Rondando o mundo como um projeto e uma ameaça, o espectro dehoje é o avanço do pensamento e da ação protofascistas, que já avançam emperigoso número de grandes potências. Exemplo paradigmático vem dos EUA,caminhando com botas de sete léguas para o que pode ser o governo prometido pelo candidato do Partido Republicano. Comonenhuma desgraça é solteira, a guerra, estimulada pela incontornável disputa dehegemonia (Ocidente-Eurásia) -- já deuseus primeiros e firmes passos. Doutro modo não pode ser visto nem o conflitoRússia x OTAN (essa a composição de fato), nem muito menos o genocídio do povopalestino levado a cabo por Israel, graças ao apoio militar e financeiro dosEUA e seus aliados, notadamente, a comunidade europeia.
O avanço da direita traz consigo, como irmão siamês, orecesso da esquerda, tanto do ponto de vista do controle de poder político,quanto na formulação doutrinária: o recuo se revela no pensamento e na ação, oque se reflete na crise existencial dos partidos comprometidos com osinteresses da classe trabalhadora, como os partidos trabalhistas, socialistas ecomunistas. Grandes e poderosos partidos, como PCF, o PCI, os PS francês e italiano, são condenados à irrelevância,enquanto outros transitam para socialdemocraciacomo o Partido Trabalhista inglês. O Partido da socialdemocracia alemã (SPD) seconfunde com a União Democrática Cristã (CDU, de Konrad Adenauer e AngelaMerkel. (Registre-se, uma reação: no contrapelo da vitória fascista na Itália,as esquerdas francesas, reunidas em uma frente, contribuíram decisivamente paradeter a ameaça totalitária nas últimas eleições). O declínio da esquerda, como poder eexpectativa de poder, como projeto revolucionário, como movimento de ideias eorganização popular, se permite inumeráveis especulações, tem um marcohistórico: o suicídio da URSS em 1991, com todos os seus ingredientes conhecidos, como o fim do “socialismoreal” das repúblicas do Leste Europeu, e, na sua cauda a ascensão dos EUA como potência hegemônica.
Há uma relação estreita entre o avanço progressivo dasformações de direita e a crise dos partidos que integram o campo das esquerdas,uma referência ideológica que compreende um leque de variações determinadas porfatores históricos e culturais, condicionadas pelas circunstâncias de luta e mesmo pelo caráter do adversário. Emqualquer xadrez, porém, o outro lado do avanço da direita, ou, dito em outraordem, a outra margem do recuo da esquerda, é o recesso democrático com oeclipse daqueles regimes que, mesmo sob controle dos aparelhos do Estado declasses, possibilitam a organização popular. O rompimento da ordem democráticaé, sempre, a resposta das forças conservadoras e de direita -- semprevinculadas ao grande capital e aos interesses estratégicos da hegemoniaestadunidense – em todas as oportunidades nas quais o processo social sugere oavanço político ou político-eleitoral da forças progressistas e de esquerda. AAmérica Latina, ao lado de outros teatros, registra um sem-número de golpes deEstado. Duas dolorosas lembranças: o golpe de 1º. de abril de 1964, quederrubou o governo democrático-progressista de João Goulart, e o golpe militarque em 1973, operado pelos militares mas dirigido pelos EUA, pôs por terra aexperiência de socialismo democrático de Salvador Allende.
Os tempos presentes ainda assustam, embora não sejam novosem nossa história os assaltos da reação à democracia, nem estejam distantes denosso dia-a-dia. Recuperada formalmente a democracia, com a Constituinte de 1988, o regime decaídosobreviveria na ordem que o havia derrocado: sobreviveria e sobrevive ainda hoje a preeminência militar, e é crescente o predomínio, sobre os negócios doEstado, dos interesses do capitalfinanceiro. A Faria Lima é reconhecida como um dos “poderes” da República, comoa caserna e os barões da economiaprimário-exportadora.
É nesse contexto que, dos desvãos do “baixo clero” e dos porões da ditadura,emerge o bolsonarismo, uma força de direita apoiada nas grandes massas esetores destacados das forças armadas do Estado brasileiro.
Mesmo setores ponderáveis do pensamento progressista,desprovidos porém daqueles recursos metodológicos que ajudam a compreender a natureza dosfenômenos históricos, não conseguem encontrar o caminho de saída
do impasse.
“O que fazer” permanece como perigosa esfinge.
O Brasil se insere na rota geral da crise dos partidos deesquerda e das organizações que em tempos passados se distinguiam comorevolucionárias, no simples sentido de propugnarem pela revogação do Estado declasse. Aqui uma nova conjunção: muitos dos partidos do campo da esquerda,cristãos novos do legalismo e do eleitoralismo, conquistados pela miragem dopoder imediato, renunciaram à batalhaideológica, esqueceram o esforço da organização popular, desestimularam aformação de quadros e militantes. Os sindicalistasabandonaram chão de fábrica. Do nossodicionário foram deletadas expressões como luta-de-classe. Não se fala mais emsocialismo. Sem pretender alterá-lo, optamos por bem cuidar um aparelho de Estado estruturado para garantir acontinuidade do sistema. Renunciando à nossa própria imagem, terminamos porassumir as feições do adversário. As ruas vazias, os sindicatos esvaziados(aqui erros crassos de condução agravados pela crise do trabalho), a academia em silêncio, as chamadas entidades de classe consumidas naadministração de sua domesticidade, as militâncias partidárias desmobilizadas,os bairros proletários abandonados, eis como o território da política foi cedido à ação das milícias, do tráfico eda repressão. O silêncio da esquerda aumenta o espaço e a intensidade da pregação dos aparelhos ideológicos daclasse dominante. A religião é utilizada como eficaz instrumento detranquilização das massas. O homem deixa de ser agente histórico, e suaresponsabilidade é transferida para Deus, pois foi ele que lhe deu o emprego, acasa, o carro, foi ele e não a assistência médica que o salvou da doença. O homem deixa de serresponsável por si e pelo mundo, pelo que faz e deixa de fazer: o ser émarioneta dos desígnios divinos. A dor,a miséria, os males que o assolam, tudo o que de indesejável e ruim que se abate sobre o ser humano (sempre emdívida porque é um pecador), tudo o quepenaliza o mundo, como as tragédias, é obra do diabo. A arma do bom cristão,cujo dever é oferecer a outra face à ofensa, não pode ser a revolta. Cumpre-lhe resignar-se diante dos desígnios deDeus e preparar-se para a salvação. Orando e doando parte de seu salário para apoupança do pastor.
Ao fim e ao cabo,nossos teóricos e nossos práticos não encontram explicações para o avanço dopensamento e da ação da extrema-direita, que conquista os corações e as mentesdos desvalidos, dos excluídos, dos explorados pelo capital, dos desassistidospelo Estado de classe, ou seja, conquistam a alma de suas vítimas.
Dir-se-á que a crise não é especificidade nossa, posto quemuito do afirmado pode ser referido ao panorama internacional, no que dizrespeito ao avanço da extrema-direita protofascista. A crise na matriz, pois aextrema direita caminha com botas de sete léguas nos EUA, se reproduz na periferia, graças ao denodadoesforço de nossa classe dominante.
O mundo contemporâneo lembra (atenção: lembra, mas nãorepete) os tensos anos 30 do século passado, com um diferencial: enquanto hoje, entre nós, a apatia -- doutrinária, organizacional e política – domina aesquerda orgânica – na Europa de então a resposta à bota fascista foi a intensificação da luta de classes, e, com ela, orevigoramento da batalha ideológica. A expectativa de construção de uma nova sociedade estava na raiz da resistência política earmada a Mussolini e Hitler. O enfrentamento fortaleceu os fundamentos teóricos e doutrinarios da esquerda, aascensão dos partidos ligados aos interesses da classe operária. A organizaçãopopular seria uma consequência, sobrevivendo às violentas formas de repressão.
Em Pele negra, máscaras brancas (1952), Franz Fanon observaa internalização, pelo colonizado, da ideologia do colonizador. Esse fenômeno,porém, se observa igualmenteno plano dasinstituições. Refiro-me especificamentea partidos de esquerda, que, ingressando na institucionalidade, ao invés de intentar alterá-la, terminarampor absorver seu caráter, de que resultou um mundo de desvios ideológicos que,como sempre, transitaram da teoria para a prática. Um desses efeitos é acontaminação, do pensamento originalmente de esquerda, com formulações liberais, a incorporação,como suas, de teses e conceitos construídos exatamente para preservar a ordemque os socialistas pretendem demolir. Assim a esquerda, que já se fizerareformista, é condenada a transformar-se em esquerda sem política.
***
Placar hediondo - A história desconhece uma só guerra (seassim podemos batizar o ataque de uma só força) em que 80% do país tenha sido destruído, 100% da populaçãodeslocada e que 50% das mortes sejam crianças. Netanyahu e Biden alcançaram ohediondo placar de 40 mil mortos. Como Truman, Reagan, Nixon, o Bush filho,Madeleine Albright, Kissinger e outroscriminosos de guerra, certamente morrerãoimpunes.
Ainda a consagração post-mortem do ministro da ditadura - Écompreensível que o presidente Lula lamente a morte de um interlocutor assíduo,com quem chegou a estabelecer laços deamizade; é admissível seu reconhecimentonesse interlocutor - representante de vida inteira dos interesses dasoligarquias brasileiras - um economista acima da média. Porém, equipararAntônio Delfim Netto a Maria da Conceição Tavares, -- nossa última grande epenosa perda--, extrapola qualquer limite de bom senso. Além de constituir ofensa descabida, trata-se de desserviço, do ponto de vista pedagógico, que uma liderança como Lulanão pode se permitir. Comparar Delfim -- prócer de um “milagre” consabidamentefalso e pernicioso para os interesses nacionais, defensor do homicida AI-5, que assinou -- a umalutadora como Conceição, é um desrespeito a quantos sofreram com oarbítrio. Como o próprio Lula.
Por: Roberto Amaral.
* Com a colaboração de Pedro Amaral.
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