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As esquerdas e o desafio de voltar ao combate

As esquerdas e o desafio de voltar ao combate

28/10/2023 18h23 Atualizada há 3 anos atrás
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As esquerdas e o desafio de voltar ao combate

"O socialismo comprometido com a democracia burguesaainda é uma forma de reprodução do sistema capitalista de poder"

– Florestan Fernandes

 Em entrevista à revista Casa de las Americas (Cuba), noinício de 1990, Darcy Ribeiro fala-nos do desalento que naqueles idos seaplacava sobre os movimentos populares e socialistas: a esquerdalatino-americana desanimada, a esquerda mundial acovardada. Naquela altura, noBrasil, sob o pálio da Nova República, vivíamos a experiência dos governosneoliberais, vencidos os sonhos libertários da luta contra a ditadura.Conquistáramos a democracia burguesa, numa guerra que conheceu o ferro e ofogo, deixando cicatrizes irremovíveis, mas estávamos ainda mais distantes dareforma social, razão de tudo. As consabidas dificuldades de compreender oprocesso histórico paralisam o movimento social e seus pretensos condutores sequedam, atônitos, sem saber o que fazer. Os céus sem nuvem e sem estrelas nãosugerem caminhos. Por não haver entendido o significado da “revoluçãobrasileira”, não tivemos condições de sustentar o governo Jango; por nãohavermos compreendido a natureza do golpe de 1964, ficamos impossibilitados detravar o combate que as condições históricas indicavam. Após 21 anos deditadura, os militares preestabelecem as condições de descida da rampa doPlanalto, e o regime da caserna, decaído, se projeta no regime daredemocratização. 

Darcy não cogita do pano de fundo histórico da tristeza e daapatia da alma ocidental na última década do século: o desmoronamento da maisbela utopia humanista que o homem já concebera, despedaçada nos escombrosdaquilo que se convencionou denominar de “socialismo real”. O mundo dos sonhoscedia espaço à desesperança.

Despida de desafios, sem alternativas por construir, e plenade dúvidas e de interrogações, a política fracassara. Era o momento azado debalanços políticos e existenciais sobre os 74 anos da revolução russa, posta nasoleira da história. Encerrava-se, em dezembro de 1991, com um suicídioburocrático, uma longa e dolorosa saga de lutas por transformação social.Encerravam-se as expectativas ensejadas pela vitória sobre o fascismo naSegunda Guerra Mundial, mas a sociedade solidária e a paz continuavam distantes.  Diante de uma humanidade perplexa, jazia, semluta, sem resistência,  o campo soviéticoque  anunciara ao mundo a alvorada:promessa de contenção do imperialismo e esperança de construção de uma novaordem mundial, livre do colonialismo e do imperialismo. Sua queda representavaa derrota de todos os revolucionários do mundo naquele século, e anunciava avitória final e definitiva do capitalismo. A esquerda, em todo o mundo,despreparada para a orfandade inesperada, se quedava sem espólio, e caminhavaclaudicante à procura de um ponto de apoio, fosse de recuo, fosse a imaginaçãode um novo sonho (sem o que é impossível lutar), fosse a expectativa derecuperação de seus valores ameaçados. A URSS, a Roma dos comunistas esocialistas, optara pepela autoimolação e seu fracasso abria o cenário paraa  onipotência estadunidense. O fim dahistória era o decreto que se abatia sobre as grandes massas trabalhadoras,condenadas a uma diáspora ideológica.

 

Findava-se a era das utopias.

A debacle soviética (e com ela o fim de uma ortodoxiadoutrinário-ideológica) havia enterrado o projeto do “socialismo real” (o únicoque se pensava possível) e punha em questão a força libertária domarxismo-leninismo, nada obstante ainda estivesse presente a dedicação doscomunistas e socialistas na luta por um mundo que antes parecia caminhar parauma sociedade, senão igualitária, certamente menos iníqua em comparação àquelaque herdávamos.  Já seria uma vitória havermoschegado ao final do século XX vendo à distância a ameaça do armagedon nuclear,e os comunistas se identificavam, em todo o mundo, na defesa da paz. Nem tudoera perda, por certo, mas a derrota do modelo burocrático abalara, em todo omundo, o projeto socialista, demolindo uma a uma suas praças, a começar pelabatalha ideológica, trazendo à cena a crise dos partidos.

Os partidos comunistas e socialistas pagariam o preço daautodissolução, e o ponto de incisão foram os grandes partidos comunistas daItália e da França. Cada um, segundo sua natureza e sua história, em processoque percorreu o mundo, conheceu a partir dali sua decadência. E dela não se viulivre a América Latina. Ficara o que Darcy identificava como “a falta de ter emque acreditar, até entre gente jovem”.

O fim das organizações implicou o recesso da lutaideológica, deixando com a direita o monopólio da fala. A dificuldade decompreender o processo histórico determinou tanto o recesso do trabalhoorganizativo quanto o dever da educação das massas, atraídas por apelos deintegração no sistema, induzida pelo capitalismo monopolista que avançava mesmona periferia subdesenvolvida.

Darcy, que foi poupado de conhecer a história do presente(seu ponto de observação era a França mirando para o então terceiro mundo) viaparcelas ponderáveis de nossas esquerdas, deprimidas por algo como uma criseexistencial coletiva, darem um passo atrás “avassaladas frente a uma direitaagressiva, soberba e até insolente”.

No nosso século, por força de inumeráveis fatores, arevolução social se transmuda em reformismo, e, em muitos casos, a “direitaagressiva” ameaça a civilização, impondo à esquerda -- voltamos ao Brasil-- ocompromisso  de defender a ordem, depoisda traição dos liberais, da renúncia política da social-democracia paulista edo trânsito da direita dita civilizada para uma extrema-direita de índolefascista.

A contingência impôs à esquerda brasileira – já sem aquelainfluência exercida pelos quadros comunistas no passado remoto – o deverpresente de  defender ainstitucionalidade democrática, ante as ameaças do projeto protofascista que,derrotado nas urnas em 2022, permanece ativo, construindo essa contradição porresolver: o conformismo da esquerda, seu espanto e s apatia (que tantoincomodavam Darcy), e o inconformismo de uma “direita agressiva, soberba e atéinsolente”, presente e majoritária na governança do mundo.

O quadro de hoje, portanto, parece mais grave do que aqueleque o autor de O povo brasileiro analisa. Ele pode ser reduzido ao avanço dadireita em todo o mundo e em todos os campos da vida social, pois se expressatanto do ponto de vista ideológico quanto no campo militar e tecnológico,alimenta conflitos, fomenta guerras e realinhamentos geopolíticos-estratégicos,na preparação do conflito com a Eurásia, na disputa inevitável pela hegemoniado mundo, opondo principalmente EUA e China, ao fim e ao cabo um conflitointercapitalista, o que, todavia, não pode esconder o papel progressistadesempenhado presentemente pela República fundada por Mao Zedong. 

Os EUA de hoje, uma presa agressiva da díade Trump-Biden,oscilam entre a direita do Partido Democrata e a ultradireita do PartidoRepublicano, representações da polarização político-social do maior arsenalatômico do mundo. É desse Estado belicoso, expressão maior do grande capital nacrise aguda em que se que encontra o modo de produção capitalista, que ahumanidade vê crescer a hegemonia econômico-militar sobre o mundo, na busca daunipolaridade.  Tanto quanto seu arsenalbélico funcionam os mecanismos de manipulação de “corações e mentes”: osmarines são precedidos pela batalha ideológica e o controle das fontes deinformação. A grande imprensa brasileira, servidora da visão de mundo doDepartamento de Estado, é exemplo paradigmático de nossa dependência, que é adependência ideológica do chamado “Ocidente”, que nada nos pode oferecer, senãoconsolidar nosso papel “de proletariado externo das potências cêntricas”, comoobservou Darcy.

Variados foram os títulos da irrealizada revoluçãobrasileira: nacional libertadora (quando a “questão  nacional” se sobrepunha à “questão social”),democrático burguesa, antifeudal e anti-imperialista etc. Pensou-se até, nosidos dos anos 1960, em revolução socialista por dentro do regime,  sonho esmagado pelos militares em 1964.  Intentamos marchas sertão adentro e, por nãoconhecer o processo histórico, que não concilia com transplantesrevolucionários, chegamos mesmo a uma tentativa de putsch, o erro crasso de1935, para em seguida renunciarmos à imaginação revolucionária e abraçarmos aluta nacionalista. Optamos, por fim, pela composição com a institucionalidade,pelo que a estratégia revolucionária foi substituída pela tática da composiçãopolítica, mediante a hipótese de conquista de governos de centro-esquerda parafazer por dentro do Estado burguês, e no capitalismo, a reforma socialpossível.

O sucesso político da campanha de 1989 disse às esquerdasbrasileiras, e disse principalmente ao PT, a organização hegemônica, que já erapossível a conquista do governo mediante o processo eleitoral. Dessa avaliaçãoderivaria nossa política coletiva desde aquele então: a necessidade de comporcom o establishment. Sua execução, porém, exigiu a renúncia a qualquer propostasocialista e impôs a opção social-democrata de governo, que tanto combatêramos.Ao fim e ao cabo, a opção tática de conquista do governo – limites aos sonhos eapego às composições – impôs sérias limitações estratégicas. A esquerda, paravencer as eleições, haveria de caminhar ao centro e, para governar, compor coma direita. Os melhores programas partidários ou de governo teriam de passarpela destilaria da realpolitik. Assim, o PT deixou de falar em socialismo, aesquerda deixou de denunciar a sociedade de classes, a organização popular foirelegada às traças, a formação ideológica das massas populares e sindicaisesquecida. E sobre a revolução abateu-se silêncio sepulcral. O socialismo, noprojeto de um partido proletário revolucionário, foi remetido às calendasgregas, dizia-me há pouco, sem qualquer eiva de crítica, um amigo dirigentecomunista.

Hoje, no governo, trabalhamos com afinco e sinceridade paratornar a sociedade de classes suportável pelas grandes massas.

Como observa Florestan Fernandes, escrevendo sobre essetempo  “a revolução socialista perdeu asua poesia e o advento do comunismo passou a ser negligenciado” (Contra osocialismo legalista), esquecidas nossas lideranças de que a alternativasocialista não cai do céu, não banha as flores como o orvalho, nem rega a terracomo a chuva. O socialismo, ensina o mestre de todos nós, que acabo de citar, éo fruto do confronto direto de forças irremediavelmente antagônicas,  o tour de force do embate com a vida concretano mundo real: o trabalho como mercadoria, a exploração da mais-valia comofundamento do lucro, a aceleração da acumulação capitalista premiando orentismo e a especulação, enfim a luta de classes, subsumida, hoje, pelaintegração na institucionalidade burguesa como aspiração política.

É o Brasil da industrialização da segunda metade do séculopassado, o capitalismo monopolista que se segue ao fim da Segunda GuerraMundial, a vitória dos EUA na contenda da Guerra Fria e, seu corolário, aassociação das burguesias nacionais com o imperialismo. E que chega àatualidade reproduzindo o início da história: somos país pobre nos subúrbios docapitalismo dependente.

Este, o quadro de hoje, quando precisamos salvar, com baseno apoio popular, negligenciado, o governo do presidente Lula, minado pelacoabitação com o Centrão e a direita, fragilizado em face de sua minoria em umCongresso reacionário e chantagista, minado em suas bases pela resistência dacaserna, pelo agronegócio predador, irmão gêmeo dos grileiros e garimpeiros quedestroem o meio ambiente e o habitat dos povos originários.

***

A partilha do poder – Confirmou-se:  o presidente Lula entregou a presidência daCaixa Econômica Federal, um dos maiores bancos sociais do mundo, ao Centrão,mais precisamente a um preposto, logo mais um factótum de Arthur Lira, que, deimediato, cumprindo sua parte no trato, liberou o plenário da Câmara dosDeputados para aprovar projeto que previa a taxação dos super-ricos, pautaessencial da agenda econômica.  O preçofoi muito alto, o governo, acossado, pagou o resgate, e a encomenda foientregue, como acordado pelos negociadores. Mas esse ainda não é o preço todo,pois  o Centrão padece fome insaciável.Entram na pauta os prometidos cargos da Funasa. A cada necessidade do governo,nova paralização da pauta, nova chantagem, novo pagamento, mediante cargos ouverbas. A grande imprensa nomeia esse costume como “negociações do governo paraformar maioria no Congresso”. O Código Penal (art. 158) classifica essachantagem como crime: “Art. 158 - Constranger alguém, mediante violência ougrave ameaça, e com o intuito de obter para si ou para outrem indevida vantagemeconômica, a fazer, tolerar que se faça ou deixar de fazer alguma coisa”. E opune com pena de reclusão, de quatro a dez anos, e multa. Mas o presidente daCâmara dos Deputados é um homem acima de qualquer suspeita.

Os marines estão chegando – E com passaporte visado pelonosso governo. Chegam pela Amazônia.  Oconvite foi feito pelo exército do Estado brasileiro,  e a operação integra o projeto AmazonLog – umexercício de adestramento militar inspirado em atividade da Organização doTratado do Atlântico Norte (Otan), realizada em 2015, da qual o Brasil foi umdos observadores.  O exercício conjuntoentre militares brasileiros e norte-americanos ocorre desde 2015, mas esta seráa primeira vez em que a atividade será em terrtorio amazônico. No primeirogoverno Lula o comandante da Marinha me dizia que a próxima guerra teria aAmazônia brasileira como um de seus teatros. E lá seu modelo seria a guerra de guerrilha. Junto as duas coisas epasso a entender a iniciativa.

Samuel Pinheiro Guimarães – Um dos mais eminentesbrasileiros,  lutador incansável pelaconstrução de uma sociedade soberana e solidária. A criação de um Institutodestinado a preservar sua obra política, sempre em construção, merece todo oapoio dos democratas.

Por: Roberto Amaral.

*  Com a colaboraçãode Pedro Amaral.

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