Sem povo e sem nação, sem projeto, fizemos país antes desociedade; por séculos, longe de constituir uma comunidade de sentimentos,fomos um aglomerado de gente diversa, senhores e escravos, sem noção de pertencimentocomum, negros e índios dominados por brancos de baraço e cutelo, senhores davida e da terra, caminhando em território imenso aberto à exploraçãopredatória. Na visão de Hilaire, uma população, apenas, carente de unidadequando o país já se preparava para sua emancipação. Ao cabo de 500 anos somos,ainda, uma nação por ser, uma expectativa: a profecia de Stefan Zweig que aperversidade da classe dominante transformou em maldição. País ainda em buscade seu destino, revela-se vincado pelatruculência que, estruturada a partir da violência do Estado de classes,pervade toda a sociedade, como o denota a desigualdade econômica elevada aníveis ignominiosos.
O traço essencial da formação histórica persiste nacontemporaneidade, a saber, o primado da ordem estabelecida, do poderconcentrado, da ditadura da classe dominante de par com a ideologia daconciliação, arguida para impedir a ruptura que enseja o progresso. A presençade um passado renitente. Um horror às insurreições das massas, todas esmagadascom extremada violência, desde os primeiros quilombos a Canudos e Contestado,ainda no século passado. O único levante vitorioso, a chamada “revolução” de1930, foi um movimento inter-oligárquico, liderado por três governadores deEstado e comandado por meia dúzia de oficiais superiores. A permanente rejeiçãoà mudança, um espectro insondável que é substituído pela preservação do statuquo. Somos um projeto lampedusiano. Assim, não fizemos nem a revolução social,nem mesmo a revolução nacional. Nossa independência, como é sabido, decorreu deuma negociação inter-monárquica arbitrada pela Inglaterra, a custos altíssimospara a nova província; seguem-se quase 70 anos de um império alheio aoprogresso. A classe dirigente imperialentrega o Estado aos herdeiros da casa-grande como indenização pelo fim daescravidão. Em 1889, um golpe militar levantado para depor o gabinete OuroPreto (indisposto com a caserna), derruba a monarquia e institui, sempre sempovo, um regime pretensamente republicano que, na verdade, representava oretorno à tradição luso-brasileira de concentração de poderes em torno do chefede Estado – antes imperador, doravante presidente da República e por muitosanos e em várias oportunidades, ditador.
Sérgio Buarque de Holanda, no seminal Raízes do Brasil,comentaria que a democracia, entre nós, foi sempre um mal-entendido. Ou,digamos, um regime que os militares jamais entenderam e que a classe dominanteadmite até o momento em que seus interesses podem (no seu imaginário) correralgum risco.
Diante da crise presente, esta que ameaça o governo recém ungido pela soberania popular,são alvitradas todas as lições da ciência política, a começar pela rainha detodas as artes, que é a conciliação, a negociação, a composição, o arrego e,até, a renúncia a projetos. Nessa equação não há espaço para o povo, que, emqualquer hipótese, pagará a conta histórica.
Contingências que não dominamos dizem-nos que pertencemos à“civilização ocidental e cristã”, e, por decorrência, somos peça da geopolíticamilitar sob o comando dos EUA. Dependentes, somos criticados quando intentamosuma política externa de simples não alinhamento automático com o Departamentode Estado. A globalização acelera o processo de desindustrialização e acentua oimpério do grande capital. O país pode ir mal das pernas, mas os especuladoresvão sempre bem, porque seus negócios pouco dependem de nossa economia,internacionalizada como seus lucros.
Em entrevista recente (Folha de S. Paulo, 17/07/2023), oministro da Fazenda diz-nos que o 1% de brancos multimilionários, que abocanha25% do total da renda nacional, não paga impostos, se aplica em um fundoexclusivo, como também não paga impostos quem ganha R$ 2.640.000,00, mas pagaimposto de renda o assalariado que percebe um piso de meros R$ 2.650,00. OBanco Central do Brasil – quartel da resistência antidesenvolvimentista –impõe-nos uma taxa Selic de 13,75% ao ano, o que equivale a juros reais de 10%,quando a inflação, em viés de queda, aponta índices de 3%. Nos EUA, modelo paratudo entre nós, com uma inflação de algo como 8% ao ano, os juros reais estabelecidos pelo FED giram em torno de 5 e5,25%.
É de todo consabido que a política de juros altos, mais quecaturrice de um burocrata poderoso, e ainda à solta, constitui atentado contraa economia nacional. Ela reflete a captura do Estado pela banca (que seconvencionou chamar de “mercado”) e, portanto, sua exigência de que a economiado país, não importa quantas bocas precisemos alimentar, priorize a garantia dofinanciamento do capital financeiro. Não há possibilidade, qualquer, derecuperação nacional sem oferta de crédito, seja ao produtor (que está longe daFaria Lima), seja do consumidor. Juros estratosféricos e crédito constituem umaantinomia. A inflação está em queda, fala-se, até, em deflação, o dólar cai,mas o BC quer juros altos. Por quê? Porque, ele mesmo diz, teme a recuperaçãodo mercado de trabalho. Para os Chicago boys, onipresentes no noticiárioeconômico, queda do desemprego é sinônimo de aquecimento do mercado, porque oaumento do número de trabalhadores empregados pode pressionar para cima ossalários e produzir inflação. Em outras palavras, o que o BC persegue é odesemprego, a estagnação. Assim, temosgoverno e sociedade lutando pela criação de emprego e renda, e a grei deRoberto Campos Neto (que não nega suas origens) forcejando desemprego.
A grande imprensa, porém, defende tudo isso, como reclamaquando Lula enfrenta a União Europeia na defesa do Mercosul. E critica asiniciativas visando à recuperação industrial, mesmo as mais tímidas, como a prioridade das comprasgovernamentais.
É a vez de lembrar uma justamente esquecida ministra daFazenda para quem, em sua política, o povo era apenas “um detalhe”. Este é opano de fundo das negociações que se desenvolvem em Brasília e alhures,encoberto pela versão impressionista da grande mídia.
A república assiste, algo ausente, ao drama quase solitáriodo presidente Lula neste toma lá dá cá que começa a definir seu rumo, o governopossível, determinado pelas circunstâncias da política real: o império de umacorrelação de forças que põe o governante à mercê do jogo imposto pelosderrotados nas eleições presidenciais, porque se aceita a correlação de forçascomo um determinismo, e não como uma contingência.
O sistema político-institucional governante está esgotado.Dessa evidência solar nos recusamos a tomar consciência, temerosos de assumirsuas consequências.
Os derrotados governam. Porque são derrotados que, noentanto, controlam o Congresso, efetivo delegado do poder hegemônico que vem doengenho e da casa-grande e chega, imutável em 500 anos, à Faria Lima, filial dogrande capital que nos governa de Washington, como já nos governou por mais decem anos a partir da City de Londres. De lá manipula a vida brasileira – da economiaà política.
Para permitir o governo democrático na sucessão do projetoprotofascista (determinada pelo segundo turno de 2022), a direita que atende pelo codinome deCentrão, após ameaçar a governabilidade, exige agora a coabitação, que implicaposição de mando de que decorre intervenção política no governo.
Se a frente ampla partidária montada por Lula para assegurara vitória mostrou resultados, o mesmo não se pode dizer daquela, amplíssima,que o presidente arquitetou para governar. A direita quer mais. O país conheceas habilidades de Lula como negociador, mas ele se encontra diante de um fatoconcreto, que os estrategistas de centro-esquerda devem estar estudando: seganhamos as eleições presidenciais, perdemos as eleições legislativas. Este juízode fato cobra uma resposta.
Temos que nos lembrar do porquê de havermos depositado todasas nossas forças em derrotar eleitoralmente o protofascismo liberal (essemostrengo brasileiro) e retomar o comando da administração pública, e assimlembrando retomar a batalha ideológica, a educação das massas, a denúncia doprojeto da classe dominante e a defesa da alternativa popular.
Apenas dar fim às maiores aloprações bolsonaristas e recriaralguns bons programas de nossos governos anteriores – tarefas, sem dúvida,necessárias – não parece suficiente nem para enfrentar os desafios presentes,nem muito menos para fincar as bases de um projeto de longo prazo.
A extrema-direita, forte, espreita. E os representantes dacasa-grande, a direita que não zurra, sabem muito bem colocar um pé em cadacanoa – fazem isso há 500 anos, sem jamais cair. O desafio colocado pera aesquerda pode ser o de retomar suas origens; sem esquecer o aqui e o agora,pensar no médio prazo e retomar agora como prioridade a abandonada organizaçãopopular. Aí então, ao invés de objeto, o povo assumirá seu papel de agentehistórico.
O que não podemos é perder sem lutar.
***
Mau passo – Não é adequado, nem conveniente, o ministro daFazenda do Brasil se permitir dissertar, em entrevista, sobre como deve se daro processo eleitoral na vizinha Venezuela – país com o qual desejamos, assimentendo, normalizar relações. Será que todo membro do primeiro escalão dogoverno brasileiro pode, agora, se sentir à vontade para dar palpite sobre osistema político dos EUA? Ou da China? Da Rússia? Ou, ainda, da Turquia, do Irãe da Arábia Saudita? Ou vamos naturalizar a noção de que de algumas naçõesamigas, decerto não todas, podemos tranquilamente puxar a orelha em público,para o gozo de folhas e pasquins?
Por: Roberto Amaral.
* Com a colaboração de Pedro Amaral
Bahia Pedrão sedia seminário sobre produção florestal baiana na quinta-feira (29)
Alagoas Publicada lista final de solicitação de isenção de taxa para o concurso dos bombeiros
Alagoas Corpo de Bombeiros detalha instrução de segurança para pontos de recarga de veículos elétricos
Bahia Jovens cientistas do município de Serrinha criam bebedouro sustentável para gatos
Alagoas Praia de Lages e Barra de São Miguel conquistam pela primeira vez o selo internacional Bandeira Azul
Bahia João Mérin é o artista da semana no Selo Educadora FM Independente Mín. 23° Máx. 39°
Mín. 26° Máx. 40°
Chuvas esparsasMín. 23° Máx. 36°
Tempo limpo