Em 2003, porém, vinha ao governo, não mais o PT de 1989,filho das assembleias proletárias da Vila Euclides, mas uma nova força popular,dirigida de maneira pragmática, mais aberta ao diálogo e, por sem dúvida, àsconcessões aos donos do poder, aos setores mais arcaicos das forças armadas, àsoligarquias estabelecidas no Congresso, ao poder agrário, à Faria Lima e aoDepartamento de Estado dos EUA. O ponto de partida era este: quem não conquistaa hegemonia precisa conciliar para poder governar. Nesse meio termo, uma surpresa foi o bomentendimento pessoal entre Lula e Bush Filho.
Antes das eleições tivéramos a carta-compromisso de 2002,conhecida como ‘Carta aos Brasileiros’, mediante a qual o PT procuravatranquilizar o sempre desconfiado “mercado”, onisciente e onipotente. Seríamosprudentemente reformistas em um capitalismo dito moderno, caminhandoserenamente em busca da autonomia nacional possível. Lula foi eleito e reeleito, e por duas vezeselegeu Dilma Rousseff. A história é conhecida, embora ainda carente deinterpretação satisfatória. As mudanças subterrâneas que se processavam na basesocial-política foram ignoradas, até que as primeiras cismas sociais semanifestaram em 2013. A esquerda, com as raras exceções de vozes solitárias(como a de Gilberto Carvalho), não as viu.
No governo, a esquerda institucional e as forças populares eprogressistas que a acompanham, se haviam convencido, de que as conquistaspolíticas são definitivas. Desprezaram a dinâmica própria do processo social, erenunciaram à militância. Desprezaram a organização e principalmente oproselitismo político das massas; ignoraram a crise do trabalho (ainda hoje nãotêm o que dizer para o seu agravamento, à vista) e, na sua carona, se viram depernas quebradas com a anomia que se abateu sobre o sindicalismo brasileiro,crise que a nenhum observador doprocesso social pode haver surpreendido.
As consequências vieram a galope: não tivemos forças parasustentar o mandato legitimo de Dilma Rousseff; não pudemos fazer frente àcrise do “mensalão” e, na sequência, à farsa da Lava Jato. Faltaram-nos asforças necessárias para defender Lula, que, como se sabe terminou preso, porquase dois anos, sem o registro da comoção social que nos era justo esperar.
Não foram poucas as derrotas. Não conseguimos deter adesconstrução empreendida pelo mandato do vice-presidente perjuro. Assistimos,aceitando que nada poderíamos fazer, à ascensão da extrema-direita e à montagempolítica, com inteligência militar, de uma candidatura protofascista que sepropunha a resgatar os “valores” da ditadura de 1º de abril de 1964 nos seusaspectos mais sórdidos, pois os militares que então emergiam eram o churumeentre os herdeiros dos porões da ditadura.
O regime que se seguiu, na sua abjeção conspícua, teve omérito de dar fim às ilusões idealistas da centro-esquerda. O Brasil mudara deforma inesperada para nossas expectativas históricas, e ainda agora nosperguntamos o que fazer, sem conhecer a resposta..
No último vagido de nosso fazer político, nos termosconhecidos, impedimos a consagração eleitoral da extrema-direita. O líderderradeiro, todavia, retorna ao Planalto com limitadas condições de governança,a começar por ter de enfrentar o pior Congresso de nossa história, o maisretrógrado, o mais reacionário, o mais anti-nacional, o mais demófobo. O maisnegocista, e o de pior qualificação moral e cívica. Essas característicasseriam já suficientes para cercear um programa minimamente progressista, como denecessidade há de seguir um governo de esquerda. Na Câmara dos Deputados, das suas 513cadeiras, o governo dispõe de uma bancada (variante segundo as votações), dealgo pouco além de uma centena deparlamentares); um coletivo, ademais de politicamente frágil, sem consistênciaideológica. Por isso e não só, de apagada atuação parlamentar, em que pesemhonrosas exceções individuais.
O que aí está, essa base amorfa e flutuante, é tudo o que ohábil presidente logrou montar, nada obstante os reconhecidos esforços decomposição heterodoxa na formação do ministério. Um Senado conduzido por umaespécie de Arthur Lira de smoking (herdeiro da pior política mineira), onde atémandatários dos quais se espera algo de relevante ou digno, agem pelo retrocesso das suadas conquistassociais. Assim, o jagunço das Alagoas, como antes dele entendeu o notório Eduardo Cunha, seu padrinho político e mestre-escola, poderá decretar o impeachmentde Lula com o aplauso da mídia corporativa, aparelho ideológico da classedominante.
Pela primeira vez, a sério, temos diante de nós umaextrema-direita organizada e articulada internacionalmente, com objetivo clarode tomada do poder, qualquer que seja o meio, como o putsch, que ensaiou emjaneiro de 2023, felizmente repetindo o fracasso que marcou o assalto dos integralistas de Plínio Salgadoao Palácio Guanabara (1938).
A direita, a brasileira e qualquer uma, se alimenta naexpectativa do golpe: sua base popular se articula na infiltração nas forçasmilitares e policiais associada à mobilização das grandes massas, a indiferençados liberais e o apoio do empresariado. O processo de construção do quechamamos de bolsonarismo, até aqui, deve ser estudado como peça da maiorimportância, seja do ponto de vista didático, seja do ponto de vistapedagógico, tão caro para quem considera necessário colher as lições dahistória.
É preciso que a inteligência na esquerda despreze o consolode que tudo é fruto ora do acaso, ora do “azar” que persegue nossahistória, desconsiderado nosso papel departidos e instituições políticas na engrenagem da vida social, senhora doselos que se fecham e que se partem, senhora do progresso, das revoluções e dastragédias.
Não podemos riscar de nossas cogitações o reconhecimento dopapel do indivíduo na história, que não é um desenho divino, nem a montagemaleatória de acasos, mas uma construção permanente da ação humana. Portanto,temos tanto a possibilidade quanto o dever de enfrentar a maré montante daextrema-direita. Mas, por óbvio, se podemos e devemos retomar a construção dofuturo, aqui e agora, é inafastável que temos algo de responsabilidade pelopassado no qual interviemos. Há um fato objetivo: não tivemos a percepção dasmudanças e não nos preparamos para enfrentá-las. Perder, nesses termos, eraquestão de tempo.
Ademais da renúncia à visão revolucionária do projetohistórico e do proselitismo socialista no contrapelo do avanço do capitalismo –sem ilusões quanto à história presente –, nossos governos não foram capazes derealizar as transformações estruturais que o país pedia, mesmo nos limites docapitalismo e da dependência da hegemonia ocidental. Já caminhando para aterceira década do Terceiro Milênio, permanecemos na periferia do capitalismo;somos uma democracia sem respeito à soberania e à representação, e (ao lado daÁfrica do Sul) uma das duas mais ignominiosas concentrações de renda do mundo.Quanto isso deve pesar no suicídio das massas conquistadas pelo cantochão dadireita, e de um evangelismo que lhe promete o céu na terra?
A partir deste ponto alguma coisa pode ser explicada, eoutras tantas construídas.
***
A grande imprensa e a ética do capital – O moribundo Estadão(30.05), com chamada de primeira página, reclama da aprovação, pela Câmara dosDeputados que aí está, de dispositivo legal que determina um quantum departicipação de capital nacional na exploração de petróleo em nossoterritório. A Folha de S. Paulo repetiua reprimenda no dia seguinte. Se essa gente é contra o país (odeia a Petrobrás)e o empresariado aqui radicado, a serviço de quais interesses está?
Um balanço por ser atualizado diariamente do holocaustopalestino – O sionismo que impera no enclave israelense na Palestina, agindoimpunemente com o apoio militar, operacional e diplomático dos EUA, jáassassinou algo como 40 mil palestinos, em sua maioria velhos, crianças emulheres. Não há "conflito", apenas matança de civis desarmados, emgrande parte crianças. Já foram destruídas 230 mil unidades residenciais,deixando ao relento cerca de um milhão de pessoas – mais da metade da populaçãode Gaza, cuja infraestrutura civil foi completamente aniquilada: energia, águapotável, esgotos, todo o sistema de saúde (26 hospitais foram bombardeados), 12universidades e 56 escolas postas abaixo, deixando sem aulas 650 milestudantes. E o governo sionista ainda impede ou dificuldade a entrada de ajudahumanitária internacional – remédios, alimentos, água potável – aumentando afome coletiva, a subalimentação, a proliferação de doenças e o genocídio.Diante do horror desmedido e indefensável, fez bem o presidente Lula em, pelomenos, remover do protetorado o nosso embaixador. Gesto tardio, mas um primeiropasso importante na redefinição das nossas relações com o regime genocida.
Arriba, Mexico! – Atravessados pela brutalidade donarcotráfico e ainda às voltas com a dependência do Grande Irmão do Norte, osEstados Unidos Mexicanos lograram eleger neste domingo, e com folga, acientista Claudia Scheinbaum, de origem judaica, "filha de 68", quefará história como a primeira mulher a presidir aquele país. Às portas de umprocesso eleitoral que se anuncia duríssimo para a nossa centro-esquerda, quelições podemos tirar do inspirador processo mexicano?
Por: Roberto Amaral.
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