Nenhum grande impasse seapresenta em sua feição completa no início das hostilidades. Semelham um quebra cabeça, que se vai montando peçapor peça, até sua configuração plena. A invasão da Sérvia pelo Império Austro-Húngaro, em julho de 1914, é consignada como o atoinaugural do primeiro grande conflito do século. Mas o cenário daquela alturahavia sido antecipado, para quem quis vê-la, por uma significativa política de acordos militares, como a TrípliceAliança (Áustria-Hungria, Alemanha e Itália) e a Tríplice Entente (França,Rússia e Reino Unido), que começam a tomar corpo nos finais do século XIX, paraadquirir sua compleição final em 1907. Não se pode falar em surpresas. Nessetempo, as forças de direita (então como agora) estimulam o nacionalismo --gênerode que a xenofobia é sua doença maisperniciosa --, enquanto exacerba-se a disputa por colônias e cresce a rapina de recursos naturais e adisputa de mercados em todo o mundo (uma inevitabilidade do desenvolvimentocapitalista), alimentando o militarismo, a alma mãe das guerras, no qual sesustenta.
De igual modo, a segunda guerra mundial não seapresentou como um raio em céu azul, emuito se afirma como resposta incontornável às condições leoninas que osvencedores decretaram contra os vencidosquando da assinatura incondicional do Tratado de Versalles: a imposição àAlemanha de impagáveis indenizações financeiras, confisco de parte do território e limitações ao seu aparatomilitar. Às represálias dos vencedores, soma-se, com peso incomparável, a crisede 1930. Mas a hecatombe social alemã remonta a pelo menos 1923, quando se abraçam hiperinflação, desemprego massivo erecessão. Por sinal, registra-se em novembro desse ano a primeira tentativa detomada do poder, por Hitler e peloPartido Nazista: o frustrado “putsch da Cervejaria” de Munique,como seria registrado pela história. O objeto da fúria era a Republica deWeimar, espremida entre o fim da primeira guerra e a abdicação de GuilhermeII, e a ascensão de Hitler. O interlúdiodemocrático, desgraçadamente, colecionaria um rol de frustrações palmilhando assendas que serão percorridas peloprojeto totalitário, que em poucos anos manchará o mapa europeu e se espalharápelo mundo.
A ascensão dos regimestotalitários foi, naquela altura, como parece ser ainda agora, ignorada em suasconsequências, embora os sinais de mau tempo fossem assinalados sem parcimônia,um após o outro. A história nos lembra aItália fascista invadindo e anexando aEtiópia em 1935, quando, do outro lado do mundo, o Japão, em 1931, dera asas aoexpansionismo territorial (a pedra de toque do militarismo alemão) com ainvasão da Mandchuria, peça preparatória da invasão da China em 1937. Da mesmaforma, o acirramento racista contra emigrantes, em toda a Europa, e maisprecisamente, hoje, nos EUA (atingindo igualmente afrodescendentes e latinos) ena Europa de um modo geral eparticularmente na França e naInglaterra. Nada de novo. Na Alemanha,as perseguições aos judeus, comunistas e ciganos e aos intelectuaisprogressistas, antecedem e preparam atomada do poder: as organizações paramilitares do Partido Nazista, como os Camisas Pardas, datam de 1920.
A historiografia, em suaunanimidade, guarda a invasão da Polônia (1939) pela Alemanha como o ponto departida da II Guerra Mundial. Para isso passa batida pela remilitarização daRenânia em 1936 e a anexação da Áustria em 1938. E, sobretudo, ignora a essênciado nazifascismo, e os desdobramentos das reclamações por “espaço vital”.
Todo grande conflito seanuncia mediante tensões políticas que se desenvolvem em um crescendo comoondas que propagam segundo os ventos soprados pelas estratégias geopolíticas.Ademais, esses conflitos revelam uma tessitura lógica que vejo na antessala dasduas guerras, como igualmente o identifico na crônica dos dias presentes. Varia o modus faciendi, mas o significado e odesdobramento das tensões se repetem, como se repete nossa desatenção.
Vencida a segunda grandeguerra, dividido o mundo nos termos da Conferência de Ialta (1945), seguiu-se a“guerra fria”, assim nomeado o conflito político, militar e ideológico entre oOcidente, liderado pelos EUA, e a URSS,cabeça do que se identificara como “leste europeu”. Os dois polos se guerreiam medianteconfrontos levados a cabo por procuradores. Trata-se de história conhecida,como capítulo de uma novela sediça. AURSS se espalha no mundo, principalmente emprestando força política e militaràs guerras de libertação nacional que tomam conta principalmente da África e daÁsia. As grandes potências ordenariam a política de confrontos fora de seusterritórios. Nessa quadra, quase tudo épermitido, contanto que seja evitado oembate direto. E assim chegámos a uma lista de centenas de conflitos,insurgências, invasões, revoluções civis, lutas de liberação nacional e golpesde Estado que percorre o planeta e não poupa a América Latina. O Brasil jamaisse esquecerá do 1º. de abril de 1964, e do papel nele exercido pelos EUA.
O quadro de nossos dias não édiverso, se considerarmos que no posto antes ocupado pela URSS se encontra aChina.
A transição da guerra pormeios tradicionais para eventual duelo nuclear, assustava a todos, com ahipótese do apocalipse. Esse é o quadroaté o suicídio da URSS e o fim do que se chamava “socialismo real”. Cessa a“guerra fria” e se instala a hegemonia política e militar dos EUA. O fim dounilateralismo, porém, dar-se-ia, já nos tempos presentes, com a ascensão daEurásia, liderada pela China, com seu espantoso desenvolvimento econômico,tecnológico e, consequentemente, industrial e militar. As contingênciasgeopolíticas fazem da Rússia capitalista, em guerra sem fim previsível, uma aliada de primeira linha, levando consigo o maior arsenal de ogivas nuclearesdo mundo. O unilateralismo cede aomultilateralismo (ao lado da China emergem novos atores, caso que é o daÍndia), e uma vez mais se coloca para o mundo, como se colocara lá atrás naprimeira linha das duas guerras mundiais, uma nova disputa de boco pelahegemonia. Voltamos a conviver com tensões, desta feita ainda mais graves doque as anunciadoras dos dois conflitos mundiais do século passado. Osconfrontos, diretos ou operados porprocuração, se instalam em todos oscontinentes, e a crise do capitalismo financeiro monopolista (um indicador sãoos atuais temores de recessão nos EUA, a longa recessão japonesa e o crash dabolsa de Tóquio) deve reacender-se em tempos próximos, convivendo com uma erade guerras jamais conhecida no passado recente, guerras só aparentementelocalizadas, pois, ao fim e ao cabo, cruzam interesses que dizem respeito às potências em duelo. Não é possívelignorar o cenário de guerra, nem a linguagem belicista da OTAN e da ComunidadeEuropeia. Depois da África, do Oriente e da Ásia, com sparrings escolhidos eque servem para manter os marines em forma, a guerra chega à Europa, com ainvasão levada a cabo pela Rússia contra o território da Ucrânia (por seu turno defendida com armas daOTHAN e recursos financeiros e equipamentos dos EUA e da comunidade europeia) epromete incendiar o Oriente Médio. Mais do que pura loucura, há muito deconsciência política e estratégia no genocídio dos palestinos pelo Estado sionista de Israel e suasprovocações ao Irã e seus bombardeios no Líbano. Trata-se de esforço por alastrar o cenário da guerra,que, por outras formas, encetam os EUA e a Comunidade Europeia.
Associada às formas clássicasda guerra, sempre vigentes, ingressamos, o mundo como vítima, em uma novamodalidade de combate, insidioso, definido como Guerra híbrida, que o professorManuel Domingos Neto define como “oconfronto em que um vasto leque de operações não necessariamente letais ganhamprecedência sobre os procedimentos militares convencionais”. Essas operaçõescompreendem, entre outras medidas, embargos comerciais etecnológicos, e a inafastável batalhapolítico-ideológica. Entram em cena,como expedientes de guerra, ataquescibernéticos, ações dirigidas de hackers, desinformação, guerra econômica, etc.No governo de Barack Obama o telefone da presidente Dilma Roussefffoi grampeado, e invadidos por espiões cibernéticos os computadores daPetrobrás. E não estávamos e não estamos em guerra com o império.
Como a guerra é anunciada por sinais aparentemente isoladosentre si, a boa cautela nos aconselha tentar decifrar a esfinge.
Por: Roberto Amaral
* Com a colaboração de PedroAmaral.
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