A agonia política de nosso vizinho conta uma história demais de meio século, bem conhecida, mas muito pouco considerada na balança doselementos. Se há fato novo a registrar, na interpretação do que revelam osnúmeros, é sua congruência com o cenário internacional que, evidentemente, nãoé obra dos últimas dias. Tanto quanto a emergência do bolsonarismo em 2018, aeleição de Milei não deve ser considerada um raio em céu azul. Como sóirepetir-se em todos os transes de crise econômica e comoção social, a direitarapidamente traslada para a extrema-direita protofascista, e com o discurso"antissistema" conquista setores crescentes da classe média e doproletariado, principalmente das massas periféricas. E, como ao fim daRepública de Weimar (1933), o círculo de apoio se encerra com a aliança com aalta burguesia. Foi esse consórcio que ensejou o crescimento do partido nazista(eleições de 1932), a alçada de Hitler à chancelaria (1932) e, finalmente, aogolpe de 1933. Depois, o prometido e o esperado: Segunda Guerra Mundial,holocausto...
Se não estamos em face de fenômenos estanques, por outrolado o andamento nacional ou regional não é redutível a reflexo condicionado do cenário internacional (a ordem dirigida pelasgrandes potências), embora reflita as feições que o mundo vem tomando nasúltimas décadas, com as crises siamesas do capitalismo, incapaz de resolver osproblemas sociais por ele mesmo suscitados, e o descenso da hegemonia estadunidense, posta em questão pela emergênciade uma Eurásia liderada por uma China que não se cansa de crescer. Daí aguerra, saltando do plano dos bloqueios comerciais (a “guerra fria”contemporânea) para o confronto bélico direto (ainda quando valendo-se deinterpostos exércitos), na Europa e no Oriente Médio, uma provávelavant-premiére dos anos vindouros.
O avanço da extrema-direita amante do fascismo está semprepresente em momentos que tais. A crise social foi o fermento que levou asmassas marginalizadas ao nazismo nos anos 1930: os dados objetivos falam daascensão de Hitler, Mussolini, Franco, Salazar e do império japonês, e nosfalam da Segunda Guerra Mundial, redesenhando o mundo geográfico e político.Mas a história não se repete como um decalque. Naquele então, a infâmiafascista se debateria com a resistência de aliança que juntou o ocidente capitalistaà revolução soviética. A derrota militar Terceiro Reicht também ensejaria aconsagração do keynesianismo e de Bretton Woods, da ilusão monetarista, mas também da URSS e dos comunistas, comomovimento internacional de ideias com ambições revolucionárias. É o mundoperdurante até pelo menos a vitória dos EUA ao final da Guerra Fria, e adebacle da URSS, dando fim à polaridade dos sistemas, ensejando a espíritosapressados a suposição de que havíamos chegado ao fim da história.
É preciso lembrar, porém, que o cenário de quase um séculohavia sido, em contraste com os dias da história presente, de resistênciapolítica e revolucionária, de organização progressista das massas e,principalmente, de confronto ideológico. Esse mundo parece em recesso.
Silenciamos a batalha ideológica. Na sequência, os governosde esquerda e centro-esquerda não lograram responder à crise do capitalismo,não acenaram às massas com a alternativa revolucionária e fracassaram noreformismo, isolados pela classe dominante. Nenhuma reforma estrutural, porexemplo, o Brasil conseguiu, pela esquerda, levar a cabo a partir de 2003. Aesquerda tem-se limitado a administrar o capitalismo, prometendo atenuar osefeitos de seus graves males, e, assim, reformistas e revolucionários, nostornamos tributários do moínho do establishment, do sistema e da ordem deopressão e repressão - o qual, em vez de derrogar, estamos empenhados em"humanizar", por meio de políticas compensatórias às terríveisdesigualdades impostas pela ditadura do "mercado".
O movimento sindical, ademais de fragilizado pela revoluçãotecnológica, que requer cada vez mais capital e menos mão de obra, queda-se sem norte político e o projeto geral dacentro-esquerda, no governo ou fora dele, se limita, no Brasil, ao máximo queseu ânimo permite: dar sustentação ao mandato (não exatamente ao governo) deLula, que ainda não teve condições de apresentar ao povo um projeto alternativoao que herdou, ditado pela casa-grande e as aspirações fascistas que dominam opensamento da caserna e o grande capital.
Como sempre, aresposta das massas desempregadas e desesperançadas, dos trabalhadores acaminho do lumpesinato, divorciadas da esperança, faz cessar a capacidade deluta tanto dos trabalhadores sindicalizados quanto principalmente das massas desorganizadas, um dos grandes produtosdo capitalismo up-to-date, o governo do grande capital. Esta é a base do fascismo e da direita emgeral. Ganha a ordem, base de sustentação do sistema de exploração do trabalhopelo capital.
Abrindo o caminho, a marcha dos revolucionários para oreformismo, e destes para a socialdemocracia; a direita se volta para aextrema-direita e logo salta o trampolim que leva ao fascismo. Foi assim noséculo passado, caminho que de novo se palminha desde o final do séculopassado, desde que a Rússia revolucionária deixou de ser uma ideia, e as forçasrevolucionárias renunciaram à revolução. A organização cede espaço à anomia. Ocombate ideológico cessa.
O mundo que emerge correndo para a terceira década do séculoXXI é o da insolvência dos grandes partidos populares, da recessão no combateao capitalismo e, principalmente, é o mundo em que a esquerda renuncia à defesado socialismo. Mesmo o reformismo parece ensarilhar as armas diante do impérioda ordem conservadora, que de fato é a persistência do passado impedindo oparto do futuro sonhado.
O quadro internacional, por seu lado, não é fruto da vontadedos astros. A aliança da direita com o protofascismo é a resposta necessária dosistema: não nos podem parecer estranhos os EUA de Trump e Biden, Israel dadireita sionista, a Europa dominada pela direita e pela extrema-direita -- apoiadas em manifestações populares --transformada em protetorado dos EUA. Hoje, o continente foi reduzido ao papelde perigoso porta-aviões olhando para a China, destino que foi dado ao Japão, epode ser imposto à Índia, pelos senhores da guerra. A Argentina chega a Mileidepois de o Brasil, em grave crise social, conhecer o protofascismo deBolsonaro, de base popular e religiosa e gravíssimos vínculos militares.
Quanto mais me debruço sobre a tragédia argentina, maisreflito sobre o Brasil de hoje, reacionário pela sua formação, mas cujo caráter– a um tempo óbvio e sempre tentativamente ignorado – só veio a despertar aspreocupações da esquerda orgânica, mesmo assim tateante, após os idos de junhode 2013, mais exatamente após o golpe de 2016 e seus desdobramentos, que chegamao último 8 de janeiro. Esses são os rumos que os tempos de hoje sopram, dandorumo às velas da nave em busca de rumo, como em busca de rumo persiste nossomundo particular e poroso, porque dependente da tragédia geográfica, que nosfaz, Brasil, Argentina e a América do Sul como um todo, reféns do grandeimpério e sua política expansionista.
Argentina e Brasil (como Peru e Equador, como a Américalatina de um modo geral) não constituem uma especificidade ena cola do impasse do capitalismo, em nossopaís, o ponto mais assustador é o desfalecimento da esquerda, como pensamento,como ação, como resposta política ao descalabro capitalista, e assim deixamosde ser uma saída; permanece o beco fechado, sem sugerir alternativa. Se estajamais foi pensada no curto prazo, agora se queda desenganada mesmo no longoprazo. É a crise da utopia.
É uma pena que o PT, o melhor de nossa social-democracia,não tenha ainda compreendido o processo histórico em que navegamos, e que Lula(o melhor que pudemos produzir) se contente na ilusão de que a históriaterminou com sua vitória em 2022, e que sua missão, dele e do Partido, seencerra neste inédito 3º governo.
Arrebatado pelo prestígio popular de Lula, o povo, nasurnas, impediu a consolidação do projeto protofascista. Foi muito importantecomo conditio sine qua non para a recuperação da política, sem a qual não hápolítica ou o que seja. Há o que comemorar, pois, mas é fundamental não perderde vista que se trata de um ponto de partida. A tarefa que se segue não é maisde fazer gorar o ovo da serpente, mas de esmagar a peçonha que sobrevive, fortee crescentemente perigosa. E, lembremos sempre, não só aqui.
Fala-se em “stress da democracia”, quando o mais apropriadoseria (após a falência rotunda da socialdemocracia), discutir o relativofracasso dos governos de centro e de centro-esquerda, incapazes de reverter as expectativas da crise socialem nossos países – contaminados que se revelam, no governo, pelo discurso)neoliberal que nos domina ideologicamente desde pelo menos o “consenso deWashington” e que se revivifica entre nós com a dobradinha BC-Fazenda. A que sealia, pelo silêncio, o principal partido do governo e de nosso campo, embora seconheçam dissensos em Brasília e em São Paulo.
Por: Roberto Amaral*
(Autor de História do presente- conciliação, desigualdade e desafios. Ed. Expressão Popular e Books Kindle)
* Com a colaboração de Pedro Amaral.
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