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Em um país onde os homens assediam, estupram e matam, o machismo também condena as vítimas

Em um país onde os homens assediam, estupram e matam, o machismo também condena as vítimas

19/07/2024 12h31 Atualizada há 2 anos atrás
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Em um país onde os homens assediam, estupram e matam, o machismo também condena as vítimas

A cada seis minutos uma mulher ou menina é estuprada nopaís. Na grande maioria dos casos – 76% –, são estupros de vulneráveis, em queas vítimas são menores de 14 anos ou incapazes de consentir por deficiência oudoença. Os dados são do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2024, divulgadoontem (18/7), que registrou também 1.467 mulheres vítimas de feminicídio em2023 (75% cometidos por companheiros ou ex-companheiros).

Nem a ordem do ministro Alexandre de Moraes, que no dia 19de junho deu prazo de 48 horas para que os hospitais paulistas provassem queestão cumprindo a lei e realizando o procedimento, surtiu efeito. A intimaçãose deveu ao fechamento do serviço de aborto legal pela prefeitura de São Paulo– sob falsos pretextos, como revelou a Agência Pública – do Hospital NovaCachoeirinha, a unidade com o maior número desses atendimentos no país.

No dia 21 de junho, depois, portanto, da ordem de Moraes,uma mulher vítima de estupro procurou, sem sucesso, o serviço de aborto legalno Hospital Campo Limpo, que é um dos quatro hospitais municipais querealizariam o procedimento, segundo a prefeitura informou ao STF. O direito aoaborto legal ainda seria negado três vezes (em dois hospitais municipais e umestadual) até a vítima ser encaminhada ao Hospital São Paulo (que é federal),onde finalmente foi atendida no dia 30 de junho.

“ O STF, porém, tão criticado por exagerar em outrasmedidas, até agora não tomou nenhuma atitude em relação a essa contumazviolação de direitos – e de suas próprias ordens.

Há falhas ainda maiores no Judiciário, que deveria nãoapenas punir, mas prevenir a violência sexual, principalmente em relação àscrianças. Um dos muitos casos, esse recente, veio à tona na quarta-feirapassada (17), quando o desembargador Luís César de Paula Espíndola, do Tribunalde Justiça do Paraná, foi suspenso do cargo pela Corregedoria Nacional deJustiça.

Em audiência, no dia 3 de julho, que analisava o assédio deum professor a uma menina de 12 anos, o desembargador Espíndola votou contra opedido de medida protetiva feito pela vítima, disse que não iria “estragar avida do professor” e afirmou: “Quem está assediando, quem está correndo atrásdos homens, são as mulheres, essa é a realidade, as mulheres estão loucas atrásdos homens”. O desembargador foi condenado no ano passado por violênciadoméstica contra a irmã e a mãe.

A punição claramente insuficiente ao desembargador misógino– um afastamento temporário sem prejuízo para seus polpudos rendimentos –revela a que ponto chega a naturalização do machismo e o privilégio dos juízes,especialmente nas instâncias superiores.

Como disse a jurista Eloísa Machado, professora da FundaçãoGetulio Vargas ao podcast Café da Manhã, “se é verdadeira a afirmação de que agente tem racismo estrutural no sistema de justiça, também é verdade quando agente diz que tem um tipo de machismo estrutural entranhado no PoderJudiciário”. Um machismo que “influencia, sim, a maneira de julgar”, comoexplicitou a jurista.

Aliás, vale lembrar: também são as mulheres e meninas negrasa maioria das vítimas de violência sexual e feminicídio.

“ Se não podemos confiar no Congresso – que deve votar nosegundo semestre o PL do Estupro, que equipara o aborto acima de 22 semanas aohomicídio –, maior risco representa ainda a contaminação do Judiciário peloracismo e machismo – que vai dos tribunais à polícia, esta sempre pronta adesestimular e menosprezar as vítimas de violência sexual e doméstica comoassinala, mais uma vez, o Anuário deste ano.

A igualdade entre as pessoas, independentemente de gênero,cor da pele ou orientação sexual, é garantida pela Constituição como direitofundamental. Os “guardiões da democracia” parecem não lhe dedicar a devidaatenção.

Marina Amaral.

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