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O homem que virava bicho

O homem que virava bicho

20/06/2023 08h31 Atualizada há 3 anos atrás
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O homem que virava bicho

Lá pelos anos 70, havia umahistória que metia medo em qualquer criança da cidade de Paulo Afonso, nointerior da Bahia. Contavam que havia um homem, um carroceiro, que nas noitesde lua cheia se transformava em um bicho. E isso não era apenas uma conversapara assustar e fazer com que as pessoas inocentes fossem para dentro de casaassim que a noite chegava. Muitos diziam que já tinham presenciado essatransformação.

A Vila Poty, que ainda mantémesse nome até hoje por causa do cimento, tinha ruas sem calçamento, diferentedos dias de hoje em que temos asfalto. Mas era nelas que todas as noites ascrianças, incluindo eu, brincávamos de se esconder, rouba-bandeira, garrafão etantas outras brincadeiras que nos faziam perder a noção do tempo.

No entanto, bastava um animalser avistado à distância para que o medo tomasse conta de todos que estavam nasruas. E quando uma carroça puxada por burros, o que era muito comum, passavapelas proximidades, as ruas ficavam desertas imediatamente.

Minha mãe contava que um certohomem foi visto se esfregando ao meio-dia no mesmo lugar onde uma burra haviafeito o mesmo. Dizia-se que quem fazia isso estava destinado a se tornar umbicho nas noites de lua cheia. Até conseguíamos ouvir os urros nessas noites.

Coitado daquele senhor que eraapontado como o Homem que Virava Bicho por onde passava. Ainda me recordo dascrianças gritando para ele com palavras que, hoje, percebo que deviammachucá-lo muito. Às vezes, somente hoje percebo isso, ele passava com a cabeçabaixa, conduzindo sua burra pelas ruas da cidade em busca de algum trabalhopara ganhar a vida.

Em outras ocasiões, ele eravisto com a esposa e os dois filhos. Era a família que se transformava embicho. No interior, os medos, a imaginação e as ações nem sempre são asmelhores com o passar do tempo, mas deixam memórias que viverão para sempre.

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