– Luiz Eduardo Soares, “As palavras apodrecem”
Em 1942, a chamada grande guerra estava em pleno curso e aesperança de vitória dos aliados era contida pelos avanços das tropas do Eixo.Lutava-se praticamente em toda a Europa, e em todas as frentes. Na contramãodas invasões dos exércitos alemães,crescia a resistência quase suicida dos partisans e dos maquis. Eram as forçasirregulares da Segunda Guerra. Suas armas, legitimadas pelas circunstâncias,eram a emboscada, a sabotagem, o que estivesse à mão, o que fosse possível, oque fosse útil para desestabilizar o adversário. Visavam a intimidar, abater omoral dos nazistas, retardar ou paralisá-los por meio do terror.
Essa política de terra arrasada foi registrada pela históriacomo ato de barbárie de um estado fascista, poderosíssimo, contra uma populaçãoindefesa. Barbárie e covardia. O Brasil, solidário na dor, batizou de Lídice umdistrito do município fluminense de Rio Claro. Diversos países fizeram o mesmo.
Todos lembramos, e os meios de comunicação não permitem queos mais alienados esqueçam o que ocorreu no último 7 de outubro: militantes doHamas, grupo árabe de resistência à ocupação das terras palestinas pelo Estadode Israel, em ato condenado em todo o mundo como terrorismo, invadiu um festival de música eletrônica numKibutz em Israel (próximo à Faixa de Gaza), assassinou algo perto de 1.400 pessoas e sequestrououtras 120 ou 140, dependendo da fonte.O número de mortos foi ampliado pela ação das forças israelenses, que atiraram,propositadamente ou não, contra cidadãos judeus.
A resposta do Estado de Israel, uma ocupação colonial,financiada e protegida pelos EUA e a Europa ocidental, também não se fezesperar. A retaliação se desenha numa operação de aniquilamento que já matoumais de 30 mil civis, em sua maioria mulheres, crianças e idosos, e em poucosdias deverá comemorar a destruição de toda a infraestrutura de Gaza, todas assuas construções civis, todos os hospitais. A paisagem de hoje é a dosdestroços – cadáveres empilhados, covas coletivas, não há mais escolas nem abrigos,escasseia a água potável, crianças,mulheres e homens de todas as idades mutilados. Não há mais escolas nem abrigos. E o Ocidente sabota a ajudahumanitária da ONU.
Mas essa ainda não é a herança toda, pois a morte seaproxima de Rafah, no Sul da Faixa, acercando-se cada vez mais do Egito ao tempo em que o fogo de Israel fustiga as fronteiras do Líbano.
Gaza, como se sabe, tem uma população de cerca de 2,6milhões, espremida numa faixa que se estreita permanentemente, segundo a fomede terra de seu inimigo luciferino. Ali, os ataques mortais se fazem por terra e pelo ar, com tanques ,aviões, drones e foguetes. Mas, como emLídice, não há guerra, não há “conflito”, como bem denunciou o presidente Lula,simplesmente porque não existem forças em confronto: de um lado o poderosoexército invasor, furioso; de outro, uma população civil desarmada, sem teto, esem expectativa de futuro, clamando por água e alimentos, exilada em suaprópria terra. De novo, como punição, a política de terra arrasada.
O horror não começou no 7 de outubro. E o ataque a Gaza nãoé o primeiro; mas pode ser o último, pois em breve não haverá mais Gaza. Em1982, nos dias 16 a 20 de setembro, grupos de milicianos invadiram os campos derefugiados palestinos de Sabra eShatila, deixando para trás, assassinados, algo como 2 mil civis palestinosdesarmados. Para aproveitar a viagem, mataram cem libaneses e sírios. A autoriaintelectual da carnificina é atribuída a Ariel Sharon, comandante do exércitoda ocupação e futuro primeiro ministro de Israel.
O nazismo fez escola entre suas vítimas, mas a bestialidadenão legitima o sionismo, fundamento do Estado judeu, e muito menos absolve ogenocídio continuado dos palestinos.
Gaza é o outro lado do Gueto de Varsóvia. Os palestinos dehoje revivem, com dor inimaginável, os genocídios dos armênios, dos ciganos,dos povos que há séculos vêm sendo dizimados, como foram os cristãos, quetambém se esquecem de seu martírio, como foram os peregrinos sem destino, ecaminhantes dos desertos. Os vitimados de ontem são os algozes de hoje. Espantaque o massacrante de nossos dias seja o Estado de um povo que sofreu oHolocausto, além de discriminação e perseguição implacável por séculos; povoque ainda hoje é objeto de preconceito e discriminação.
O trauma, por maior que seja a violência, não ensina. É umanão-experiência. Algozes não são pedagogos.
É monstruoso e inaceitável o silêncio dos governos e doslíderes do mundo que se diz desenvolvidoe “civilizado” que está na raiz das tragédias humanas do Oriente, da Ásia e daÁfrica. É constrangedora a incapacidade de ação das instituições de defesa dosdireitos humano – violentados, neste caso, de fio a pavio. É chocante ainvalidez paquidérmica da ONU, condicionada por um conselho de segurançamanietado pelo poder de veto dos EUA. Outra tragédia é a falência do TribunalPenal Internacional, comprometido com os interesses bélicos da OTAN,assinalando o suicídio da comunidadeinternacional. É particularmente constrangedor o silêncio dos estados árabes.
O Holocausto, hoje como ontem, revela nossa miséria moral;ontem e agora, os Estados poderosos, a começar pelos EUA, podendo fazer cessara carnificina, a alimentam, e as grandes nações permanecem silentes diante dosmassacres e dos genocídios como se a morte dos povos ditos de “segunda classe”– africanos, árabes, ciganos, armênios, não lhes dissesse respeito. E assim,pela omissão e pelo silêncio, o mundo desenvolvido que se autoconsidera“civilizado” associou-se ao crime de lesa-humanidade.
Desse opróbio, porém, salvou-nos o presidente Lula. OBrasil, por seu intermédio, quebrou o gelo da omissão. E não é ele quem deve satisfações aoprotetorado sionista, mas os dirigentes deste, consabidos criminosos de guerra,que devem um pedido de desculpas à humanidade agredida, conforme observou CelsoAmorim. Lula ergueu-se da mediocridade circundante, covarde, e emprestoudignidade ao Brasil, que se afirma, quando nossa política externa volta aosseus grandes dias..
É rico de ensinamentos o atrito do presidente Lula com oenclave sionista, o qual não admite restrições ao exercício do auto-atribuído direito de trucidarpalestinos, preferencialmente desarmados, no gueto de Gaza e alhures, paraconsolidar o seu Lebensraum.
Além de expor à luz do meio dia o cinismo da comunidadeinternacional, que, muito verbal e ativa noutros casos (como na Guerra daUcrânia), neste espera sentada que a Palestina tombe como o arraial de Canudospara chamar o genocídio de genocídio. O caso faz cair como um viaduto a máscarade muitos “progressistas” que votaram no petista no último pleito porque dooutro lado estava quem estava, e assim os fatos expõem, na política, os limitese contradições da frente formada em 2022.
A aliança heterodoxa realizou seu destino quando contribuiupara a historicamente necessária eleição de Lula. Mas, sem surpresa para osestrategistas, o conglomerado político se revela incapaz de sustentar umgoverno de centro-esquerda, o projeto de Lula e do PT, que o presidente, nestemomento, se revela disposto a levar a cabo, quando parecem vencidas as ameaçasque circundavam a estabilidade do governo e a continuidade do mandatopresidencial.
Os apoiadores (mais que aliados), recentes atrelam-se a umprograma mínimo, baseado na manutenção da “austeridade fiscal” (não tão austerapara o andar de cima), melhora do clima das relações federativas e pouco arrojona diplomacia, pavimentando o caminho para a tão sonhada “terceira via”. Masesta suicidou-se com a socialdemocracia paulista.
Em síntese, o suposto na adesão: tudo deve ficar como dantesno Castelo de Abrantes.
Eis que Lula sobe o tom e, num gesto de ousadia, imbuído dosprincípios elencados no art. 4º da Constituição brasileira, faz, na África, umadeclaração que aponta para a óbvia similitude entre o massacre em curso eaqueles promovidos por Hitler contra os judeus, ciganos, comunistas, gays,doentes físicos e mentais... Correlação que, de resto, centenas de judeus nãointoxicados pela hasbará, a incansável máquina de propaganda sionista, vêmfazendo há décadas (o depoimento comovente do judeu Edgar Morin está amplamentedisponível nas redes).
Horrorizados como jamais se mostraram diante do horror,colunistas, comentaristas, politicólogos, congressistas etc. saem de suas tocaspara repudiar, em uníssono, não o crime, mas o seu delator. Colonizados, nossos intelectuais setransformam em correias de transmissão dos interesses da ideologia expedida doscentros de controle das grandes potências, vale dizer, do Pentágono.
Na malhação do Judas fora de época que testemunhamos naúltima semana (e que em certos momentos trazia à lembrança o Febeapá doinesquecível Stanislaw Ponte Preta), escapou aos nossos diligentes “formadoresde opinião” a oportunidade de fazer reparos à ação dos EUA, que pela terceiravez bloquearam, no Conselho de Segurança da ONU, uma resolução visando aocessar-fogo no gueto de Gaza – fazendo-se acompanhar, desta feita, pela omissãocovarde de sua ex-metrópole, hoje colônia.
Ao servilismo associa-se o velho complexo de vira-lata, quenão entende que o Brasil possa, na cena internacional, falar de pé, erguer avoz e impor-se como sujeito: isto é, pensar com sua própria cabeça, ter vozprópria e caminhar com suas próprias pernas.
É lamentável.
***
Semântica fríívola – Criou-se no Brasil a expressão “mortose desaparecidos”. A semântica é falsa, pois não existem “desaparecidos”, mastão-só mortos. Mário Alves não está desaparecido, está morto, havendo sidotorturado e assassinado nas dependências do quartel da Polícia do Exército, noRio de Janeiro, na rua Barão de Mesquita. Stuart Angel não está desaparecido,está morto, torturado e assassinado que foi na Base Aérea do Galeão, também noRio. Todos os desaparecidos são mortosda ditadura, que os matou e desapareceu com os corpos.
Saudação a quem temcoragem – Na última quarta-feira, diante de um auditório da UnB absolutamente lotado, o jornalistaBreno Altman lançou seu opúsculo “Contra o sionismo – retrato de uma doutrinacolonial e racista” (ed. Alameda). Trata-se de livro de combate, escrito com a indignação de um judeucomunista que se autodefine como aliado da causa palestina e inimigo dosionismo.
Boquirroto – Perfeita, a interpelação feita pelo senadorOmar Aziz ao presidente daquela Casa, que se permitira qualificar como“inadequada” a fala de Lula sobre o massacre, cobrando do presidente Lula “umaretratação”. O ambicioso Pacheco melhor faria se não apenas se ativesse àverdade histórica e ao necessário equilíbrio entre os poderes da república, masdeixasse a cargo das outras nações a tarefa de cuidar de seus interesses.
Perdeu uma ótima oportunidade de ficar calado.
Por: roberto Amaral.
* Com a colaboração de Pedro Amaral.
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