A cantora disse que gosta de ler livros de diversos gêneros,não apenas ficção, e se dedica a leituras sobre felicidade, psicanálise,estética e outros. Daniela Mercury defendeu, ainda, que muitas histórias aindapodem ser contadas sobre a Bahia e que sente falta de mais registros sobre aprodução artística no estado, como biografias e documentários. "A gentetem alguns documentários, mas eu acho tudo ainda muito pouco porque a geraçãodo Axé a turma documenta pouco. Acho que vale contar a história de cada banda,a gente tem muito a contar. Faltam livros, songbooks de compositores dos blocosafros", disse.
Também na Arena Jovem se apresentou o escritor RaphaelMontes, que contou para um auditório lotado alguns segredos das suas obras desuspense. Montes revelou, inclusive, que tem planos de morar em Salvador.Perguntado sobre o que pensa de declarações sobre mulheres escreverem sobremulheres, negros sobre negros e gays sobre gays, ele disse que o seu livro “Umafamília feliz” foi uma contribuição ao debate.
"Eu acredito no exercício da ficção literária. Oescritor pode escrever sobre qualquer coisa e eu posso, sim, escrever sobre umatravesti norueguesa, e sobre a história de um psicopata que, com certeza, eunão sou. Escrever é a graça de vestir corpos e cabeças que não são meus.Limitar o que cada pessoa pode escrever para mim tem nome e é censura. A gentereproduz discursos até com boa intenção, mas não percebe os perigos. O conceitode 'lugar de fala' é sobre dar voz a quem viveu determinadas experiências, masele não impede que outras pessoas também falem sobre os assuntos", disse.
A ex-BBB e comediante Lumena Aleluia e o co-fundador dapágina 'Saquinho de Lixo', Júlio Emílio, trouxeram discussões sobre o papel dosmemes na cultura contemporânea. Para Lumena, os memes lhe deram uma espécie desegunda chance com o público após a saída do reality da TV Globo, já que suaparticipação foi marcada por forte rejeição. "No programa, eu estava comos chakras desalinhados. Foi interessante, depois, poder brincar com as coisasque me aconteceram. Foi como pegar um limão e fazer uma limonada. Com os memes,as pessoas me deram a chance de mostrar outras versões minhas. Foi um respiropara a minha saúde mental, e foi legal ter essa chance porque hoje consigo mecomunicar com a galera que me segue", agradeceu.
Glicéria Tupinambá, legítima representante dos povosoriginários, fala sobre a memória do mundo
Já no Café Literário, que é outro espaço da Bienal, aartista e ativista indígena Glicéria Tupinambá contou sobre como fez pararefazer um Manto Tupinambá, tradição que havia se perdido há séculos devido àação de colonizadores. "O tempo, para nós, é algo infinito. O nosso temponão é linear como o dos homens. Ele está traçado no meu cocar, no meubracelete. Eu visto o tempo. Alguns não entendem a questão do pertencimentoporque procuram a lógica na ciência do branco para se entender na sua própriacultura", observou.
Participante da mesma mesa, a historiadora Tanira Fontourafalou sobre o orgulho de ser povo de terreiro, mesmo não sendo fácil, e dascorrelações entre as culturas negras e indígenas."Terreiros e aldeias sãolocais de preservação de tradições e é isso que nos mantém unidos. A gente temo conceito da memória e a memória traz o conceito de pertencimento. As lutassão grandes, mas a responsabilidade com tudo isso é o que faz com que a gentesiga e não desista porque o que é nosso, é nosso. Somos alicerce dessaterra", disse.
Por: Elaine Hazin.
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