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Liderança de Lula esboça um projeto

Liderança de Lula esboça um projeto

03/07/2023 07h42 Atualizada há 3 anos atrás
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Liderança de Lula esboça um projeto

“Podemos estar assistindo à emergência de um líder, oriundodo Sul, que acende esperanças em escala global. Lula está se tornando um íconedos que demandam uma nova ordem. Nunca houve isso antes. É desconcertante paraos que querem continuar mandando em tudo.”

- Manuel Domingos Neto, autor de O que fazer com omilitar(anotações para uma nova defesa nacional)

Nossa formação de cinco séculos registra a supremacia daconciliação sobre a ruptura, o reino da ordem estabelecida que se contrapõe ao progresso,tão bem e tão insistentemente denunciado por José Honório Rodrigues. A busca donovo, a revolução – que quase todos os povos experimentaram na base de seuprocesso histórico – foi sempre, entre nós, tratada como erva daninha. Asreformas permitidas foram tão-só aquelas destinadas a preservar a ordemdominante,  a mesma há 500 anos. Asmudanças são aquelas necessárias para que tudo permaneça como está,materialização da síntese consagrada por Lampedusa.

Não foram poucos os intelectuais orgânicos, comprometidoscom seu povo, que lutaram pela construção de um país desenvolvido e de umasociedade feliz, desde José Bonifácio e Joaquim Nabuco. No século passado,Darcy Ribeiro, que lograria reunir a intervenção intelectual à ação pública,reconheceria sua frustração. Já no fim da luta, reconheceria haver fracassadoem tudo o que tentara na vida, ressaltando, contudo: “Os fracassos são minhasvitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”.

Muitos dos vencedores estão hoje em Lisboa no doce farnientepromovido pelo empresário Gilmar Mendes.

O líder revolucionário, o que abre as portas para o novo,além de condutor de massas, é agente social, condicionado em seu papel políticopela interação entre a consciência de classe e a necessidade histórica, ditadasambas por circunstâncias que não são de sua escolha, senão aquelas “legadas etransmitidas pelo passado”, como ensinou Marx, mas que não lhe cassam o papelde sujeito: se o indivíduo não escolhe as circunstâncias nas quais atuar,escolhe seu papel diante delas. De Gaulle e Pétain, em 1940, em face da mesmahistória (a derrocada militar e moral da França) optaram por papéis opostos.Um, epítome da resistência, o outro vassalo do invasor. Entre nós, diante darenúncia de Jânio Quadros, em 1961, o marechal Odylio Dennys intentou um golpemilitar e o governador Leonel Brizola liderou o país na defesa da legalidade.Todos, ao tempo em que se escolhiam, interferiam no processo histórico, comoGetúlio Vargas em 1954. Com o seu suicídio, o presidente adiou por uma décadaa  ditadura militar que se estenderia por21 anos.

 O líder, quandotambém pioneiro, revolucionário ou reformista, não é mais simplesmente aqueleque em diversos momentos conduz as grandes massas, ou por elas é amado, mas oraro personagem que aponta rumos e é seguido mesmo quando o ponto de chegada édesconhecido. Esse líder não caminha ao lado do povo: este é que o sente ao seulado na jornada a que foi convocado. Visionário e estrategista, pode ser umprofeta; quando interfere na moldagem do futuro, é um revolucionário. Há de sersempre um gauche na vida: não entende que o indivíduo tenha de se adaptar aomundo – às condições impostas a sua existência pelas circunstâncias – e porisso  forceja por adaptar o mundo às suasnecessidades, ou às necessidades de seu sonho.

A história republicana é parca de líderes e reformadores, ea pasmaceira nacional, abalada pelos levantes militares de 1922 e 1924, e aindasubjugada pelo pacto agroexportador que controlava o poder desde a ascensão dePrudente de Moraes, conhece a fratura imposta pelo levante que a historiografiaconsagraria como “Revolução de 1930”, uma insurreição inter-oligárquica que, noentanto, seria responsável pela modernização do Estado brasileiro.

O que se segue é história consabida. Dela cuido apenas daemergência, a partir desse evento, daqueles nomes que me parecem ser hoje osprincipais líderes-estadistas dessa fase republicana, e me limito a apenastrês, na ordem cronológica de atuação: Getúlio Vargas, o primeiro grande líderrepublicano e ainda o mais destacado de quantos tivemos; Juscelino Kubitschek,o visionário construtor de Brasília, e Luiz Inácio Lula da Silva, o primeirolíder da classe operária a chegar à presidência.

Vargas é o mais longevo, o mais amado e o mais temido em seutempo, e, sem dúvida o mais contraditório de quantos estadistas conhecemos, dequantos líderes tivemos, à direita e à esquerda, nesses 134 anos de umarepública permanentemente por fazer-se e uma democracia formal temerosa daemergência do povo como sujeito político. Dele podemos dizer tratar-se deesfinge ainda indecifrada, tais as paixões que desperta, passados quase 70 anosde sua morte e 93 anos da tomada do poder, que exerceu por 18 anos (respeitadoo interregno de cinco anos entre a queda do “Estado novo” e as eleições de1950), presidindo uma ditadura e um governo democrático, apeado de ambos porinsurgências levadas a cabo por militares antes aliados.

Dele poder-se-á dizer que viveu suas circunstâncias no maispuro sentido orteguiano, dominando-as, até ceder à última investida,aparentemente impossibilitado de agir como agia, lembrando a famosa frase deLutero: “aqui me acho e não posso fazê-lo de outra forma”. Ficou para ahistória como modernizador do estado, líder trabalhista e “pai dos pobres”,nacionalista, combatente pela soberania nacional.

Se para Getúlio a política era “a arte do possível”, para JKtorna-se o instrumento de uma determinação. Era visionário e profeta. Prometeu“50 anos em cinco”, e em menos de cinco transformou um descampado árido em meioao Cerrado goiano na capital da república, incorporando o Oeste à política e àeconomia do país. Sem ferir a ordem democrática, enfrentou duas intentonasmilitares e um sem-número de tentativas de impedimento.

Lula se destaca, de início, como o primeiro líder nacionaloriundo do proletariado, que até sua emergência pedia emprestado à classedominante seus defensores. Trata-se de fenômeno político extraordinário em paísque não conseguiu purgar suas origens escravocratas nem livrar-se do domíniopolítico-ideológico da casa-grande, que sobrevive sob o império da Faria Lima edo agrobusiness. Seu sucesso, uma vitória da classe operária que o formou, étanto mais significativo quando consideramos que o país que o elegeu mais umavez em 2022, fraturado pela ascensão do protofascismo, é ainda aquele no qual“a pirâmide do poder assenta sobre o vértice e não sobre a base”, comodenunciava José Bonifácio, o moço, no século XIX.

O ex-metalúrgico é o único emigrante das secas, o único nãodoutor,  general ou capitão, e o primeirobrasileiro a eleger-se três vezes presidente da república. Hoje é o primeirolíder da América do Sul com audiência mundial. 

É exatamente seu papel de líder mundial que quero pôr emrelevo, pois o destaque de seu desempenho deriva da qualidade de suasintervenções  mais recentes, como as deParis, diante de uma multidão que lotava o Campo de Marte, defronte à TorreEiffel, e sobretudo a que fez no dia seguinte, durante a reunião de cúpulaconvocada por Macron, quando ressaltou a prioridade do combate à fome, aresponsabilidade dos países ricos no enfrentamento à crise climática e afalência das instituições de Bretton Woods.

O Brasil, graças ao seu presidente, é hoje um ator globalque anuncia demandas, e pode ser a voz do Sul na cobrança de uma nova ordemmundial, superando alinhamentos automáticos, recusando o dictat das grandespotências, ao tempo em que pôe na mesa das negociações nossos interesses, quejamais se confundem com os interesses dominantes, os quais dão o tom dapolítica internacional.

Anunciamos um país e um continente que não têm partido nadisputa dos EUA com a China na tentativa que lhes interessa de preservar ahegemonia comercial e bélica, quando a humanidade aspira à construção de umaordem baseada na paz, no multilateralismo e na convivência civilizada entre asnações e os povos. O fortalecimento dos blocos regionais é conditio sine quanon, e nossa lição de casa  começa com ofortalecimento e a ampliação do Mercosul, a recuperação de organismos como aUnasul e o fortalecimento do BRICS.

A frente externa, todavia, pouco se sustentará se não contarcom o apoio da retaguarda nacional – caserna e empresariado –, que jamais seidentificou com as iniciativas brasileiras na execução de uma política externaindependente, vale dizer, sem subordinação de ofício aos interesses dos EUA,sede do grande capital brasileiro e fonte das doutrinas que dominam os coraçõese mentes dos militares brasileiros.

Mas é preciso concertar o discurso do governo. Em convescoteem Lisboa, ao qual não deveria ter comparecido, o bom ministro Flávio Dino, queboas esperanças tem despertado, decide-se por excursionar pela política externa,e nesse passeio bate de frente com nossa diplomacia, que, sob orientaçãopresidencial, persegue independência ante o conflito hegemônico promovido pelosEUA em face da emergência chinesa. Dino denuncia, como risco para a “democraciaocidental”, o deslocamento de poder para a Ásia. Para nosso ministro, os paísesasiáticos não “vivenciam” modelos assentados na democracia ocidental. AntonyBlinken assinaria embaixo.

Lula, esperamos, poderá cacifar internamente os efeitos desua diplomacia presidencial, mas, lembra o professor Manuel Domingos, ela “édesconcertante para os que querem continuar mandando em tudo”. Poderá, pois,estar aprofundando contradições internas.

O tempo, juiz de tudo, nos dirá.

 

***

 

Esbórnia republicana – Em artigo que precisa ser lido nasescolas do país (“Lisboa é uma festa”, O Globo, 29/06/2023), posto que o mesmonão se pode esperar de certos escalões do poder, a jornalista Malu Gasparretrata a nanoestatura moral e cívica de nossa classe dominante. Quem não oleu, ainda, que o leia, e passe adiante.

O negócio da exclusão – O Brasil, não se ignora, tem aterceira maior população carcerária do mundo, atrás apenas de EUA e China. Operfil dos nossos apenados também é conhecido: eles são majoritariamente jovenspretos pobres, de baixa escolaridade. Ou seja, aqueles de quem o Estadobrasileiro, estruturalmente perverso, só se lembra na hora de prender ou matar.Nesse contexto é pelo menos discutível um governo de mudanças, historicamentecomprometido com a justiça social, colocar a União como fiadora da construçãode presídios privados, em parceria com os estados. Que dados, extraídos dasexperiências conhecidas, são vistos como positivos? Quem irá fiscalizar essaspotenciais usinas de mão-de-obra barata?

 Por: Roberto Amaral.

* Com a colaboração de Pedro Amaral.

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