Deve-se a Sérgio Buarque de Holanda (Raízes do Brasil, 1936)esta frase lapidar que resume a formação autoritária de nosso país: “Ademocracia no Brasil foi sempre um lamentável mal-entendido”. A assertivapermanece dolorosamente atual. A classe dominante brasileira jamais seconciliou mesmo com a democracia clássica das liberdades formais, puramentepolítica, à qual se referia Sérgio Buarque,. Assim a casa-grande, que fez o império e proclamou a república, assim seusherdeiros de hoje, o agronegócio primário-exportador, e os especuladores daFaria Lima, o chamado “mercado”, que controla o mais reacionário Congresso dequantos tem notícia a historiografia brasileira. Golpear a democracia, qualquer, quando ela logra sobreviver, é aalternativa de que os donos do poder sempre lançam mão (e muitos são osinstrumentos de que dispõem) quando lhes parece que as nuvens no horizontelongínquo insinuam a formação de governos (logo classificados de “populistas”)preocupados ora com o desenvolvimento nacional soberano, ora com a simplesproteção dos deserdados do capitalismo, e assim buscando promover algumtrabalho, alguma previdência social, alguma valorização dos salários, um pedaçode terra para nele o sem teto e sem terra trabalhar e matar a fome. O varguismo juntou essa duas pontas, e éconhecida a safra que colheu.
Do mal-entendido apontado por Sérgio Buarque se desdobra aintermitência democrática, relembrada recentemente por José de Souza Martins(“O país dos intervalos democráticos”. Valor, 6/10/2023). As experiênciasdemocráticas, no Brasil, são sempre pro tempore. A análise se conforma narepública, pois seria de serra acima pensar em algo não autoritário, nãoreacionário, seja na colônia seja no império, fundado no latifúndio e noescravismo, no voto censitário e no poder moderador do monarca, que a caserna tentatomar para si. Mas na República dos fardados e da lavoura mineiro-paulista,aquela que chega aos anos 1930, algo com ares de ordem democrática (na suaestrita acepção política, anos-luz distante de avanços sociais) apenas se podeconsiderar o regime nascido com a efêmera constituição de 1934, incompatível,porém, com o projeto do caudilho que já habitava o Palácio do Catete. Apromessa weimariana é devorada pelos oito anos da ditadura do “Estado Novo”,nascida em 1937 e derruída em 1945 pelas mãos dos mesmos generais que a haviaminstituído e sustentado. Finalmente nos encontrávamos próximos de um processoeleitoral (ainda que eivado da fraude que o deslegitima), e teríamos umaconstituinte, em 1946, substituindo a outorga de príncipes e ditadores. É a nossaintermitência democrática, limitadamente formal, mas que, aos trancos ebarrancos, atravessando golpes e tentativas de golpes de Estado, nos conduz até 1964, e ao reencontro com a realidade de nosso atraso político: o golpemilitar de 1º de abril, que nos impôs 21 anos de ditadura com seus torturadoresimpunes e os cadáveres insepultos de suas vítimas, e a tragédia política queainda hoje nos afeta, como mostra a história recente.
De uma forma ou de outra pode-se dizer que o intervalo quevem da constituinte de 1988 aos dias de hoje consigna 35 anos de algo muitosemelhante a um período democrático, quenos pede um brinde na próxima virada de ano. Mas a história não é linear.
Há transformações sociais e econômicas que perfuram asuperfície conhecida, ameaças que falam à qualidade do regime, exigindodenúncia e combate que começa com sua análise, e o ponto de partida é a tomadade consciência do refluxo do pensamento e da ação dos partidos de esquerda, umacrise que não é de nossos dias, pois remonta à fratura do socialismo real, masque se agrava entre nós a partir dos primeiros sucessos eleitorais decentro-esquerda, que levaram nossas organizações e nossas lideranças a confundirtática eleitoral (transformada em técnica mercadológica comum à esquerda e àdireita) com estratégia. Ao fim e ao cabo, nos tornamos todos“social-democratas”, porque à noite todos os gatos são pardos. Com o recuo dossocialistas de um modo geral, dos comunistas e dos trabalhistas, dasorganizações políticas e dos movimentos sociais, das chamadas forçasprogressistas e democráticas, e do sindicalismo, estávamos de fato renunciando à batalhapolítico-ideológica. No geral renunciamos às políticas de organização e àmilitância. E na política, como na guerra, como na vida, não existe vácuo.Deixada vazia, sem mobilização, à margem de qualquer proselitismo, a vida real– o chão de fábrica, as organizações sindicais e populares, as favelas e asperiferias das cidades – abriu-se à pregação unilateral da direita, ainda maisinstrumentalizada, acionando seusaparelhos de sempre, o púlpito e as carteiras dos bancos, o neopentecostalismoe as milícias. Companheiros de boa cepa se dizem surpresos com o mundo que se revelaa seus olhos como a mudança brusca de cenário em peça trágico-cômica.Esquecem-se de que em política, ecertamente em tudo o mais, não há almoço grátis.
O ponto de advertência, para a centro-esquerda e a esquerdaorgânica, poderia ter sido os idos de junho de 2013, mas as ilusões dasaparências não nos permitiram conhecer movimentações tectônicas que,silenciosas, alteram a formação política da sociedade, que supúnhamoscristalizada desde as eleições de 2002.
Assinalo o ano de 2013 como o início de um período novo, ou próprio, uma identidade em facedaquele período maior, já referido, de intermitência democrática, aberto com areconstitucionalização de 1988. É o período que chega aos nossos dias comindicadores de seu agravamento . Nele contamos a difícil eleição de DilmaRousseff em 2014, a ditadura da Câmara dos Deputados em 2015 inviabilizando osegundo mandato de Dilma Rousseff, o golpe de 2016, o governo preâmbulo deMichel Temer, a Lava Jato e sua sequência de golpes jurídico-políticos, aeleição e o governo Bolsonaro, as eleições de 2022, a posse de Lula e aintentona de 8 de janeiro deste ano. No momento, uma expectativa: o governoLula, um projeto ainda por ser que a direita intenta inviabilizar. Como senota, são muitos fatos e mutas transformações políticas num espaço de tempoirrelevante do ponto de vista histórico: dez anos! E nessa curta e turbulenta jornada o elementomais destacável, pelas suas consequências (de toda ordem), é essa emergência daextrema-direita, como ação, como partido, como grupo de pressão, alterandoprofundamente a aquarela política brasileira, e as promessas possíveis dademocracia, tão jovem quanto frágil e ameaçada.
Não há como identificar o apogeu da emergência dessadireita, e muito menos é razoável estimar seu declínio, senão dando asas aosubjetivismo. Sem maiores riscos, porém, podemos dizer que seu ápice ainda nãofoi a eleição de Bolsonaro e o retorno do mando da caserna, com seus quatroanos de ignomínia impostos ao povo brasileiro; de outra parte seu declínio nãodeve ser identificado com a derrota nas eleições de 2022. O fato objetivo éeste: a extrema-direita, lavrando em solo conservador de fundas raízes religiosase primitivas, caminhando sob ventos favoráveis soprados pela conjunturainternacional, encontra-se, entre nós, fortalecida e organizada como jamaisesteve em toda a vida republicana. Supera o apogeu dos tempos do mandarinatomilitar, pois hoje é força político-econômica que, se no plano internacionalmantém vínculos com poderosos grupos econômicos reacionários, militares e civis, no plano interno é a forçapolítica da classe dominante, com notórias ramificações na caserna e inegávelapoio nas grandes massas. A direita com seus penduricalhos, aos quais se somamos velhos quadros do velho centrão (velhos reacionários, assistencialistas,negocistas, despachantes de altos interesses) e os "novos"empreendedores, controla com mão de ferro o Congresso Nacional. Trata-se de umpartido no rigor do termo, ente orgânico com objetivo e interesses claros;impõe ao país uma pauta reacionária, conservadora, regressiva, empenhada emimpedir avanços sociais, quaisquer, e impor retrocessos. E, para não fugir àsua natureza, os avanços políticos se dão em meio a barganhas.
Em um de seus muitos golpes e tentativas de golpe de Estado,os militares, não podendo impedir a posse de João Goulart, impuseram ao país(1961) (um parlamentarismo de fancaria rejeitado pela soberania popular emplebiscito. Agora, a partir dos ensaios de Eduardo Cunha, o êmulo moral epolítico de Arthur Lira, o Congresso faz mais, impõe um parlamentarismo de fato(assim imune a plebiscito revocatório), que manieta o executivo ao limite deimpedi-lo de governar; transfere para a Câmara dos Deputados funções degovernança, rejeita as propostas do Planalto sancionadas pela soberania popularnas eleições que elegeram o presidente da república, elege despesas sem o ônusda responsabilidade executiva, impõe o ajuste fiscal na mesma medida em queaumenta os gastos com as campanhas dos atuais parlamentares, em busca dereeleição, valendo-se dos recursos negados ao erário para alimentar oclientelismo depravado e os currais eleitorais.
Após a “democracia à brasileira”, inventada pelo generalCastello Branco, o presidente da Câmara nos impõe um "presidencialismo àmoda alagoana", no qual o presidente da república não governa e o deputadoArthur Lira, bedel da Câmara, trafica:com os poderes ensejados pelo Regimento, decide o que entra e o que não entrana pauta das votações, escolhe os relatores a seu bel talante e decide o que pode e o que não pode seraprovado, segundo o catecismo da direita decifrado ao ritmo de negociatas. Paracada votação importante, se a quiser ver aprovada, o governo deverá ceder ocangote para a sangria vil: uma vez é uma diretoria do Banco do Brasil, outraum certo ministério, depois outro. De outra vez a prenda é a Caixa EconômicaFederal (R$ 16 bilhões em depósitos); no dia seguinte, não conseguindo ocontrole do FNDE (R$ 84 bilhões), opta por uma sua diretoria. Ora isso, oraaquilo, e assim vai sendo destratada a república, segundo o jogo dosmercadores.
O presidente da Câmara dos Deputados, apoiado no silêncio dacidadania país, está revogando a república que subiu a rampa do Planalto no dia1º de janeiro. Será que ninguém se dá conta disto e de seu significado? Opresidente da república não pode deixar-se imolar, e terá todas as condiçõesde reverter o quadro pernicioso, sefalar ao país que deseja ouvi-lo.
***
Caos nas escolas e na Câmara dos Deputados - Tema de vitalimportância para a Educação brasileira - e o futuro do país e de milhões de jovens - vive momento decisivona Câmara dos Deputados: a reforma do Ensino Médio. Aproveitando a hesitação do MEC, jogando na ampliação dodomínio do Centrão sobre o FNDE, especula-se, Arthur Lira entregou a relatoriado PL 5230/23 para ninguém menos que Mendonça Filho, pai da "reforma"privatizante e precarizante imposta por Temer e abraçada por Jair Bolsonaro. Naúltima quarta-feira (13), lixando-separa o repúdio dos educadores à proposta, o plenário da Câmara aprovourequerimento de urgência para que o Projeto fosse votado a toque de caixa. Enessa noite fatídica alguns certos dados chamaram a atenção: apenas a FederaçãoPSOL-Rede e a Federação PT-PCdoB-PV orientaram voto contrário - mas no PTalguns deputados, como o Líder do Governo, divergiram dessa orientação. Porsinal, a Liderança do Governo, pela voz de Pedro Campos (PSB-PE), orientou votofavorável à urgência para a apreciação do Substitutivo de Mendonça Filho, quedesconstrói a proposta do MEC. O que de certa forma surpreende, pois há poucosdias o presidente Lula solicitou a retirada da urgência constitucional com quea matéria chegara ao Congresso.
Ora, o projeto da nossa direita para a Educação brasileira -retrógrado de fio a pavio - é deveras conhecido, e Mendonça, Temer e Bolsonaroo representam de modo exemplar. O que não parece claro é o que acentro-esquerda pretende de fato.
Por: Roberto Amaral.
(Autor de História do presente- conciliação, desigualdade e desafios. Ed. Expressão Popular e Books Kindle)
* Com a colaboração de Pedro Amaral.
Bahia João Mérin é o artista da semana no Selo Educadora FM Independente
Alagoas Secretaria de Estado da Mulher amplia acesso a exames gratuitos de mamografia e ultrassom
Alagoas Sine Alagoas disponibiliza 2.766 oportunidades de emprego nesta semana
Bahia Polícia Civil deflagra ação para cumprimento de medida judicial sobre circulação de ônibus coletivo
Bahia Sistemas de transporte intermunicipal e metropolitano, Ferry-Boat e Lanchinhas seguem em operação normal, neste domingo (25)
Bahia Procon-BA fiscaliza empresas de ônibus em Salvador e identifica 544 veículos parados em cinco garagens Mín. 23° Máx. 39°
Mín. 26° Máx. 40°
Chuvas esparsasMín. 23° Máx. 36°
Tempo limpo