“Nem eletricidade,nem comida, nem água, nem gás. Estamos lidando com animais humanos e agindo deacordo.” –Yoav Gallant, Ministro da Defesa de Israel
Concerto de elos, a História é tecida por fatos que seexplicam uns pelos outros, como as ondas do mar, que se parecem autônomas,quando toda vaga é a sequência da anterior e ao mesmo tempo o impulso da ondaseguinte. Um feito, um evento, uma transformação social, uma ruptura ou umacomposição explicam outros sucessos, numa cadeia de interdependência causal emque atuam elementos políticos, econômicos, culturais e sociais, em níveis que não podemos estabelecer É essa correlação sequencial que dá sentido aos acontecimentos e à vida política, o produto dialético do encontro doconflito com a harmonia, entre racionalidade e irracionalidade, arbítrio enecessidade, força e debilidades, contradições e antíteses.
Uma das formas mais corriqueiras de fugir da realidade, eassim fugir de seu significado para emprestar-lhe outro, é tratá-lo comofenômeno isolado, autônomo, desistorizado. É o que faz a grande imprensaocidental soi dissant livre e isenta, embora dependente do grande capitalinternacional, que lhe fornece sumo e ideologia, e dita sua versãoparticularíssima dos fatos, quando, sabidamente, a história é uma sequência decausalidades. Como na ciência, a história não conhece efeito sem causa: a “paz”só se proclama depois da guerra.
A política, porém, pode guardar conceitos distintos parafenômenos semelhantes. A chamada “opinião pública internacional” grafou como“crime contra o direito internacional” a invasão da Ucrânia por uma Rússia quealegava o direito de defesa em face das ameaças à sua segurança. E não hádúvida de que se tratam de crimes, a invasão e a ocupação. Mas para a mesmaopinião pública não constituem crimes ainvasão de Gaza e o assassinato de milhares de civis. Ninguém ousa chamar àsbarras do tribunal penal internacional, como criminoso de guerra, que é, o comandante do ataque genocida contra ospalestinos.
A crise de hoje no Oriente médio chega como escombro dasúltimas guerras do mundo ocidental, e se insere no jogo da disputa geopolíticadas últimas décadas – a mudança de guarda. E mais se acirra quanto mais os EUAdesconfiam da fatalidade cíclica de sua decadência, que, no entanto, cobraráainda muitas guerras até seu desfecho, que pode ser ou não o temido armagedon.Trata-se, por enquanto, a guerra dehoje, de capítulo doloroso, mas aindanão o mais cruel, de um vastoderramamento de sangue. É o raio antes da tempestade. Até seu epílogoviveremos, como vivemos, à mercê de todas as guerras: a guerra econômica, osbloqueios, as guerras híbridas, as guerras aparentemente isoladas, a guerraideológica preparando o terreno para o confronto de forças e a dominação,escrevendo a versão dos fatos, que é sempre a do vencedor.
Em O que fazer com o militar (www.gabinetedeleitura.com),Manuel Domingos Neto observa que todas as guerras compreendem o permanentecombate de opinião, a estratégica conquista de “corações e mentes”. Essainfantaria prepara o desembarque dos“marines” de todos os exércitos. Somos instrumento das disputas de espaço,marcas do conflito que põe em confronto as potências que conformam a disputahegemônica. Somos parte, pela simples condição de existência, mas sem podermosser sujeito do processo histórico, ditado pela correlação de forças em uma geopolíticaque nos é imposta. A guerra é mundial porque interfere nos interesses dasforças que disputam a hegemonia do globo. O conflito, que se instala no Oriente e divide os árabes, já chegou àEuropa depois de contaminar a Ásia e quase destruir a África, fenômeno poucovalorado porque não vitima brancos. Umaforça é o mar, outra o rochedo. Em meio ao entrechoque está o molusco, que sãoas periferias do poder. Não dispõem de audiência, nem são ouvidas quando ousamfalar. A troca de mando às vezes cobra séculos, pede uma longa gestação, lentae grave, e a délivrance é de difícil estimativa. Estamos em trânsito entre a pretensão deunipolaridade comandada pelos EUA, no rasto da debacle da URSS, e a pretensãode bipolaridade anunciada com a emergência da Eurásia, liderada por uma Chinacapitalista e poderosa. O poder não se compartilha, como ensinou Maquiavel ecantou o bardo com a triste saga do infeliz Rei Lear. Assim os principados,assim os impérios, assim as repúblicas, na guerra e na paz, que, no final dascontas são irmãs siamesas.
Em nome dessa beligerância, necessidade do império, oprimeiro-ministro de Israel se dirige aos palestinos, que sonha eliminar:“Vamos transformar Gaza numa ilha deserta. Aos cidadãos de Gaza eu digo: vocêsdevem partir agora. Vamos atacar todos e cada um dos cantos da faixa”.
Mas os palestinos não têm para onde fugir, não mais estãolivres as grandes jornadas pelo Egito, embora carreguem nas costas odestino-penitência que já foi dos hebreus. Fogem de casa para tentar sobreviver,mas não encontram trilha para caminhar, nem um Moisés para lhes abrir o MarVermelho. Não há mais Canaã e dos palestinos foi tomada a terra prometida. AONU, já sem razão de ser, não tem forçassequer para negociar um corredor humanitário. Praticamente se limita a lançarapelos exasperados nas redes sociais, como o cidadão comum, perplexo eimpotente.
Com seus mais de dois milhões de habitantes, virtuaisprisioneiros, o gueto de Gaza é o maior e mais superlotado conjunto prisionaldo mundo. Algo como milhares deCarandirus a céu aberto.
Quem é a potência que ameaça esmagar Gaza? Israel, Estadoprotetorado dos EUA, por quem é armado, e hoje protegido pelo que o Império temde mais sofisticado como arma de guerra; investe R$ 120 bilhões nas suas forças armadas e serviços desegurança. Controla as fronteiras, os céus, a costa marítima, astelecomunicações e a economia da Palestina.
Israel ocupa 22 mil km² abrigando uma população de 9, 3milhões de habitantes. Gaza é umaestreita faixa de 365 km² esmagada entre o inimigo luciferino e o mar.
O livro dessa história já tem muitas páginas vividas, e não há nada de novo no front.Entre 1933 e 1936, cerca de 60.000 judeus chegam à Palestina, fugindo àsperseguições do nazismo. Em 1948 a ONU consagra a fundação do Estado de Israelocupando mais de 78% do território da Palestina. O preço não seria módico paraos despejados: destruídas 530 aldeias, 15 mil palestinos assassinados,750.000 condenados ao exílio na sua própriaterra. A história se repete, como tragédia. Gaza é a Varsóvia do século XXI,sem os louros do heroísmo que adorna o Levante daqueles 60 mil judeus a quem sófoi dado escolher o meio da morte certa: nas câmeras de extermínio dos camposde concentração, ou na batalha desigual contra o opressor. Antes de se tornar aterra arrasada de hoje, Gaza, aquela estreita faixa espremida nas fímbrias domar, era habitada por mais de dois milhões de pessoas. Cabe-lhes agora, comocoube aos judeus do Gueto, tão-sóescolher o instrumento da morte, muitopróximo do suicídio: permanecer sob os bombardeios ou seguir a diáspora forçada, sem rumo, sem esperança.
Os judeus do Gueto optaram por morrer lutando, e lhesredemos merecidas homenagens. Agora dizemos aos palestinos que não lutem.
Gaza foi transformada em monstruoso gueto a céu aberto. Omassacre é a Guernica do mal iniciado século XXI, à espera de um Picasso. Mas esse horror desperta apenasestupefação, em meio à indiferença e cinismo que confundem a moralmenteimperiosa defesa da vida de palestinos e outros não-brancos como saudação aoterrorismo, indefensável em quaisquer desuas ações. O maniqueísmo é o mais primitivo dos julgamentos humanos.
As crianças israelenses precisam voltar a suas casas emIsrael sãs e salvas, para o afago de suas mães, para os abraços de suas irmãs eirmãos nas linhas de combate; precisam voltar para suas famílias, na sua maioriacolonos nascidos fora de Israel. Mas as crianças palestinas não têm para ondevoltar. Já não têm lar; tomaram-lhes aterra sua e de seus antepassados, e hoje são condenadas a sumir da face daterra. Muitas já são órfãs desta guerra e de outras guerras.
Na preparação dos ataques contra Gaza e seus civis –incluindo crianças, mulheres e velhos, escolas e hospitais, bairros e prédiosresidenciais – a democracia ocidental-cristã, com as armas de Israel, cortou oacesso dos palestinos a água, energia, alimentos e medicamentos. E foideterminada a diáspora em curso. Aos que tentam fugir na iminência de novaNakba, ou caástrofe, o Egito nega passagem, enquanto as belonaves americanascontrolam o Mediterrâneo. Sua simples presença instila temor nos civis, mas oléxico político hegemônico não permite a classificação de terrorismo.
Nada, porém, ésuficiente para mexer com os brios cristãos. Ao final, sobrarão destroços,sucata de tudo, mas principalmente destroços de gente. Mas essa gente nãoconta. São palestinos, povo sem pátria, sem terra, de quem nós (os ocidentais)tomamos tudo: a vida dos que perecem e a esperança dos que sobreviverem; atodos negamos a expectativa de existência. Ao fim e ao cabo, o pó; amanhãtão-só um registro histórico, como Lídice. E o inútil Conselho de Segurança daONU continuará se reunindo e os EUA (que acabam de vetar resolução propostapelo Brasil, que pedia um cessar-fogo entre o Hamas e a força ocupante) a ditarregras sobre democracia e liberdade, pensando em sua crise interna.
O espetáculo visual dos bombardeios riscando os céus,trazido pelos noticiários da televisão, se apresenta para nosso desfastiopequeno-burguês como se fôra um videogame, tal qual aquele em que se converteuo bombardeio do Iraque pelos EUA. Imagens das quais retiramos a alma.Fascinados pelo show das bombas, não nos perguntamos sobre que e sobre quemelas caem. O espetáculo de mísseis e drones iluminando os céus de uma Gaza àsescuras se justifica por si, em sua estética mórbida.
O raio de sol em céu azul, a suposta surpresa do atentadoterrorista, é simplesmente um dos momentos cruciais de 75 anos de ocupação e 16anos de embargo sobre Gaza. Como lembrava William Faulkner: o passado nuncaestá morto; aliás, nunca é passado. De onde vêm as surpresas?
O Israel feito Estado pela “comunidade internacional” emlouvor à liberdade e ao direito de ser, é hoje um Estado teológico-colonial, uma força de ocupação, anacronismohistórico alimentado pela política expansionista e guerreira do Pentágono,voltada à disputa presente e futura com a Eurásia, como o náufrago que tentafugir das ondas. Como a Inglaterra ao tempo de seu Império precisou refazer omapa do Oriente, os EUA, ocupada a Europa, estão determinados em conter em suas mãos o Oriente Médio.Fazê-lo guerrear, dividir o mundo árabe, ameaçar de extinção sociedadesmilenares, é alternativa tática a serviço da hegemonia.
O tempo está ficando escasso para uma humanidade sem luz.
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Perguntar jamaisofende – Por que, de fato, o jornalistaHélio Doyle foi exonerado da presidência da Empresa Brasil de Comunicação(EBC)? O governo nos deve explicação.
Por: Roberto Amaral.
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