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Indígenas na redação

Indígenas na redação

22/03/2024 09h44 Atualizada há 2 anos atrás
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Indígenas na redação

Foram quase dois anos de preparação para a Agência Públicareceber nesta semana uma turma de formação em jornalismo investigativo. Sevaleu a pena, Tumi Matis, Puré Juma, Helena Corezomaé, Cocokaroti Metuktire,Maikson Serrão e Yolis Lión poderão dizer neste próximo domingo. De nosso lado,o aprendizado, as surpresas positivas e a fé na qualidade dos trabalhos quevirão dali têm superado as expectativas.

A ideia de oferecer oficinas de formação para jornalistas ecomunicadores de povos originários veio depois de 18 meses de trabalho com dezmicrobolsistas indígenas no moldes do programa que fazemos desde 2012 para daroportunidade a jornalistas de realizar sua “pauta dos sonhos” – até o anopassado, foram 83 microbolsas ofertadas. Mas o programa para os indígenascomeçou dez anos depois, em 2022.

“Moro na terra indígena mais desmatada do Brasil”, escreveu,reforçando a importância de participar. “Mas não sou jornalista”, explicou.

Perguntei se ele já tinha feito alguma reportagem antes –afinal, o programa de microbolsas até então era dedicado apenas a profissionaisde jornalismo. Além disso, a experiência como repórter, o risco para asegurança do profissional e a viabilidade da pauta estavam entre nossoscritérios de seleção. Nos três quesitos, a proposta não se encaixava.

Por outro lado, o pedido era tão justo que prometi pensar emum projeto específico, adequado à realidade dos comunicadores indígenas – quenem sempre têm experiência em jornalismo, correm riscos ao fazer denúncias,sobretudo se vivem no território, mas desempenham um papel informativoimportante dentro de comunidades e associações.

A diretoria da Pública abraçou o desafio com entusiasmo.Sabíamos que teríamos um aliado fundamental para elaborar esse projeto, o que otornava mais viável: o jornalista e doutor em antropologia Spensy Pimentel,amigo de longa data e editor da primeira grande investigação socioambiental querealizamos, o “Amazônia Pública”, de 2012.

Spensy é coordenador do curso de jornalismo da UniversidadeFederal do Sul da Bahia, onde o sistema de cotas facilitou o ingresso deestudantes indígenas daquela região. Também é convidado frequente doscongressos de jornalismo, em que orienta os profissionais que cobrem o tema –quase 100% não indígenas e sem conhecimento da complexidade de culturas erealidades. Uma ponte entre muitos mundos.

Nosso amigo se empolgou de imediato, e depois de meses detrabalho, que envolveu o empenho de muita gente da Pública, conseguimosrealizar o primeiro concurso de microbolsas para comunicadores indígenas, comcinco selecionados em 2022 e mais cinco premiados em 2023. Apesar dasdificuldades vividas no decorrer desse período – de barreiras culturais adistâncias gigantes e ameaças no território –, quase todos os trabalhos forampublicados (um foi retirado do ar a pedido do autor, que foi ameaçado, e o outronão pôde ser concluído por dificuldades logísticas).

A partir do que aprendemos nessa experiência, decidimosavançar um passo, ou, como prefere o Spensy, recuar para uma primeira etapa, eassim aprimorar o processo de aprendizado mútuo: antes de sair para realizar aspautas, teríamos oficinas presenciais de uma semana para os seis microbolsistasselecionados – três homens e três mulheres de idades e regiões diferentes – nasede da Pública, em São Paulo.

Ministradas por profissionais da Pública e parceiros na áreado direito, da documentação audiovisual e da segurança digital, as oficinas,que começaram na segunda-feira, têm como objetivo afinar pautas e métodos antesdo processo de apuração das reportagens, quando mentores e indígenastrabalharão juntos até a publicação dos trabalhos em nosso site.

Em resumo: se as primeiras reportagens são como “gritos desocorro” de comunidades indígenas, a intenção agora é que eles se apropriem dastécnicas do jornalismo investigativo para qualificar as denúncias, apontandoresponsáveis e cobrando o poder público assentados em bases sólidas:evidências, dados, depoimentos, documentos.

Ainda tem muita água para rolar debaixo dessas pontes, mas ocerto é que essa turma já tem nos ensinado muito sobre resistência cultural,racismo, estereótipos e outras violências e nos presenteado todos os dias comnovos olhares – e uma curiosidade infinita – sobre autonomia indígena e ojornalismo como ferramenta de justiça social e conhecimento.

Também aprendemos muito sobre o valor da convivênciasolidária – não apenas em relação a nós, “brancos”, mas entre eles. Afinal, amesma sala de aula reune indígenas que atuam com sucesso no mercado formal detrabalho e comunicadores que nunca pisaram em uma redação ou sequer saíram desua região. Pois é assim que tem funcionado esse processo de aprendizado – emuito bem.

Leio nos jornais que também nesta mesma semana, na sede doCNPq, em Brasília, aconteceu o 1o Encontro Internacional de PesquisadoresIndígenas entre Aldeias e Universidades. Além de pesquisadores indígenas decinco países da América Latina, participaram representantes do governo federal,professores, estudantes, cientistas e personalidades como o cacique Raoni. Aideia é unir conhecimento tradicional e ciência acadêmica para encontrarrespostas globais e locais para a emergência planetária dentro dos princípiosda justiça climática.

Os indígenas já romperam barreiras na universidade, naciência, nos tribunais, no Congresso, até no Executivo. Sempre com avanço parao desenvolvimento do conhecimento e da democracia em todos esses campos.

Está na hora de ocuparem as redações para o bem dojornalismo e de todos nós.

Por: Marina Amaral - Diretora Executiva da Agência Pública.

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