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Os 60 anos do golpe e o recuo de Lula

Os 60 anos do golpe e o recuo de Lula

24/03/2024 09h56 Atualizada há 2 anos atrás
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Os 60 anos do golpe e o recuo de Lula

Ensina a história: quando o líder não pode avançar, o recuoé inevitável. Se não dispuser de engenho e arte, matéria-prima escassa, logo severá envolvido pela estratégia do adversário. Assim na arte da guerra, assim napolítica. Lênin aconselhava dar um passo atrás para poder dar dois à frente.Era o recuo tático. Mas há políticos que dão dois passos atrás e só um àfrente. Napoleão conheceu a derrota quando mais avançava no território russo,pois não se dera conta de que era o general Kutuzov, comandante do exército doCzar, na defensiva, quem de fato conduzia as tropas invasoras. Para o desastre,evidentemente. Getúlio Vargas, conservador e dialeta, fez de seu último recuouma operação tática de avanço que ainda hoje é referência para historiadores epolíticos. De quebra, adiou por dez anos o golpe que afinal veio em1964. JoãoGoulart confiava haver composto com os militares uma boa convivência quandoaceitou a emenda parlamentarista e assim legitimou o golpe de 1961.

Desde o primeiro governo, Lula vem tentando compor com acaserna, acariciando-a com verbas e outras benesses. Ainda hoje é visto comreservas. O presidente está demorando a compreender o significado do 8 dejaneiro de 2023, com seus antecedentes e desdobramentos. Como parece não havercompreendido o real mandato que recebeu do povo em 2022.

A tática do recuo é o expediente de que o presidente Lula,mediante dictak que não honra sua biografia de líder democrata, acaba de lançarmão ao proibir, na área do Poder Executivo (e provavelmente valendo para opartido que criou à sua imagem e semelhança), a discussão, mais do que nuncanecessária, acerca do legado da ditadura militar que no próximo 1º de abrilcompletará 60 anos de sua instauração, traumática como sabemos. Um golpemilitar que depôs o presidente da república e iniciou o mandarinato dos generaisque duraria insuportáveis e inesquecíveis 21 anos de mando autoritário(compreendendo prisões, tortura e assassinatos) a que não faltou, porém, aresistência da sociedade brasileira, que a combateu do primeiro ao último dia,sob as mais variadas formas de luta, e os sacrifícios pessoais conhecidos. Só acrônica desses tantos anos de chumbo (dos quais o presidente foi vítima quandode sua iniciação como líder sindical, e tantos companheiros seus conheceramperseguição policial, prisão e tortura) já exigiriam um bom e amplo debatesobre o processo democrático brasileiro vis a vis as intervenções dos quartéisna vida política brasileira, sempre contra a democracia, sempre a serviço daminoria do 1% de brasileiros donos do poder, os herdeiros da casa-grande quenos governa há 500 anos, agravando a pobreza de um país destinado ser uma das mais ricas e felizes províncias do mundo.

Lutando contra essa expectativa, de progresso edesenvolvimento social de par com autonomia política, vêm os militaresintervindo na vida política, desde principalmente 1889, mediante seguidosgolpes de Estado casados com a violência política. Para relembrar algunsepisódios marcantes: 1937 (ditadura do Estado Novo), 1954 (deposição de GetúlioVargas), 1955 (tentativa de impedir a posse dos eleitos, Juscelino Kubitschecke João Goulart), 1961 (intentona para impedir a posse do presidente JoãoGoulart e, mais ainda, o golpe de 1964 com a usurpação da democracia por longos21 anos - que ainda perduram, pelos seus malefícios, intoxicando a democraciabrasileira, pois sobrevivendo nas formulações do estado maior das forçasarmadas da classe dominante, ainda hoje adestradas nas escolas de comando dosEUA, de que se transformam em correias de transmissão ideológica, sem seperguntarem se essa é a política que responde ao sentimento nacional. Falam empátria com P maiúsculo, mas não a ouvem, intentam sempre jungí-la. Falam emsoberania, mas a ela renunciam. O golpe foi uma ordem dada por Washington, quedesde a Segunda Guerra mantém linha com os comandantes daqui. Um dos objetivosdo Departamento de Estado dos EUA, alcançado com o golpe, de sua inspiração,foi conter o ascendente movimento das lutas sociais na América do Sul.

Ora, somente este resumo, que não se conclui com o 1º deabril, estaria a exigir um debate e uma revisão histórica, com a isenção quepodem oferecer 60 anos de distanciamento. Lula ignorou esse tempo, esses fatose essa necessidade, e, perigosamente, fez tábula rasa de nossa históriarecente, nada obstante dela haver sido personagem como ator e vítima.

O presidente errou, taticamente, estrategicamente e, talvezo pior de tudo, errou do ponto de vista pedagógico, pois jogou fora umaexcelente oportunidade de elevação do nível de consciência das massas.

O que há de pior, de nocivo, de maléfico na síntese daditadura sobrevive nas atuais gerações de oficiais jovens e velhos, de uniformeimpecável e de pijamas esgarçados, e se projeta na vida política, açulando osinstintos mais primitivos revelados na emergência da ultradireitaprotofascista, pela vez primeira se apresentando como perigoso movimentopopular. O que, por si só,    justificaria a reflexão interditada.

Não considerou o Presidente, político hábil e arguto,que,  revisitando o 1º de abril de 1964(uma noite escura que começaria a clarear-se 21 anos passados) estaríamosdeitando mão nas informações necessárias para identificarmos os elementosconstrutores da transição da democracia quase plena para a emergência da reaçãoprotofascista, a deposição de Dilma Rousseff, a farsa da Lava Jato, suainelegibilidade e prisão, a eleição de Jair Bolsonaro e o governo deste, amboscomo projeto de estado maior das forças armadas do Estado brasileiro.

Ora, esses fatos, história do presente, foram vividos porLula, e não lhe falta a consciência de que as raízes ideológicas da reaçãoprotofascista remontam à ditadura, cuja doutrina renasce, como chorume, porquea peçonha sobrevive, animando caserna, empresariado e setores popularesdesamparados da democracia  e esquecidospela esquerda que de há muito abandonou a organização popular e a batalhaideológica. 

Lula sabe do que estamos tratando, pois passou parte dessesúltimos anos, exatamente 580 dias, purgando uma condenação ilegal. Aliás, vê-lona cadeia foi sempre e é ainda sonho da Faria Lima, que o considera comoinimigo de classe desde os primeiros dias das greves do ABC paulista. O ódio declasse não é aplacado pelos seguidos gestos de conciliação do presidente.

Ora, o mandatário conhece melhor do que a maioria dosmortais o empenho da caserna em reeleger seu delfim (como ponto de partida deum golpe de estado anunciado durante quatro anos), e, frustrada a opção legal,seu empenho em virar a mesa e implantar uma ditadura protofascista em termosdesconhecidos e inimagináveis. O presidente assistiu, de corpo presente, àresistência a sua posse e a intentona do 8 de janeiro de 2003, com a claraconivência dos comandos mantidos pelo nosso ministro da defesa, que se sentefeliz como representante dos fardados no governo civil. Já aí temos na mesaargumentos e material suficientes para abrir uma discussão nacional sobre nossoprocesso político e o papel do militar, mais ameaçado do que nunca. Empreenderessa revisão, inadiável, não é remoer o passado: é visitar a história para comela aprender, conhecer os erros para não permitir que se repitam. É o exercíciode todo estadista.

A nação quer conhecer sua história, pois sabe que o avançoda ultradireita e a retomada da opção golpista têm origem direta nos 21 anos daditadura.

A maquinação e as operações militares visando à implantaçãode uma ditadura fascista, a partir do governo do capitão, são, hoje, segredo depolichinelo. Estão descritas em seus pormenores e publicadas nas folhas,transformando-se em objeto de análise sobre os preparativos do golpe. O quetoda a sociedade sabe, o que sabe o governo, a urdidura golpista, restarevelada em todas as suas nuances, comprovada, documentada. Não pelasinvestigações da Polícia Federal; também não resulta da lupa de nenhum Sherlock, nem é o fruto da fragilidadepsicológica do major valet do capitão, pois resultam de depoimentos,confissões, deleções premiadas do general comandante do exército e dobrigadeiro comandante da aviação, atores na súcia golpista e cúmplices doex-presidente na intentona malograda.

Que receia o presidente? Nossa gente não conhece atranquilidade institucional com que contava viver após as eleições de 2022,quando, majoritariamente, optou pela democracia. Esse caráter, que o pleitoassumiu não pode ser posto de lado. Nossa gente, que não mora nem em Ipanemanem nos Jardins paulistas, vê inseguro o seu governo, hostilizado pelosfardados e chantageado por um Congresso no qual é minoria absoluta. O povo estáassustado. Os banqueiros, hoje como ontem, nos governam, pois é a Faria Limaquem dita as regras do jogo, e é em nome do grande capital que a imprensacorporativa exerce o perverso papel de aparelho ideológico da classe dominante.Há muito que nosso povo deu adeus às ilusões: nem reforma, nem revolução. Épreciso reabilitar a esperança, retomar a iniciativa, dialogar com as massas,nas ruas, quando até a esquerda organizada parece atraída pelo recuoimobilista. A batalha contra o protofascismo se faz no campo ideológico, quecobra iniciativa, debate e organização. E na especificidade brasileira ogoverno não pode simplesmente lavar as mãos.

Quando a casa cai os escombros soterram as Severinas, osSeverinos, os Zés e as Marias. Uma das poucas expectativas a manter-se de pé éa confiança do povo em Lula, que ainda é tratado como um dos seus. Por outrolado, Lula sabe que, no frigir dos ovos, é com esse povão anônimo  que poderá contar.

Quais as razões, então, para o recuo? Por que não discutircom as grandes massas nosso projeto de democracia? Por que não discutir o papeldos militares? Por que não destrinchar a ditadura? Por que arquivar a comissãodos mortos e desaparecidos, e desistir do Museu da Memória e dos DireitosHumanos? A quem beneficia o recuo constrangedor?

Por: Roberto Amaral.

*  Com a colaboraçãode Pedro Amaral.

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