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Os EUA e o mundo sob sua regência

Os EUA e o mundo sob sua regência

07/07/2024 13h54 Atualizada há 2 anos atrás
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Os EUA e o mundo sob sua regência

“Roma desabara, afinal, ao peso de tanta grandeza e de tantocrime” (Afonso Arinos de Melo Franco, Amor a Roma)

No teatro elisabetano, o coro era figura sem presença natrama, inventada para anunciar ou esclarecer passagens futuras  na tragédia ou no drama. Com a tosca apariçãonas telas da CNN, no último 15 de junho, os atuais postulantes da Casa Brancailustraram a decadência política da sociedade estadunidense, da qual são frutolegítimo, assim como foi produto inevitável o lento e previsível declínio doimpério romano, ensandecido pela loucura do poder supremo e universal.

Sendo o epicentro, os EUA não encerram, porém, o universodas nuvens cinzas. A história presente nos acena com um processo político cujaspinças se espalham pelo mundo e ameaçam engolfar a Europa, fazendo-nos rever osanos 20-30 do século passado –desta vez, porém, com um elemento distintivocrucial: se naquele então os EUA cumpriam o papel militar e ideológico deesteio democrático, hoje, mil vezes mais poderosos, são a fortaleza da reversãoprotofascista, que, na loucura do dever missionário auto-atribuído, procuramlevar ao mundo inteiro, porque seu código de valores mudou nas pegadas docapitalismo financeiro monopolista.

O débil presidente  dedireita e o meliante que o desafia carecem de relevância. Desgraçadamente,Trump, tanto quanto Biden, ou quem venha substituí-lo na campanha mal iniciada,não constituem um ponto fora da curva na história política do impérionorte-americano.

A política, na parte do mundo que nos toca, regida pelosmesmos astros, marcha na toada dos tempos. Após o suicídio já quase longínquoda URSS, seguem-se a derrocada da socialdemocracia e o avanço continuado ora dadireita, ora da extrema-direita. O sinal mais trágico já nos foi enviado pelaItália, e pode ser repetido por franceses no próximo domingo, como pelosalemães no ano que vem. O Fratelli d’Italia alçado ao poder pelo votodemocrático – como antes foram Mussolini e Hitler, como foram recentemente ascaricaturas Bolsonaro e Milei –-, colocou na chefia do governo a neofascistaGiorgia Meloni. Na Alemanha, a socialdemocracia desmorona enquanto crescem osgrupos nazistas (que também já proliferam por aqui). Lá, até os verdes são dedireita. As eleições gerais para renovação do Bundestag devem ocorrer em 2025, e além da derrota doprimeiro-ministro  Olaf Scholz, e de seuSPD, que nas pesquisas recentes ocupa o terceiro lugar nas referências doseleitores, é previsível a ascensão de uma direita patologicamente intoxicadapelo chorume nazista que nos levou ao que todos sabem, porque falou à almaprofunda do pangermanismo, como o Duce sintetizou, com o fascismo, o sonhoitaliano de reviver as glórias de um império perdido nas brumas da história.

As eleições norte-americanas não alterarão o processohistórico: navegam em sua vaga. O governo de Meloni, que acompanha asdiretrizes dos EUA na OTAN, não tem término aprazado. O movimento está naFrança, com o fim já proclamado da hegemonia do Em Marche de Emmanuel Macron,que, todavia, permanecerá mais três anos habitando o Palais de l’Élysée,qualquer que seja o anúncio das eleições de domingo. É delas, portanto, quedevemos tratar.

Como os astros e as pesquisas aparentemente cientificasanteciparam, o primeiro turno  confirmouo avanço do ultradireitista Front National, de Marine Le Pen, mas semassegurar-lhe a maioria absoluta no parlamento (faltaram-lhe preciosos novevotos). A prevista derrota das esquerdas (comunistas, socialistas, ecologistas,progressistas) todavia, não se deu. O desempenho eleitoral da Frente deEsquerda surpreendeu, colocando-a em segundo lugar, a cinco pontos de Le Pen. Ogrande derrotado, qualquer que seja o resultado de domingo,  é Macron. Esta é a única unanimidade entre osanalistas e Marine Le Pen, anunciada candidata à sua sucessão, insinua aconveniência da renúncia do presidente em face de eventual derrota acachapante.Inábil jogador de xadrez, embaralhou as pedras com a dissolução da Assembleia ea consequente convocação das eleições, na frustrada expectativa de repetir olance usual nas táticas da direita: apresentar-se como a alternativa salvadoraentre a ameaça dos extremos. No momento em que escrevo, o professor MarcoAntônio Rodrigues Dias lembra a inutilidade de qualquer tentativa de antevisãodo segundo turno, por absoluta ausência de segurança empírica. Valem tantoquanto a quiromancia. Ademais, por que tanta aflição se estamos já a um passo dopleito? Tratemos, pois, daquilo que, segundo nosso ponto de vista, parece hojedefinido.

Deve ser tido como favas contadas o avanço daextrema-direita, e, seja nosso consolo, a sobrevivência da esquerda, destafeita se superando numa política de frente que interrompe o divisionismo demuitas eras, vencido no Brasil em 2022. Melhorou seu desempenho em face dasúltimas eleições. O medo, como se vê, pode ser bom conselheiro. Descartada avitória do En Marche, a única alternativa será a coabitação – repetindo asexperiências do socialista François Mitterrand (1986-1988) com a centro-direitade Jacques Chirac, e Chirac-Jospin (1997-2002) – trazendo à tona a quasecerteza da instabilidade política que, partindo da França (que com a Alemanhaconstitui seu centro econômico-político hegemônico) pode atingir a ComunidadeEuropeia e mesmo a OTAN.

É preciso, porém, pôr de manifesto o distanciamento políticodaquelas passadas coabitações, compreendendo esquerda e centro-direita, com aexpectativa do lamentável encontro da direita de Macron com a extrema direitaprotofascista. A querida Rosa Freire d’Aguiar lembra que a França da Liberté,Égalité, Fraternité é a mesma que a menos de oitenta anos foi governada por umprimeiro-ministro fascista, Pierre Laval, isso na “República de Vichy” chefiadapelo Marechal Philippe Pétain, a serviço do exército alemão invasor. Ahumilhante derrota para a Alemanha é muitas vezes invocada para explicar aindigência moral. Mas o que dizer de hoje, quando boa parte dos franceses podeestar elegendo um novo Vichy? 

Tímida aragem chega da Grã-Bretanha, com a confirmação daderrocada do Partido Conservador, após 14 anos de mando e desmandos. Mas oPartido Trabalhista que controlará a Câmara dos Comuns e nomeará oprimeiro-ministro não guarda raízes com o Labour Party de Jaremy Corbyn. Apolítica externa permanecerá intocável, e o novo governo se limitará aenfrentar as consequências da desastrada saída da Comunidade Europeia. Oex-império está tão doente quanto a família real, e permanecerá como provínciade sua ex-colônia.

Nosso continente vive seus abalos. O Brasil, graças aocarisma e ao sacrifício de Lula, conteve a continuidade da extrema-direita.Teve, porém, o PT, na campanha e no governo, de aliar-se a setoresconservadores, e, minoritário, enfrenta a oposição ativa do mais reacionárioCongresso de quantos conheceu a República. E, pela primeira vez, assistimos, empaís flagrantemente dividido, uma extrema-direita organizada e mobilizada,enraizada em grandes setores populares, alimentada por setores da ordem econômica,apoio que se reflete na oposição que os grandes meios de comunicação movemcontra o governo de centro-esquerda.

O Paraguai segue na estabilidade dos governos de direita. OPartido Colorado  permanece no poderpraticamente desde 1887. São desanimadoras as perspectivas do Peru e doEquador. Na Bolívia, vítima de guerra híbrida, o governo conseguiu conter maisuma tentativa de golpe militar. Mas a guerrilha inexplicada entre Evo Morales eLuís Arce poderá afastar a esquerda nas próximas eleições, além de constituirum desserviço para a educação política das massas. Há, contudo, o quecomemorar, como as indicações de que a Frente Ampla de José Mujica pode voltarao poder no Uruguai. O grande feito, de qualquer modo, é a eleição de ClaudiaSheinbaum no México, com 60% dos votos e conquistando dois terços o Congresso.

Que esse panorama ajude a esquerda e as forças populares deum modo geral a compreenderem o desafio político-ideológico das nossas eleiçõesmunicipais deste ano.

 

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Os tropeços da pequena política- Em evento recente no Rio deJaneiro, a inauguração de um conjunto habitacional, o presidente Lula saudouEduardo Paes como “o melhor prefeito que esse país já teve”. Uma inverdade euma injustiça. Para citar poucos, Lula menosprezou as administraçõespaulistanas de seus correligionários Luiza Erundina (então no PT), MartaSuplicy e Fernando Haddad, com quem, aliás, estivera minutos antes.

Silêncio tonitruante – A louvável coragem exibida por Lulana defesa de Julian Assange, jornalista duramente perseguido pelo estado que sedizia paladino da liberdade de imprensa, bem como na denúncia do genocídiopalestino (a que a “comunidade internacional” assiste perplexa e imóvel), édigna de aplauso e nos enche de orgulho. Em face dela, machuca os ouvidos osilêncio do nosso governo sobre o episódio da detenção e deportação - sumária -do professor palestino Muslim Abuumar e sua família, inclusive a esposa grávidade sete meses. Abuumar, os apoiadores de Lula e a sociedade como um todomerecem uma explicação.

Por: Roberto Amaral.

* Com a colaboração de Pedro Amaral.

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