São cada vez mais fortes as evidências de que a mudança doclima está causando impactos negativos no modo de vida da sociedade e nofuncionamento dos ecossistemas. Já sabemos que enfrentar este cenáriodesafiador não é uma missão para o futuro, e sim uma prioridade para os nossosdias. Afinal, se não formos capazes de agir de forma estratégica, as condiçõesde vida para amplas parcelas da população serão cada vez mais prejudicadas, comriscos elevados para a saúde, segurança hídrica, segurança alimentar,infraestrutura urbana, entre outros aspectos.
O lado positivo é que os cientistas indicam que já estãodisponíveis os recursos e as tecnologias para adotar as medidas necessárias embusca de um desenvolvimento socioeconômico resiliente ao clima. Os custos paraa obtenção de energia eólica e solar diminuíram, assim como a tecnologia paraarmazenamento de energia e baterias teve grandes avanços, com custos 85%menores, o que possibilitará o avanço na adoção de fontes mais limpas. Isso éessencial, visto que precisamos reduzir 100% das emissões de GEE até 2050,sendo 50% até 2030.
Por outro lado, o desenvolvimento resiliente ao climatorna-se mais difícil de ser alcançado a cada incremento no aquecimento datemperatura média global. As opções de adaptação que são viáveis ??e eficazeshoje se tornarão cada vez mais restritas e menos eficazes conforme o aquecimentoglobal vai avançando. Infelizmente, algumas mudanças já são irreversíveis, comoderretimento de geleiras, destruição de ecossistemas, desertificação e perda debiodiversidade.
Diante desta realidade, alguns municípios já estãorealizando ações de adaptação, ainda de forma reativa devido ao impacto diretoem seus territórios. Planos de adaptação municipais são essenciais paradirecionar as políticas públicas e investimentos necessários, mas a mudança doclima deve ser tratada de forma integrada nos diversos setores da administraçãopública, como saneamento, mobilidade, habitação, saúde, cultura e meioambiente.
É fundamental termos políticas públicas de adaptação cadavez mais abrangentes, principalmente nas áreas urbanas, que vão concentrar maisde 80% da população mundial nas próximas décadas. Inovação e tecnologia sãopalavras-chave nesse processo, mas é muito importante compreender que anatureza deve estar no centro das soluções. As chamadas Soluções Baseadas naNatureza precisam fazer parte deste novo modelo de desenvolvimento.
Nesse sentido, a criação de unidades de conservaçãomarinho-costeiras que permitam a restauração e preservação de ambientes queestão na linha de frente da proteção da costa, como manguezais, recifes decorais, dunas e restingas, é essencial para a resiliência climática. Sãoexemplos práticos de como as cidades litorâneas podem contar com osecossistemas naturais como estratégia de adaptação e mitigação, já que osmanguezais também são capazes de absorver e reter carbono atmosférico,contribuindo para o equilíbrio do clima.
A natureza no entorno das cidades exerce um papel de filtro,melhorando a qualidade dos recursos hídricos que abastecem os centros urbanos.Além disso, essas áreas são essenciais para a conservação da biodiversidade,formando uma malha verde que acompanha os recursos hídricos e interligadiferentes ecossistemas.
Nas cidades, as áreas naturais podem agregar serviçosambientais como a regulação do microclima local, aumento da permeabilidade dosolo, reduzindo o risco de enchentes e enxurradas, e melhoria das condiçõesambientais de forma geral, garantindo maior contato da população com anatureza, fator tão importante para a nossa saúde e bem-estar. Os parqueslineares às margens dos rios são ótimos exemplos de Soluções Baseadas na Naturezano ambiente urbano, pois permitem o fluxo natural das águas, a permeabilidadedo solo e a preservação da biodiversidade.
Chegou a hora de incorporar a lente climática às políticaspúblicas já existentes, principalmente no planejamento urbano. Não é maispossível se basear em séries históricas que já não condizem com a realidade e,principalmente, com os desafios dos próximos anos. As cidades devem se prepararpara o aumento da frequência e da intensidade dos eventos climáticos extremos eos gestores, em todos os níveis, precisam compreender que a natureza é parte dasolução, também para os ambientes urbanos.
Por: Juliana Baladelli Ribeiro - gerente de projetos daFundação Grupo Boticário.
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