“De fato. O “sistema” – as instituições que trabalham parasalvaguardar as regras eleitorais e a democracia – não sabe o que fazer comPablo Marçal. E isso só demonstra que não aprendemos nada nos últimos anos.
Vejamos. Pablo Marçal é um vigarista, daqueles de longaficha corrida. Foi condenado em 2010 por participar de uma quadrilha quedesviou dinheiro de bancos como a Caixa e o Banco do Brasil, ajudando a ganguea obter emails de clientes, que então recebiam emails acusando-os deinadimplência e tinham seus dados roubados, assim como o dinheiro. Em 2022,liderou uma expedição “motivacional” a uma área montanhosa de São Paulo queteve que ser resgatada pelos bombeiros. Seu sócio nos cursos, Renato Cariani, éinvestigado por tráfico de drogas e lavagem de dinheiro; uma de suas empresasteria emitido notas fraudulentas para desviar produtos químicos para o refinode cocaína e de crack. E, como deixou claro a Tabata Amaral no seu último vídeode campanha, há indícios preocupantes de proximidade do coach com o PCC. Nãoseria nenhuma surpresa que todo o esquema montado para essas eleições fosse umagrande máquina de lavar dinheiro.
Erra quem acha que Pablo está “roubando o bolsonarismo deBolsonaro”, ou que estamos vivendo mais um repeat da estratégia eleitoral daextrema direita. Pablo Marçal é um passo além na manipulação do debate públicopara ganho próprio. Ele coroa a era do faroeste digital, que tem seu maiorexpoente no dono do Twitter, Elon Musk. Pablo não adota a estratégia digitalpara projetar uma mensagem ou ideia, ele é o produto. Sua campanha é tão ocaquanto o sonho de milhões de adolescentes que querem virar influenciadoresquando crescerem. Fala-se dele porque fala-se dele.
E por ser uma pessoa tão vigarista, ele está unicamenteposicionado para abraçar essa nova era do faroeste. Usando o jargão de outrogrande vigarista de estimação dos brasileiros, recentemente falecido, Pablo“topa tudo por dinheiro”, e não tem vergonha de assumir.
“Sua base de apoio online é formada por milhares de jovens eadolescentes de classe baixa que estão em busca de dinheiro fácil diante de umarealidade que é cada vez mais brutal, onde o mercado de trabalho estáderretendo e onde virar entregador de moto é a mais provável promessa.
Funciona assim a fábrica “sweatshops” de Pablo Marçal. Praquem não sabe, ele adotou a estratégia de crescimento digital de Andrew Tate,um americano que ganhou fama na “manosfera” masculinista e hoje está preso naRomênia depois de ser investigado por estupro e tráfico de mulheres.
Funciona assim a estratégia: Misturando gamificação compromessa de dinheiro fácil, Pablo alicia jovens e adolescentes para criaremcontas “do zero” que funcionam apenas para promover a sua marca (o seu nome).Através de um aplicativo, recebem vídeos do “criador” que depois eles têm quecortar, postar online, sempre marcando os perfis do coach. Com 112 mil membros,o Discord do Marçal funciona como funcionavam os grupos de Whatsapp e Telegrampro Bolsonarismo: ali os usuários são orientados a postarem diversos vídeos noInstagram, Youtube e TikTok. Os vídeos mais assistidos recebem uma compensaçãofinanceira, e o próprio Pablo garante que os “garotos” ganham até mil reais pormês.
“O que que é fazer corte? É assistir um pedaço de um vídeo,pegar uma mensagem, o corte pode ter quinze segundos, trinta, quarenta e cinco;quem tiver mais visualizações eu pago em dinheiro. Então toda semana tem amedição disso. Então tem garotos que tão ganhando quatrocentos, seiscentos, milreais fazendo isso”, explicou.
Foi com essa estratégia que, investindo cerca de 7 milhõesde reais para sua massa de trabalhadores precarizados (muitos menores deidade), Pablo conseguiu o recorde de uma campanha digital no Brasil, arrecadou100 milhões de reais vendendo cursos em 9 semanas. Seus “produtos” são tãovazios como ele mesmo: Pablo vende cursos sobre como ganhar dinheiro, como serum vencedor, como manter-se focado. É assim a roda: Pablo vende porque Pablovende. E faz o que vende.
Para melhor viralizar, ele próprio assumiu que mudou suapostura nas redes. “Tem 4 mil pessoas que estão em um campeonato de corte, e eupago um dinheiro até relevante para esse pessoal por visualizações. Comecei apagar as primeiras competições, só que só tinha vídeo bonzinho, cara.Bonitinho, não viraliza. Eu estava aparecendo em tudo, só que com poucocomentário e pouca curtida. As visualizações polêmicas são muito maiores. Temvídeo com 40 mil comentários, 40 milhões de visualizações. Aí eu chamei meu timee falei, cara é isso aqui que eu tenho que pagar”, explicou em uma entrevista.“Às vezes eu nem queria falar aquele tema, mas eu falo, vou falar só pro cortepegar”, disse em outra ocasião.
Agora, na eleição, a fórmula se repete, com um exército demais de 100 mil “garotos” acionados pelo Discord fazendo cortes dos vídeos dePablo com a hashtag #prefeitomarcal e sonhando em ganhar alguns trocados. Nessesentido, os seguidores de Pablo são menos ideológicos e fiéis que osbolsonaristas: eles querem, no fundo, apenas participar da abundânciafinanceira que o líder projeta. Pablo capitaliza, assim, um sentimento que émuito cooptado pelas igrejas evangélicas – aliás, coalhadas de vigaristas, comosabemos – e expressa pela teologia da prosperidade.
“A pirâmide de Pablo, entretanto, vale-se de algo que eucansei de repetir aqui e que é uma tremenda sacada, o fato de que as redessociais são sócias da desinformação e, neste caso, de vigaristas como ele.
Uma de suas “cortadoras”, responsável pelo perfil BillionMarçal, explicou como outros “cooptados” poderiam passar a ganhar dinheiro nãosó com os concursos de cortes, mas também das próprias plataformas. “São maisde vinte estratégias para você fazer dinheiro com os vídeos do Pablo Marçal,tem como você fazer dinheiro no Youtube, no Tik Tok, que são plataformas quepagam em dólar pela quantidade de visualização, que tem os seus vídeos, e comovocê vai aprender a viralizar um vídeo fica mais rápido dessas plataformascomeçarem a te pagar”, escreveu. Terminando com um mantraquase-religioso-mindful-pósfuturista:
“Pablo Marçal todos os dias nos ensina a prosperar”,#prosperidade, #Riqueza, #Mind, #Pablo Marçal.
Tudo isso funciona totalmente fora das regras da propagandaeleitoral, claro, e com fortes indícios de abuso de poder econômico nos termosda lei eleitoral, conforme apontou a petição da candidata Tábata Amaral ao TRE.E, por isso mesmo, fez muito bem o juiz Antonio Maria Patino Zorz ao suspenderas contas de Marçal, mesmo que isso o torne mais popular ainda: afinal, o papelda Justiça eleitoral é fazer cumprir a lei.
Para Pablo, sabemos, é tudo lucro. Com a decisão, sua marcasó cresceu, e as menções positivas superaram, agora, as negativas. Ganhe ouperca no voto, Pablo sai ganhando, porque cresce a sua marca, e depois seráainda mais fácil fazer “remarketing” e vender seus cursos sobre como vencer navida, como bem resumiu o marketeiro digital Icaro de Carvalho na sua conta noInstagram: “ele entendeu que a cada dois anos ele tem dinheiro grátis esperandopor ele a cada eleição”.
A encruzilhada, no final, fica mais para as campanhas deBoulos e Nunes, que acabam ficando reféns do novo fenômeno político, queconsegue, com sua estratégia, pautar diariamente o debate público, empobrecê-loa seu favor.
Já para Jair Bolsonaro, não acredito que Marçal consigaromper de vez com o padrinho e “roubar” o bolsonarismo dele: existe, afinal,algo autenticamente brasileiro nobolsonarismo. Na campanha de Marçal, não. Nem acredito tanto, inclusive, na suaprofessa fé cristã. Se estivéssemos em um momento histórico em que fossepopular ser comunista, garanto, ali estaria Pablo Marçal com bonezinho de CheGuevara.
O marketing oco de Marçal pode até chegar longe em umaeleição – quiçá ganhá-la – mas não constrói uma carreira política. E, sendo umafigura com um passado tão maculado, não será muito difícil que se encontre umelo frágil pra que o assunto vire caso de polícia. Em especial, este elo podeestar na origem do dinheiro que Pablo já investiu nesta eleição para pagar seuexército de trabalho infantil.
O maior problema, na verdade, é que o risco Pablo Marçal jáaconteceu: ficou claro que, no nosso sistema político, um aproveitador comconhecimento de marketing digital e nenhum escrúpulo consegue alugar uma siglapolítica e se tornar um fenômeno de votos, do dia para a noite. E que hápolíticos, partidos e pessoas afim de se aliarem a ele e ganhar unzinho emcima. Temo que veremos, assim, uma pablomarçalização do nosso jogo eleitoraldaqui pra frente
Por: Natalia Viana - Diretora Executiva da Agência Pública.
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