(Autor de História dopresente- conciliação, desigualdade e desafios. Ed. Expressão Popular e BooksKindle)
Como todos sabem, não conhece a História um só exemplo desociedade desenvolvida (qualquer que seja a acepção) que não seja, antes, umaeconomia de base industrial, avançada quase sempre, e nos dias da históriapresente indústria e revoluçãotecnológica constituem uma unidade. No entanto, por força da traição histórica de nossa classe dominante, essa que vemda casa grande e do escravismo, permanecemos, no século XXI como na colônia,como no império, economia agrária primário-exportadora (pau brasil, açúcar,algodão, ouro e prata, os minérios in natura e até índios escravizados pelosbandeirantes, e agora asmercadorias do agronegócio: soja,milho, frango...). Como sempre sem corarem face de insuportáveis índices de pobreza e concentração de renda. Assim:exportamos minério de ferro para a China e importamos lingotes e trilhos. Somos hoje o terceiro produtor de alimentos,em país cuja população, em sua metade, não tem segurança alimentar, e maisde 37 milhões de indivíduos passam fome.
Sem desenvolvimento industrial não há desenvolvimentoqualquer, não há progresso, não há enfretamento ao desemprego e muito menoscombate à fome. Igualmente não se conhece desenvolvimento industrial sem prévio investimento em ciência etecnologia, e nada nesse ramo é admissível se não precedido de altodesenvolvimento educacional, em todos os planos, pois não enseja a formação decidadãos aptos ao trabalho e à liberdade uma escola que fracassa no ensinofundamental, óbvia base de tudo.
O empresariado privado, associado ou não ao capitalmultinacional, resiste a investir em pesquisa, inovação e tecnologia de um modogeral. Prefere pagar royalties. O país, em busca do equilíbrio fiscal destinará700 bilhões de reais para amortizar os juros da dívida pública. Parainvestimento estão reservados parcos 70 bilhões.
Em ato de contrição edenúncia o ministro da educação, Camilo Santana, nos diz que 73% do alunado dos cursos básicos saem das salas de aulajejunos em cálculos; os que “aprendem aler” não conseguem interpretar o texto lido. O fracasso da educação no Brasil, porém, não é fruto do acaso, mas, comolembrava Darcy Ribeiro, um projeto que deu certo. Deita suas raízes na colônia,e chega até nós muito bem cultivado pelas chamadas elites. Nesse sucesso estão muitas das explicações para o fato desermos, em pleno século XXI, um país por ser, por definir-se, por construir-se.A saída, porém, não está nos limites degovernos e projetos esporádicos. O fracasso rotundo de nossa sociedade de hojecertifica essa afirmação. Falta-nos algo e eu me atrevo a identificar como avoz de uma desejada nação. O que somos: povo exilado, nação silente.
Certamente pelo fato de o povo haver sido sempre um exiladode nossa história, foi-nos difícil criar as bases da nacionalidade – aquela quenasceria do encontro da terra e seu povo aqui achados, dos africanos trazidos pela violência do tráficonegreiro, e do branco voltado para acriação de um novo país em tanta terra livre, quando transita da exploraçãopara a colonização.
Em texto contundente, Capistrano e Abreu nos diria: “O povofoi capado e recapado, sangrado e ressangrado”: tanto desapartado de suacondição de sujeito quanto posto à mercê da exploração do colonizador. Compoucas nuanças, essa é a história do povo brasileiro, “um povo por ser.Impedido de sê-lo”, grita-nos Darcy Ribeiro. E como uma sociedade de escravos esenhores pode construir uma nação unificada por uma vontade comum?
Nascemos sem povo e sem nação, sociedade de escravos esenhores da terra pilhada. Sem povo, sem projeto de futuro, fizemos o impériode inspiração inglesa e proclamamos uma república que pretendeu reunir opositivismo francês com o constitucionalismo dos EUA. Ambas as transformações ditadas de cima parabaixo, que é a norma de nossa história toda. Ao povo, afastado do proscênio,concedeu-se o direito de assistir às paradas militares. A modernização se dásem povo e às vezes contra o povo, a partir de 1930 e mais precisamente apartir da ditadura do “Estado Novo”, e ainda hoje marchamos em busca de umprojeto.
A dificuldade que se coloca, de início, nesse cenário, é ada conceituação de “Projeto nacional”. Não se conhece seu texto, porque é obraimaterial, não tem autoria a declinar. Comecemos pela abordagem mais fácil, queé simplesmente dizer o que não é Projeto nacional: não é programa de governo,nem obra de uma elite, ou de sua classe-dominante, ou de ilustrados, ou defardados. Não é Projeto nacional o chamado “projeto Vargas” (nem o “tenentismo”de 1930 nem o autoritarismo esclarecido do “Estado novo”), muito menos com elese confunde o despotismo da modernização conservadora dos militares depois de1964.
Numa tentativa de aproximação, mas ainda longe de umconceito satisfatório, digamos que Projeto nacional é aquele ideário, ou sonhode futuro, que uma nação formula para si mesma; é projeto fundante eperdurante, porque constitui o ser no presente, e declara o que pretende dofuturo. É o código não escrito de uma gente. Espécie de construção utópicacoletiva.
O “Projeto nacional” é mais que um programa de umadeterminada elite, ou de um partido, de uma determinada dinastia, de umadeterminada ditadura; não tem data de proclamação, não tem começo nem fim,embora tenha finalidade; para além de fenômeno político, é processopsicossocial-cultural, histórico.
Mas, o que seria uma nação? O que identifica a naçãobrasileira ou faz com que a gente que habita este espaço se reconheça como umpovo, para além do simples fato de morar no mesmo território, ou falar a mesmalíngua, ou subordinar-se à mesma ordem política? Reconhecer-se na mesma origem?Identificar-se com a mesma história? Ou é tudo isso e ainda ter aspiraçõescomuns, como idêntica visão de sociedadee o mesmo projeto de futuro? Ou é a crença de pertencimento a um código comumde valores e vontades?
É curial dizer-se queo Brasil nasce nos embates que no Nordeste uniram índios preados, negrosescravizados, mamelucos e caboclos, portugueses e brasileiros na resistência àpresença holandesa. A hipótese é que oímã para a comunhão de povos que se antagonizavam teria sido a defesa do território, com o qual todos seidentificavam naquele momento embora não pertencesse a todos e sequer fosseconhecido da gente que o habitava: os muitos povos – indígenas, escravos,brancos desgarrados -- dispersos em aldeamentosperdidos na vastidão de terrasignotas. É fora de dúvida queseria desconhecido o sentimento de nacionalidade, na ausência denação, ou de pátria, na ausência mesmode país: o Brasil, de fato, não existia. Passada a refrega, a provínciaretornava ao statu quo ante, reavivadas as contradições impostas pelo sistemaque dividia a gente entre uns poucos senhores e uma multidão de escravos,arrancados de sua terra, separados entre si pela diversidade de etnias, línguase culturas, índios de variados estágios de cultura, expulsos de suas aldeias, servos, camponeses sem salárioagregados à terra e subordinados ao poder ilimitável do latifúndio. É difícil de crer num comum sentimentode pertencimento entre senhores e escravos, entre proprietários e servos daterra.
A nação anda, cria ou descobre uma identidade e passa avive-la; essa identidade é seu amálgama. A nação se forma e se aglutina emfunção dessa identidade que, ao mesmo tempo, é produto de sua história. Porenquanto digamos que a nação é um ente histórico; como a tradição, se faz comlembranças, invenções e esquecimentos.
Explorada pela metrópole empobrecida, que dela tudodependia, a colônia abrigava umaburguesia mercantil que por seu turno explorava o trabalho compulsório deescravos africanos, de índios escravizados e trabalhadores brancosservilizados, a mão de obra que chega ao final do Império. Na República de“trabalhadores livres” seus sucessoresserão os trabalhadores rurais, os camponeses sem terra, sem teto e sem salário,os “boias-frias”, de existência sub-humana, e proibidos de se organizarem.
Na colônia e no império o povo-nação, o brasileiro que nãoconta politicamente, o brasileiro produtor, é o que Darcy Ribeiro chamará de“implante ultramarino da expansão europeia” porque “não existe para si mesmo,mas para gerar lucros exportáveis pelo exercício da função de provedor colonialde bens para o mercado mundial, através do desgaste da população que recruta nopaís, ou importa”. Recrutada quer dizer caçada a ferro e fogo para serescravizada, quando não dizimada pela ferocidade dos bandeirantes, pioneiros noetnocídio dos nativos da terra.
O que a historiografia chamaria de povo-nação surge daconcentração da força de trabalho escrava, apresada mediante o massacre semtermo de populações indígenas e na condenação dos povos afrodescendentes àpobreza, e ao apartheid social.
Não se faz uma nação, nem se molda uma pátria, como pensamos militares: a nação é produto de um processo histórico insubstituível. Masnada nos impede de tentar construir convergências, a não ser a subordinação dospartidos de esquerda e de centro esquerda à ordem burocrática que os afasta dasquestões que dizem respeito à iniquidade social com a qual estamos conformados, ao ponto de evitarmos amobilização social e, até, o debatemobilizador.
Nosso governo, ainda perdido estrategicamente, apenado pelas contingências táticas que pressionamseu projeto original, --que dizia respeito aos interesses da classetrabalhadora -- , precisa de cuidar, para além do aqui e agora (suasobrevivência formal), daquele que, na ausência de expressão maisexata, chamaria de “discurso à nação”,animando-a, organizando-a, politizando-a, colhendo com ela as diretrizes do quepode ser o Brasil. Penso que esta é postura que a “nação”, se pudesse falar,estaria cobrando de Lula.
***
O homem é as suas ações - Quando o conheci, na altura dosanos 1980 - campanha das diretas-já –Jaime Cardoso já carregava uma história de resistente, iniciada ainda nos bancos escolares, quando conheceu aprisão e a tortura, que deixariam marcas insuperáveis em seu corpo e em suaalma. Expatriado pela ditadura militar, continuou a luta noChile de Allende e foi sofrer a dor dos presos no Estádio Nacional, em Santiago(1973), e, finalmente, o exilio na Suécia. Era, a partir daí, o que seria até oúltimo dia: um sobrevivente, ou, sempreum guerreiro, como prefere Lilian, sua grande companheira, querida de seusamigos. No regresso ao Brasil serianosso camarada, de Jamil Haddad, deAntônio Houaiss e meu, na tentativa deconstrução, no país redemocratizado, de um partido socialista. Fracassamos masnão nos arrependemos, ele ainda me dizia no leito de morte, quando nosdespedimos. O Pe. Antônio Vieira, nosensina no seu sermão da terceira dominga do advento: “Ohomem é as suas ações”. As ações de Jaime, o que ele fez com a vida, fizeram dele um exemplo.
Flávio Dino e o STF – Com a desejada nomeação do ministroFlávio Dino para a chamada CorteSuprema (como gosta de designá-la opresidente Lula), perde o governo, já pobre de quadros; ganha o STF, poisreceberá algo de que muito carece: um advogado e um jurista de primeira água,um político de ideias, um militante socialista. As apreensões agora se voltampara seu substituto na Esplanada. Que não seja um retrocesso, como sugerem osnomes cogitados pela imprensa.
Henry Kissinger – Mais um genocida impune.
Por: Roberto Amaral.
* Com a colaboração de Pedro Amaral.
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