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O desafio da mobilização popular

O desafio da mobilização popular

17/09/2023 07h59 Atualizada há 3 anos atrás
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O desafio da mobilização popular

Ninguém de bom senso jamais cultivou dúvida quanto àsdificuldades que aguardavam o terceiro mandato de Lula (Cândido ficou preso naspáginas de Voltaire). Elas foram anunciadas e levadas a cabo, uma a uma, já apartir do governo Dilma Rousseff, com a decisiva participação do STF e, nele,do inefável Gilmar Mendes, um e outro peças fundamentais na engrenagem doimpeachment e no mostrengo em que se converteu a chamada Lava Jato, súcia dejuízes e procuradores do MP cujos crimes, hoje de domínio  público, aos poucos se vão comprovando.

O exercício da política, todos sabem, não se dá no espaçosideral e não se cinge à livre escolha dos agentes: entre o querer e arealidade interpõe-se a chamada “correlação de forças”, que condiciona ações deuns e outros. Mas não se trata de império: o homem é sempre sujeito do processohistórico, porque pode sempre alterar as condições objetivas, aquelas legadaspelo passado. Diante do fato histórico ele se define, e escolhe seu destino.Este, o desafio que a história presente coloca para  Lula, que  precisa precatar-se para fugir do risco detornar-se prisioneiro das circunstâncias, pois, sabem os negociadores, oacordo  de hoje não tem validadepreestabelecida e seu termo pode se dar a qualquer momento. É similar ao pactode Fausto com o diabo. Este cuidado é tão mais precioso quanto as negociaçõesse fazem por detrás das venezianas  e àmíngua de qualquer  discussão pública.Devendo e podendo explicar-se, pois tudo tem a dizer, Lula transfere o ofíciopara a grande imprensa, que assim se regala no seu papel de desinformar. Opovo, que a tudo assiste sem entender, porque nada lhe é dito, se queda emsilêncio, e o presidente, conta a imprensa, se pergunta por que “não há maismobilização popular”, depois de anunciar que “o Centrão não existe”. Ora, presidente,o “Centrão” existe, e não só existe como controla o Congresso (de que oExecutivo depende) e, sob sua gerência pessoal, instala-se em nosso governo. Etalvez neste fato se possa dizer ao presidente que o povo não está mobilizadoporque não é corretamente informado e muito menos foi chamado à lide. Em nenhummomento o presidente se dirigiu ao país para explicar a crise de governo e anecessidade de conciliar com adversários. Dada essa satisfação – um dever tantopolítico quanto ético – o presidente teria estimulado a mobilização de cujafalta hoje se ressente, estaria mais forte, e, sem dúvida, teria reduzido oalto preço já pago e ainda por pagar às forças do atraso com as quais, nãopodendo terçar armas, deu o abraço de boa acolhida.

Uma explicação para essa reclamada ausência das massas o presidente pode  encontrar no fato concreto de, em pleno décimo mês de um mandato de quatro anos,ainda não dispormos de um ministério confiável, que é como um governo seapresenta. Esse ministério que ainda se equilibra na Esplanada, velho de dezmeses, mexido, remexido e sempre à espera de novas mexidas, permanece umgabinete pró-tempore, uma expectativa do que não se sabe que está por vir. E,assim como é alterado, ao sabor de jogos de interesses menores, sem atender alinhas político-programáticas, torna-se um ministério sem feição definida, comoas nuvens de verão: ao sabor  daspressões. Como reclamar a necessária mobilização das massas sem anunciar-lhe umrumo, para além da notória e muito aplaudida opção do presidente pelo combate àmiséria e à fome?

“União e reconstrução” é um slogan razoável, mas distante desugerir o projeto de país que se requer do governo de salvação nacional, apóscampanha eleitoral que, necessariamente presa à questão democrática, ingente,não ensejou o debate programático. As políticas táticas, como o Bolsa Família,aguardam o concerto de um programa estratégico que, constituindo um todoorgânico e lógico, fale do curto, do médio e do longo prazos. Este ainda poderáser o grande legado do governo de centro-esquerda, para além da consolidaçãodemocrática.

A única forma de preservar suas conquistas, e esta deve sera expectativa do bom estadista, é fazê-las patrimônio popular. Por quedesprezar essa alternativa, exatamente quando nosso governo é acossado pelosistema?

A movimentação das massas, como tudo aliás, não é efeito semcausa, não é fenômeno político autônomo, não é obra do acaso e, quando não setrata de instrumento de poder fascista, depende de elementos subjetivos (apalavra de ordem mobilizadora) e objetivos (seu nível de organização política).

Estamos em face de uma relação dialética: a mobilizaçãodepende de palavras de ordem tanto concretas quanto corretas, e as políticas deEstado só se sustentam na medida em que constituem patrimônio da coletividade.Portanto, precisam de ser, didaticamente, discutidas com os movimentos sociais:qual, porém,  a sustentação social quetêm (ou podem ter)  as atuais negociaçõesde pastas em busca de apoio parlamentar? De outra parte, e retomo outraobviedade,  não é possível manter apolítica externa, que ainda é, hoje como nos dois mandatos anteriores de Lula,o que de melhor e mais coerente foi ofertado ao país, sem discuti-la com asociedade, para envolvê-la no projeto de soberania nacional. Como enfrentarmosa violência larvar sem discutirmos com a sociedade sua raiz social? Comoenfrentar o reacionarismo e o intervencionismo político da caserna semdiscutirmos com a sociedade quais as forças armadas de que o país carece?

Não basta olhar a esmo para o tempo, injustificadamentesurpresos,  e  ao cabo descobrir que somos uma sociedadeconservadora e, desvendado o segredo de polichinelo, aceitarmos o cenáriooferecido como um édito dos deuses, diante do qual aos mortais, e somos todos,só resta conviver, apacientados os espíritos rebeldes.

Se  setores daesquerda organizada precisam se dar conta dos limites do pacto  – tanto daquele que levou à eleição e possequanto o pacto governante-, precisam de, a igual modo, dar consequência àpercepção de que muito do que vivemos desde 2013 é decorrência  -– de nosso abandono da luta ideológica:caminhando por desvios táticos e incompreensão histórica, terminamos porrenunciar à militância, ao “chão de fábrica” e à organização das massas.  Ressalvo a exceção em que se constitui o MST.  Acompanhámos indiferentes a crise do trabalho na produção capitalista enos surpreendemos com a crise política do sindicalismo. Mas, acima de tudo, a esquerda renunciou à educação das massas, a mais revolucionária daspedagogias, deixando espaço livre para o avanço do conservadorismo que caminhapara o protofascismo, lavrando em  todosos estratos sociais.

Essas questões se oferecem para  quando forem estudadas nossas dificuldadespolíticas presentes. Por enquanto, é de bom conselho afastar de nossascogitações a crença bovarista de que a vitória eleitoral do último 30 deoutubro encerra o fim da história.

 

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O horror e a chicana – Dados do Global Wealth Report 2023,divulgados recentemente pelo banco suíço UBS, mostram o Brasil no topo doranking da desigualdade, superando gigantes como Índia e EUA, com o 1% dos maisricos concentrando nada menos que 48,4% da riqueza produzida no país. No Japão,a cifra fica em 18,8%, segundo o relatório. Marcio Pochmann, presidente doIBGE, completa a informação aduzindo que os chamados CEO´s (presidentes ediretores de empresas), por aqui, chegam a ganhar 5 mil vezes mais que os seussubordinados, e muitos desses diretores alcançam ganhos superiores a R$ 1milhão por mês.

Nesse quadro de desigualdade (que Pochmann qualifica como“indecorosa”), os porta-vozes do grande capital – os mesmos que, décadas atrás,tonitruaram ser um “desastre” a implementação do 13º salário sancionada porJango – agora fazem terrorismo com a perspectiva de se limitar a cobrança dejuros escorchantes por parte das instituições bancárias.

No mesmo cenário, a equipe econômica de Lula dá um péssimosinal ao tentar, por meio de uma chicana, flexibilizar os pisos constitucionaisda Saúde e da Educação – essa pequena mas valiosa conquista civilizatória deuma nação que tarda a nascer.

Por: Roberto Amaral.

Com  a colaboraçãode Pedro Amaral.

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