, surgemas primeiras dificuldades, e percebo que no máximo conseguirei fazer um bomfilme. Ao final, são tantos os contratempos, empecilhos etc., que acabo mecontentando em fazer um filme."

François Truffaut


A Realpolitik – o “realismo” governante do mundo e de nossasvidas –, desdenha do sonho para impor-se como a arte do possível. Assim ahumanidade se organizou e chega aos nossos dias. Regida pelos ditos espíritospragmáticos, entre os quais se encontram os vencedores, a política se fazservidora do império das circunstâncias, um arco conceitual que caminha daTerra ao infinito. Os tempos atuais parecem haver defenestrado a utopia. Ovisionário, o antecipador é expulso de cena. Quase sempre o “realismo” obriga olíder a adequar-se às condições objetivas, ou, nas palavras de Truffaut,render-se às dificuldades, aos contratempos aos empecilhos para, impedido devencer, pelo menos não perder, o que já seria um “ganho”.   Sonhando em escalar o topo, o líder pode,vencido  pelas circunstâncias,conformar-se no repouso  do sopé. Sãocorreções de rota, revisão de objetivos e, fundamentalmente, composição deinteresses visando à tomada ou conservação do poder, quase sempre em novosmodos e novas medidas. Assim, a Nova República, na regência de José Sarney,compõe-se com o regime decaído e enseja a preeminência militar na reconstruçãocivil.

A história registra tipos e formas as mais variadas devitória:  a mais citada, certamente é a“vitória de Pirro” na Batalha de Ásculo, em 279 a.C., contra os romanos, quandoo rei comandante, chamado a comemorar o feito (que custara prejuízosirreparáveis em suas fileiras), teria dito a seus generais: “Mais uma vitóriacomo esta, e estarei perdido”. Ficou como símbolo do vencer que equivale àperda. Lembro-me da vitória eleitoral das forças progressistas em 2014.

Truffaut nos convida à reflexão sobre o sonho (o projeto)submetido às limitações de sua viabilidade: as dificuldades impostas pelarealidade objetiva.

No campo das esquerdas – considerado seu espectro  mais largo – o peso da realidade muitas vezesse abate de forma a mais radical, impondo mesmo a renúncia ao sonho. Não setrata, tão-só, de rever caminhos e construir veredas alternativas, mas derenunciar ao projeto como fim, abraçando os meios,  ocupando as margens do processo histórico,transformando em metas o que antes não passava de estação de trânsito. Não éainda o lado mais doloroso, pois há mesmo, e os fatos são contemporâneos,aquelas experiências de progresso social que logo sucumbem, como a pedra dosuplício de Sísifo que despencava ladeira abaixo quando chegava ao cume.

No Brasil, o processo social parece dar dois passos atrássempre que é dado  um passo à frente: ogolpe militar de 24 de agosto fechando no governo Vargas; vinte e um anos deditadura após o governo de João Goulart, o golpe parlamentar de 2016 e aascensão do bolsonarismo como resposta à experiência dos governos petistas.

Os tempos áridos desestimulam a semeadura. O líder não maisse apega sonho à realização do sonho, porque o projeto de um bom governo foireduzido pelas circunstâncias à pura e simples conquista do poder para amontagem (muitas vezes a qualquer preço) de qualquer governo, e o desafio passaa ser manter-se nele (também a qualquer preço), inseguro como o ginete queenfrenta a resistência da montaria.

As raras emergências de governo populares e mesmo decentro-esquerda,  são decepadas porgolpes de Estado, seja militares (Vargas e Jango), seja parlamentares (DilmaRousseff). Ou, como atual governo, se veem acossados por uma conjunçãoaparentemente irresistível dos mais torpes interesses de classe, que une noprojeto de golpe de Estado permanente o que de mais atrasado o latifúndio, oescravismo e o racismo, irmãos siameses, puderam produzir. O ano de 2016 deveser visto como uma antecipação de 2023.

  Nesse quadro, osocialismo se apresenta  como  quimera, o revolucionário torna-sereformista, mesmo um governo de centro-esquerda timidamente mudancista éenfrentado como um risco, e todos terminam, pelas mais diversas portas,admitindo que, nas circunstâncias, as únicas mudanças possíveis são aquelas quenão alcançam o âmago do poder, porque a ordem regente é  concebida para que o sistema permaneça imunea abalos, nada obstante as concessões à democracia representativa, sobvigilância legal, judicial, econômica e militar da classe dominante. Nessequadro, a esquerda não pode ter vez; a centro-esquerda reformista, no governo,não pode governar. A emergência das massas é ameaça, como é ameaça a simplessobrevivência das populações nativas, quando a disciplina constitucional dademarcação das terras indígenas é apresentada pelo latifúndio como ameaça àpropriedade privada (e derruída por mera lei ordinária, fabricada por um Congressoreacionário).

Explica-se: como a experiência demonstra, os detentores dosmeios de produção não têm por que abandonar seus recursos de poder simplesmenteporque seu candidato preferencial deixou de ser eleito. Seu domínio é tal,principalmente sobre os fundamentos da pauta político-econômica, que a classedominante nunca perde no voto: quem perde, aqui e ali, são seus candidatos dalcuore.

Em 2022 impedimos a reeleição do capitão – um, grande feitoque vale comemorar, até pelas dificuldades enfrentadas. Mas não derrotamos oideário protofascista; ele está vivo e atuante, na sociedade e na política,dando as cartas no Congresso, isto é, legislando de forma unilateral, eco-governando por meio da Câmara dos Deputados, a mais atrasada de quantas opaís conheceu, desde a frustrada constituinte de 1823. Trata-se de uma Casahegemonizada pela associação do atraso político com o mais abjeto fisiologismo,chefiada por um capo (cria do famigerado Eduardo Cunha) que, em nome dacorporação, não se peja em chantagear o governo. Essa é sua história desde aposse de Lula, e assim deverá ser no curso dos próximos anos. Não eranecessário, mas o grande recado foi dado na votação da Medida Provisória quereestrutura os ministérios, aprovada na undécima hora, após o Executivo,acuado, liberar R$ 1 bilhão e setecentos mil em verbas públicas para parlamentares. A Câmara deu o recado eapresentou seu preço, o governo curvou-se à chantagem, pagou, e o jagunço dasAlagoas entregou o prêmio, como é de regra entre certos agrupamentos decomportamento antissocial. E, para que mude o humor da Câmara, são anunciadas“novas pactuações”.

Em entrevista coletiva, mesmo após o pagamento do “resgate”,o chefe da Câmara reclama da “falta de pragmatismo” do governo assacado.

O 28 de outubro, repito, não enterrou o projeto daextrema-direita nativa. O fracasso da intentona de 8 de janeiro não encerra ahistória. O processo de golpe permanente continua de pé, e conserva intacto oapoio das forças que deram segurança à aventura protofascista. Repetindohistória  conhecida, a inviabilização dogoverno Lula é o ponto de partida da guerra em curso. Defender o mandato dopresidente  e  o projeto de campanha consagrada pelas urnasé, pois, a tarefa de todos os democratas. A alternativa já conhecemos, e eladeixou triste memória. O caminho já foi percorrido pelos que souberam fazer ahora: a construção de uma nova maioria política, o que reclama nova estratégiado governo, dos partidos do campo popular e do movimento social.

          ***

Comentário ouvido no cafezinho da Câmara – Se Lula nãotivesse, na última semana, atravessado a rua para pisar numa casca de banana,mobilizando contra si, desnecessariamente, os jornalões e seu eleitorado declasse-média, poderia hoje estar comandando uma frente ampla contra Don Lira,que, com a sua chantagem desmedida ameaça ministérios que embelezam a imagem dogoverno, a saber, Meio Ambiente e Povos Originários. Mas se o curial é fazer dolimão uma limonada, às vezes a politica faz da limonada um limão.

Contrafação – O ex-PSB, que saiu do último pleito com dezdeputados a menos, e ocupa no atual governo a vice-presidência da República e doisministérios, liberou a bancada, na última terça-feira, para que três de seusnobres deputados votassem tranquilamente ao lado dos grileiros, contra osindígenas e o governo. Em relação à vizinha Venezuela, contudo, tem de suaatual chegia  a sinalização para embarcarsem pejo no assédio dos meios de comunicação, esplendidamente humanistas, masque não condenaram o sequestro de bens venezuelanos pela Grã-Bretanha no augeda pandemia, e não se mostram preocupados com a suspensão das sançõesimperialistas contra Caracas, com a mediação do processo de paz, com aresolução da crise migratória e com o respeito à soberania daquele país. Éconstrangedor.

Por: Roberto Amaral.

Com a colaboração de Pedro Amaral.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários