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Na paz e na guerra, a força dita o domínio

Na paz e na guerra, a força dita o domínio

13/05/2024 15h22 Atualizada há 2 anos atrás
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Na paz e na guerra, a força dita o domínio

“No Brasil não se organiza exército contra o estrangeiro;desenvolvem-se as instituições militares contra a ordem civil”.

Rui Barbosa.Discursos parlamentares

Em 1945, vencida a chamada segunda guerra mundial pelos“Aliados”,  as bombas jogadas contra oJapão (70 mil civis mortos)  eram,  do ponto de vista exclusivamentemilitar,  absolutamente desnecessáriase,  do ponto de vista humano -- portantodo ponto de vista ético, segundo uma suposta ética ocidental, própria, nossa--, uma imoralidade, ademais de um crime monstruoso. Politicamente, porém, ogenocídio  pareceu necessário aos EUA,empenhados em demarcar o território sobre o qual passaria a exercer seu projetode senhor do mundo, na busca de realização de seu  alegado “destino manifesto”,impondo seus valores específicos a todo o mundo, por variados instrumentos, comrealce para o fuzil.  Os cruzados dacontemporaneidade estavam  voltados aodesafio (visto como imperativo) de estabelecer limites políticos e espaciais aoinimigo que sua visão de mundo elegera. Little Boy e Fat Man, as bombas de  6 e  9de agosto de 1945,  antes de Hiroshima eNagasaki,   miravam Moscou, ao tempo emque  estabeleciam  um novo conceito de guerra, ao qual orestante do mundo, inclusive a União Soviética, a arqui-inimiga, haveriam de seadaptar.

As bombas sobre  aspopulações civis do Japão não apenas apressaram por uns poucos dias a rendiçãode um  Império  de joelhos (as tropas soviéticas já se haviaminstalado em Berlim), como alteraram substancialmente a estratégia da guerra,ao tempo em que, igualmente, determinavam a logística de seu adversário: a URSSde então, acossada,  ingressou na corridapela bomba atômica. Era a alternativa,  para sobreviver diante do inimigo luciferino.  Para muitos analistas de hoje a expectativado armagedon, anunciada pela ameaça atômica, evitou, ou mais precisamente adiado, a terceira guerra mundial, esta quejá se trava, como as que se sucederam à vitória dos aliados: mediante terceirasforças, subsidiadas, assistidas, financiadas. As guerras contra os palestinos ea invasão da Ucrânia, põem nas mesmas posições tático-políticas os exércitosque lutaram na Coréia e no Vietnam, como na China,  cuja revolução maoísta foi decisivamente apoiadapela URSS. Este apoio, porém, não seria suficiente para evitar as difíceisrelações entre a China de Mao e a URSS, acusada de imperialismo pela vizinha, oque  valeu a associação dos chineses aoPentágono em projeto de desestabilização da URSS (v. Sobre a China, HenryKissinger).

Os blocos políticos eram, assim,  necessariamente blocos de guerra, e jamaispolitica e guerra estiveram tão atadas.  A Conferência  de Ialta (1945),quando Churchill, Roosevelt e Stálin, nessa altura já não tão aliados, redesenharam o mundo seguindo as rotastraçadas pelas suas tropas,  teria atrásde si a inauguração, pelos EUA, da era nuclear.

Ainda não haviam se dissipado os cogumelos  atômicos, e ao mundo era apresentada uma  nova realidade geopolítica, imperativa.  Para além dos conflitantes notórios, oslíderes dos dois polos administravam em consórcio o projeto estratégico, queficou mais claro com o ingresso da URSS no clube atômico (1949), quebrando omonopólio dos  EUA. Os dois países sefazem  por muito tempo os xerifes da novaordem, na qual deveriam ser respeitados os  respectivos projetos deexpansão, condicionados por um pacto: as duas potências, sem renunciarem àdisputa acirrada, evitariam o conflito direto e reconheceriam as áreas decontrole de cada um. Esse entendimento foi posto às claras quando da invasão,da Hungria (1956) pela URSS da Thecoslováquia (1968).  Entramos na fase da guerra fria sob condiçõesditadas pela corrida nuclear, presente ainda hoje, apesar da autodissolução daURSS e sua renúncia ao experimento comunista.

O adversário dos EUA, hoje, e talvez definitivo, é aEurásia, onde pontificam a potência chinesa e o arsenal nuclear da Rússia. 

Mas essas não foram as únicas guerras, digamos guerrasregionais ou localizadas ou terceirizadas, nas quais os interesses dos EUA e daURSS eram defendidos por outras formas. O confronto era a opção mais radical, aque se valeu seguidamente o Pentágono, complementando a intervenção nos embates puramente políticos queassolaram -- com ditaduras pró-americanas e golpes de Estado contra governos esquerdistas ou simplesmente democráticostodo o mundo --, mas especialmente na Ásia, no continente africano, e naAmérica Latina. No Brasil, principalmente após 1945 com  o retorno dos oficiais que estagiaram com astropas americanas no final da segunda guerra mundial.

A característica nodal da segunda metade do século é essa: ointervencionismo acompanhando as guerras por procuração. Ainda é a fase dehoje, embora cada vez mais se distanciando do conceito estrito de Guerra Fria.

Onde houvesse qualquer sinal de emergência de algo quesugerisse um movimento comunista, seja nos limites do processo políticoinstitucional, seja já no campo do conflito armado, os EUA se faziam presentes, para seu combate, e essaera, ipsis litteris,  a lógica  de enfrentamento da URSS, o apoio àsinsurgências de esquerda e aos movimentos de libertação nacional.

Assim seguia a história, repetindo quase sempre o mesmoenredo com os EUA frequentando com suas tropas o teatro da guerra, que a URSS,até o desastre do Afeganistão, procurava evitar.  Exemplar é o permanente choque  entre ospovos árabes, apoiados pela URSS e agora pela Rússia, e o governo sionista  de Tel Aviv, com poderosas forças armadas eavançada indústria bélica e armamentos fornecidos pelos EUA e a OTAN, fez-se, aum tempo, protetorado dos EUA e seu posto avançado no Oriente Médio, ondeprossegue o conflito que vem da segunda metade do século passado, na sequênciado esquartejamento imposto pela Inglaterra, nas pegadas da primeira guerramundial e do colapso do Império Otomano. Certamente era a tudo isso  que se referia o secretário-geral da ONU,António Guterres, ao lembrar, no Conselho de Segurança,  que o ataque do Hamas a Israel deveria serconsiderado numa visão histórica, irritando como vimos o sionismo.

O conflito segue no Oriente, de onde jamais se afastou,  e se instala na Europa,   emprestando sua marca ao novo século.

A delimitação dos campos prossegue. É assim que se preparamas grandes guerras, pois nenhuma é improvisada. O mundo assistiu, sem dar-seconta do que via, ou fingindo não ver a realidade para melhor conviver com ela,o rearmamentismo da Alemanha, como estamos vendo, hoje, a arquitetura de umamanhã que não nos pode atrair.  Para ahumanidade seria de bom proveito conhecer a alteração de objeto e sujeito daguerra fria contemporânea, desde o suicídio da URSS, a ascensão da China e acrise do capitalismo de nossos dias, posta a nu principalmente com a  crise sistêmica deflagrada em 2008 com adebacle  financeira dos EUA que atingiutodo o mundo. Esses movimentos se conjugam, pois correm, em paralelo àsdificuldades dos EUA, com o crescimento continuado da China. Os novostempos  impuseram uma nova guerra fria,esta de hoje. Não há mais por que falar em defesa da democracia, nem em ameaçasdo comunismo, posto que o conflito, a rigor, é intercapitalista e seu objetovem das calendas gregas: a disputa da hegemonia econômica e politica quedepende da hegemonia militar. Como toda grande guerra, a que se aproxima nãochega pronta.  Sua infantaria é, comosempre, a batalha ideológica abrindo a trilha para os primeiros choques de interesses,os bloqueios de toda a ordem, até os primeiros conflitos, que são sempreoperados por outras forças. Refiro-me às guerras ou conflitos por procuração.Nas estepes russas  e ucranianas não háhoje combatentes nem chineses nem norte-americanos, embora os EUA, liderando aOTAN, participem  intensamente doconflito, tanto quanto estão decisivamente presentes em Israel, e, portanto, emGaza.    

A segunda guerra mundial tem-se como iniciada em setembro de1939, com a falsa surpresa da Inglaterra diante da invasão da Polônia,escancaradamente anunciada pela Alemanha, com reiteradas ações de beligerância,além de discursos grandiloquentes diante de massas hipnotizadas: em1936 a  remilitarização da Renânia; em 1938 aanexação da Áustria; ainda em 1938 a anexação dos Sudetos daTchecoslováquia  e, em março, a ocupaçãodo que sobrara daquele país. Nada obstante tanta clareza, o primeiro ministroinglês, Arthur Neville Chamberlain, em setembro desse assustador 1938, regressada “Conferência de Munique”, onde negocia com Mussolini e Hitler,  proclamando que havia alcançado “a paz para onosso tempo”. E é mantido no cargo até 1940! Os EUA --  acossados pelo ataque nipônico a PearlHambourg (1941) -- só entrariam no teatro da guerra em abril de 1942, com umbombardeio de efeito psicológico e poucos danos materiais sobre Tóquio.

Hoje, o que desponta no horizonte a olho nu é o conflitoentre um Ocidente em crise contínua (crise política com o avanço da direita e aextrema-direita,  e crise econômicacrônica, mas ainda fortíssimo no plano militar, pois sua cabeça está emWashington) e uma Eurásia liderada por uma China em permanente crescimento,tendo à sua ilharga o paiol atômico da Rússia. Por sem dúvida, a realidade nãose conforma com o congelamento e todos sabemos que o processo histórico é umcomposto de variáveis, muitas imprevisíveis. Mas consideremos o que  os números podem sugerir.

Nos últimos 10 anos, o crescimento médio do PIB dos EUAficou em torno de 1,5% e 2,5% ao ano. No mesmo período, a China apresentou umcrescimento médio do PIB entre  6% e 7%ao ano. A tradução dominante desses números é que que a China vem, há anos, apresentando indicadores de  crescimento contínuo, candidatando-se a, namargem de 10 a 20 anos,  superar os EUAcomo a maior economia do mundo. O imasse está exposto e muito depende de comose encaminhará o Pentágono: esperará o maior crescimento do adversário paraentão enfrenta-lo?

De uma forma ou de outra estará pressente a questão  crucial da hegemonia, da qual nenhum líder,ou candidato a  líder, pode abrir mão.

O que temos com isso? Tudo, porque, independentemente denossa vontade, seremos afetados. O que nos resta, nas circunstâncias, é tercareza sobre nsss interesses, e nos prepararmos para sua defesa.

Somos o maior país da América do Sul, a noma economia e asétima população do mundo, a maior da AL. Somos grandes  importadores de manufaturados, e produtores eexportardes de alimentos e   commodities.Precisamos ter conscência de que não somos parte na disputa hegemônica, e zelarpela nossa autonomia. Para tanto, porém, carecemos de uma politica nacional desoberania, um projeto claro de país que fale à sua população e não só à FariaLima, e, principalmente, carecemos de forças armadas bem treinadas, bem aparelhadas,com o máximo de nacionalização de seus equipamentos, e, mais do que tudo,apartadas dos interesses hegemônicos em jogo.

Precisamos, pois, discutir de que forças precisamos paraassegurar nossa soberania à margem do jogo das grandes  potências e blocos.  Um sistema no qual o poder civil não seja, comohoje e em toda a historia republicana, manietado pelo fuzil. Como conditio  sine qua non para a afirmação  de nossa soberania - e retorno ao professorManuel Domingos --, precisamos “de uma nova Defesa, que revise o papel, aorganização e a cultura das Forças Armadas”.

Finalmente, precisamos, passado mais de um século, dar umaresposta repubicana à denúncia de Rui Barbosa, tristemente atual.

Por: Roberto Amaral.

*  Com a colaboraçãode Pedro Amaral

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