Responsável pela tragédia de 700 mil mortes pela covid-19 nopaís, entre as quais 1.753 de crianças de 6 meses a 5 anos, a extrema-direitabolsonarista, com o mesmo negacionismo e desprezo pela vida, parece empenhadaem aumentar ainda mais o número de vítimas. Não há outra interpretação possívelpara os ataques que essa horda tem feito à inclusão, pelo Ministério da Saúde,da vacina contra a doença no calendário nacional de imunização infantil apartir de 2024.
Desde então, os negacionistas têm reagido com ataques àpasta e uma avalanche de fake news sobre o assunto. Nessa ofensiva, chegaram aconvidar a ministra Nísia Trindade para uma audiência pública na Câmara dosDeputados, para dar esclarecimentos sobre o tema.
A audiência ocorreu na terça-feira (28), na Comissão deFiscalização Financeira e Controle, quando a ministra da Saúde assegurou que ainclusão da vacina no calendário infantil segue recomendação das sociedadescientíficas e não representa qualquer ameaça à saúde das crianças. Nísia tambémalertou que, apenas neste ano, 110 crianças morreram em decorrência dacovid-19.
Ainda segundo a ministra, somente em 2023, o país registrou3.379 casos de síndrome respiratória aguda grave por covid-19 em menores de 1ano, e 1.707 casos na faixa de 1 a 4 anos. “A indicação é muito clara e estábaseada em um dado muito simples: 110 mortes de crianças por Covid em 2023, éesse o dado que leva a essa determinação”, afirmou.
No entanto, as explicações da ministra não foram suficientespara conter a sanha da extrema-direita, que demonstrou o mesmo desprezo pelaciência que levou a uma gestão desastrada, irresponsável e criminosa dapandemia.
Durante a audiência, Nísia foi obrigada a ouvir e rebateruma série de afirmações descabidas e mentirosas sobre o tema. Segundo umadelas, “há uma epidemia mundial” de morte súbita depois da vacinação contra acovid.
“Devo dizer da temeridade do que está sendo colocado aqui,por quem está atacando, sim, a proteção à vida que a vacina dá. Não se sabem,inclusive, as implicações neurológicas da covid, não se sabem muitas dasimplicações no aparelho circulatório, os casos de trombose entre as pessoas quetêm covid são muito maiores do que naqueles que não têm”, disse, em resposta aodeputado federal Eduardo Bolsonaro, autor da mentira.
Outra negacionista, a deputada Bia Kicis, que presidia ostrabalhos da comissão, disse que já realizou outras audiências públicas comvários médicos especialistas em imunizantes e que todos são contra a inclusãoda vacinação infantil no calendário.
Em mais uma fake news, a bolsonarista disse que a Food andDrug Administration (FDA), órgão que regulamenta a venda de produtosfarmacêuticos e alimentos nos Estados Unidos, não confirma a eficácia da vacinada covid-19, por considerar o imunizante uma terapia gênica – intervenção queconsiste na inserção de genes nas células e tecidos de um indivíduo para otratamento de uma doença, em especial, hereditária.
Diante desse absurdo, a ministra da Saúde chamou de“mentirosa” a afirmação da negacionista. “O FDA jamais falou que a vacina deRNA mensageiro é uma terapia gênica. Esse é o problema que nós temos hoje, asfalas são feitas como se houvesse verdades por trás, e não há verdade”,respondeu Nísia.
Ação criminosa
O deputado federal Jorge Solla (PT-BA), que foi secretáriode Atenção à Saúde do Ministério da Saúde, foi ainda mais duro. Afirmou que aatuação da extrema-direita é “irresponsável e criminosa” por colocar vidas emrisco, principalmente de crianças, com interesse de angariar apoio político evotos.
“Vocês sabem que a vacina é cientificamente comprovada, evocês se utilizam política e partidariamente para falar com suas bolhas. Vocêsfazem uso político-partidário da vida das pessoas. Vocês fazem uso eleitoreiroda proteção à saúde da população brasileira”, afirmou o parlamentar.
“Vocês não estão questionando dogmas científicos, vocês nãoestão questionando práticas médicas. Vocês estão se utilizando, e vou dizer otermo correto, de forma irresponsável, de forma criminosa, se utilizando de umdiscurso mentiroso”, acrescentou Solla, que também citou o desmonte do ProgramaNacional de Imunizações (PNI), do Ministério da Saúde, durante o governopassado.
“Nós não podemos admitir, e eu não posso compactuar com aforma criminosa com que vocês derrubaram a cobertura vacinal nesse país. E aforma criminosa, e mais irresponsável ainda, que vocês continuam se utilizandodo discurso antivacina para tentar manter uma bolha de apoiadores. Somenteisso, tentando manter votos, tentando manter apoio, espaço próprio, isso écriminoso, isso é irresponsável”, prosseguiu o deputado.
Desmonte
O desmonte do PNI pelo governo passado, citado por Solla,foi responsável por um número elevado de mortes de crianças de 6 meses a 5 anospor covid-19 no Brasil. Segundo a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), foram 1.439entre 2020 e 2021. Nesse período, diante da resistência de Jair Bolsonaro emadquirir imunizantes, a vacinação contra a doença não estava autorizada paraesse público.
Além disso, embora as vacinas sejam aplicadas gratuitamentenos postos de saúde da rede pública, a imunização infantil contra diferentesdoenças vem caindo de forma vertiginosa no Brasil, e hoje se encontra nosníveis mais baixos dos últimos 30 anos.
Em 2021, por exemplo, em torno de 60% das crianças foramvacinadas contra a hepatite B, o tétano, a difteria e a coqueluche. Contra atuberculose e a paralisia infantil, perto de 70%. Contra o sarampo, a caxumba ea rubéola, o índice não chegou a 75%. A baixa adesão se repetiu em diversasoutras vacinas.
Para que exista a proteção coletiva e o Brasil fiqueblindado contra as doenças, o recomendável é que entre 90% e 95% das crianças,no mínimo, estejam imunizadas.
Senado
A ofensiva antivacina também está presente no SenadoFederal, onde a extrema-direita já se mobiliza para barrar a vacinação decrianças contra a covid-19.
Ex-ministro da Saúde de Lula, o senador Humberto Costa(PT-PE) se disse espantado por ter que discutir, em pleno século XXI, aeficácia de vacinas que já foram aprovadas por renomadas instituiçõescientíficas em todo o mundo. O parlamentar também falou da importância daatuação dos agentes comunitários de Saúde na conscientização da população.
“Quando diz que o sistema de saúde e os agentes comunitáriosvão abordar os pais, é no sentido de sensibilizá-los, conscientizá-los, daimportância da vacinação. Infelizmente, eu tive que chegar aos 66 anos para veruma discussão onde tem gente que é contra a vacina”, lamentou o parlamentar.
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