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O jornalismo na linha de frente da democracia

O jornalismo na linha de frente da democracia

15/03/2024 15h10 Atualizada há 2 anos atrás
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O jornalismo na linha de frente da democracia

“A gente ter conseguido manter a Pública por 13 anos já éuma grande vitória, já é algo a ser celebrado. [...] Faz parte da Públicasempre estar refletindo sobre o contexto social, político e tecnológico de comoo jornalismo está chegando nas pessoas. Isso é uma conversa constante. Entãoesse ano, para esse evento, a gente resolveu convidar vocês para fazer partedessa reflexão”, a fala é de Natalia Viana, co-fundadora da Agência Pública, naabertura do evento “Pública 13 anos: O jornalismo na linha de frente dademocracia”, que realizamos na última quarta-feira, 13, no Tucarena, em SãoPaulo.

A Natalia mediou a mesa "Desinformação e PopulismoDigital", que contou com a presença da antropóloga Letícia Cesarino e dapesquisadora e professora da FGV, Nina Santos. A conversa abordou, dentreoutras questões, como grupos extremistas se informam através de suas bolhas eque estratégias podem ser usadas para abrir caminho para o jornalismo dequalidade, como o da Pública.

Seguindo a conversa, Nina Santos explicou que adesinformação tem um efeito a longo prazo, visto que ela se sedimenta econstrói uma percepção de mundo enviesada ou completamente falsa, a depender docontexto. “O combate a esse ecossistema passa sim por desmentir coisas factuaisespecíficas, e a gente não pode abrir mão disso, de ter a informação factualcorreta, mas passa também pela discussão de como é que a gente constrói umavisão de mundo compartilhada, baseada minimamente em linguagens comuns”, reitera.

Também convidamos a repórter Juliana Dal Piva e a jornalistae pesquisadora Fabiana Moraes para responderem à questão: “Como cobrir ogoverno de forma equilibrada?”. A conversa foi mediada por nosso repórterRubens Valente.

Para Fabiana Moraes, “equilíbrio é uma palavra em disputa”,ou seja, é uma palavra política e com vários significados. Fabiana, que é partede nosso conselho consultivo, frisou a importância de diferenciar a imprensacomercial, que é uma agente de mercado, da imprensa independente. Ela tambémdefende que é necessário ter críticas ao governo e cautela ao ouvir o “outrolado”, que, para ela, sempre esteve associado aos espaços de poder e pode nãorepresentar a diversidade da população brasileira. “A ideia de equilíbriotambém tem cor, tem classe, tem raça e tem gênero”.

Juliana Dal Piva trouxe sua experiência como repórter quecobriu tanto o governo passado como o atual para o debate. Ela diz que procuraro equilíbrio não é comparar um governo com o outro. A jornalista tambémdestacou que a busca pela imparcialidade, tão falada na faculdade dejornalismo, muitas vezes não condiz com a realidade frente a situações em quesequer existem dois lados, ou diante de crimes em que ouvir os dois lados acabasendo também tomar uma posição. “Na busca pelo equilíbrio, o repórter vai controlaruma posição mínima, que diz respeito a sua matéria”.

Depois de uma manhã intensa, a mesa da noite “Colapsoclimático e antropoceno” trouxe doses de desespero e otimismo sobre o futuro davida humana no planeta Terra. Antes disso, nossa co-fundadora Marina Amaralabriu a segunda etapa do evento relembrando a criação da Pública e aimportância de um evento como esse. “Em 2011, quando a gente se uniu parafundar a Pública, a gente acreditava no poder do jornalismo para impactar arealidade desse país tão injusto e desigual, e a gente sentia falta de muitas vozesnesse debate. Agora nós continuamos acreditando no jornalismo como uminstrumento da sociedade democrática, trazendo informação de interesse públicoe de qualidade para qualificar o debate”.

A última conversa do dia, mediada por Giovana Girardi, chefeda cobertura socioambiental da Pública, lotou o teatro e teve as presençasilustres do ativista e escritor Ailton Krenak, do climatologista Carlos Nobre eda jornalista de clima Daniela Chiaretti.

Em meio a mais uma onda de calor no Brasil, Giovana começouperguntando aos convidados sobre a relação da democracia com a crise climática.O ativista Ailton Krenak respondeu introduzindo o conceito de racismoclimático, em que os mais vulneráveis sofrem mais com os efeitos das mudançasclimáticas, mesmo não sendo os principais responsáveis por elas. “As mudançasclimáticas estão sendo apropriadas pelo sistema de injustiça global e caberiatalvez a gente levar em conta aquele modelo de pensar o racismo estrutural comas suas diferentes camadas e pensar como nós somos manipulados por umacompreensão direcionada do evento climático. O evento climático é uma realidadena nossa pele, no nosso corpo, no nosso território. Ele mata pessoas e deixamuita gente desabrigada”.

O climatologista Carlos Nobre trouxe a provocação de que nãosão as mudanças climáticas que afetam a democracia, e sim a democracia queafeta as mudanças climáticas. Nobre expressou uma enorme preocupação com atendência mundial de crescimento do populismo e do negacionismo climático entreos líderes. “Se o populismo continuar a crescer, de extrema direita e até deextrema esquerda, nós colocamos o planeta numa trajetória de um suicídioambiental climático planetário que nunca a humanidade enfrentou”. 

Daniela Chiaretti, repórter experiente de clima no ValorEconômico, comentou que é “um eterno aprendizado” tentar traduzir a ciência eos ensinamentos dos povos originários para o público, com o desafio de nãoparalisar as pessoas por medo, mas sim inspirar mudanças. Para a jornalista,ações individuais ajudam, mas é uma mudança que precisa ser constante e alinharvárias áreas. Por exemplo, as universidades de arquitetura  precisam estar pensando em materiais que sustentemas mudanças climáticas. “Tem muito trabalho a ser feito e é pra já, é paraontem”, destacou. Todas as mesas foram transmitidas ao vivo e estãodisponíveis, na íntegra, no nosso canal do Youtube.

Após um dia de muitos encontros e conversas com quemacompanha de perto nosso trabalho, Giovana Girardi encerrou a celebração deaniversário lembrando que a Pública só é o que é há 13 anos porque não anda só.“A Pública só está aqui há anos porque a gente tem Aliados do nosso lado. É sócom apoio deles que a gente faz jornalismo desse jeito, sem amarras, sem rabopreso, sem medo. [...] São os Aliados que nos permitem estar aqui fazendo essasperguntas hoje. Nos apoiem para que a gente possa continuar fazendo essejornalismo!”.

Por: Letícia Gouveia - Assistente de comunicação da AgênciaPública.

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