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O PCC, os usineiros e as eleições em São Paulo

O PCC, os usineiros e as eleições em São Paulo

10/09/2024 08h11 Atualizada há 2 anos atrás
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O PCC, os usineiros e as eleições em São Paulo

O fogo continua a trazer danos ao interior paulista, emboraem proporções muito menores do que no fim de semana de 22 a 24 de agosto,quando o número de focos de incêndio em três dias superou o total anual dequeimadas de 2009, 2013, 2015, 2022 e 2023. Naquele período foram registrados2621 focos de calor - 1.886 apenas no dia 23 de agosto. Para se ter uma ideia,embora o registro de focos de calor tenha triplicado de segunda-feira paraquinta-feira passada (5), ontem havia 16 focos de calor.

Houve gente que viu ali a mão de bolsonaristas - inflamadospela disputa com o ministro do STF, Alexandre Moraes, que deve tomar conta dasmanifestações deste 7 de setembro em São Paulo, convocadas pelo próprioex-presidente Jair Bolsonaro. Também houve quem apontasse sem provas para o MST- que, aliás, teve um de seus acampamentos invadidos com violência pela PolíciaMilitar na segunda-feira passada (2) em Valinhos (SP) enquanto os sem terraajudavam os bombeiros a apagar um incêndio.

Um tratamento bem diferente do recebido pelos produtores decana que viram o governo criar um posto avançado em Ribeirão Preto e aviõesapagando os incêndios no coração do agronegócio paulista. De acordo com aOrplana, que reúne 35 associações de produtores de cana, foram constatados 2,1mil focos de calor naquele fim de semana, além da queima de 100 mil hectares docanavial. 

Vendo-se como alvo principal dos incêndios, empresários dosetor criaram sua própria hipótese: a de que o PCC teria colocado fogo noscanaviais em retaliação a denúncias feitas contra integrantes da facção porprodutores de etanol. Comentei essa possibilidade com mais detalhes no terceiroepisódio do videocast “Bom dia, fim do mundo!”, da Agência Pública (que entrouno ar dia 5 no nosso YouTube e nos tocadores de podcast).

Ainda que não seja verdadeira, a hipótese dos empresários doetanol revela mais um setor atingido pela “diversificação de negócios” do PCC,que estaria com 1 bilhão de dólares (80% do lucro amealhado no tráficointernacional de drogas) para lavar e multiplicar em diversos ramos da economiabrasileira, sobretudo a de São Paulo, sua terra natal.

De acordo com o próprio governador Tarcísio de Freitas, emdeclaração feita em maio, “o PCC tem mais de mil postos de gasolina no estado eagora está comprando usinas no interior paulista”. Uma acusação que foirepetida em junho por Rubens Ometto, presidente do Conselho de Administração daRaízen, uma joint-venture da Shell com a Cosan, a maior produtora de etanol nopaís.

Aliás, não sabemos quem repetiu quem, já que Ometto, o maiordoador da campanha de Tarcísio, é um integrante influente do ICL - InstitutoCombustível Legal, presidido por Emerson Kapaz, que vem movendo uma cruzadacontra fraudes no setor - os criminosos se beneficiam da sonegação fiscal e daadulteração de combustível para ofertar gasolina e etanol a preços menores.Segundo o ICL, as ações criminosas já trouxeram um prejuízo de 30 bilhões parao setor e de 14 bilhões na arrecadação de impostos. Daí o interesse que o PCCteria em adquirir, além dos postos de gasolina, as próprias usinas.

O ICL diz funcionar como “um observatório privado” deilegalidades no setor, repassando informações para a Secretaria de SegurançaPública e para o Ministério Público. Neste ano já houve duas operaçõespoliciais de grande porte no setor de combustíveis, o que justificaria umaeventual retaliação da facção criminosa aos supostos autores das denúncias.

O gatilho para a queima dos canaviais teria sido a cassaçãoda licença operacional da quinta maior distribuidora de combustíveis no país, aCopape, no dia 3 de agosto passado. De acordo o Ministério Público de SãoPaulo, os donos da Copape seriam ligados ao PCC.

Tarcísio já descartou a participação do PCC nos incêndios equalquer ligação entre os 12 homens presos pela polícia civil por atearem fogono interior, mas continua a se reunir com representantes do setorsucroalcooleiro, como fez na terça-feira passada. De acordo com o tenenteMaxwell de Souza, da Defesa Civil, os empresários estão contribuindo combrigadistas, aviões e também com informações e imagens captadas pelos sistemade monitoramento das próprias usinas, os mais precisos, segundo ele, para observarem detalhe os focos de calor.

“ Embora o combate ao crime organizado tenha servido para ogovernador justificar ações truculentas da polícia, como aconteceu no Guarujá,não ficaria nada bem exibir tamanha vulnerabilidade diante de seus apoiadoresdo agronegócio paulista. Por outro lado, o setor dos combustíveis tem interesseem exigir mais fiscalização e repressão policial - e de quebra acusar os “altosimpostos” pela atração da criminalidade para os seus negócios.

Talvez a gente não saiba nunca o que aconteceu além da secae do vento naquele fim de semana incendiário, já que os jornalistas não estãoconseguindo informações sobre as investigações. O certo é que a facção que seoriginou do massacre no Carandiru e se tornou uma holding do crime por umatrajetória de erros na política de segurança pública dos governos tucanos -que, como o atual, foram mais violentos do que inteligentes - está agora cadavez mais infiltrada na economia e na política do estado.

Não apenas por ter amealhado 200 milhões em contratos deprefeituras paulistas, sobretudo na região metropolitana de São Paulo e naprópria capital. Na semana passada ficamos sabendo que a Polícia Civil de Mogidas Cruzes encontrou 20 empresas, entre elas um banco digital, que movimentaram8 bilhões de reais para financiar candidaturas às eleições deste ano em cidadesde São Paulo.

Além disso, na capital paulista, pelo menos dois candidatosà prefeitura sofrem acusações de envolvimento com o PCC. O prefeito RicardoNunes, que assinou contratos com três empresas de ônibus suspeitas de serem docrime organizado; e Pablo Marçal, do PRTB, que não apenas é de um partidoenvolvido com o PCC, mas tem amigos pessoais na mesma situação (sem contar queele mesmo já foi preso por desvio de dinheiro de contas bancárias e condenadopor furto qualificado (só não cumpriu a pena de mais de 4 anos de prisão porquea punição prescreveu).

Ao que tudo indica, Marçal estará no palanque de 7 desetembro ao lado de Jair Bolsonaro, este alvo de seis inquéritos criminais noSTF e de investigações na Polícia Federal e na Receita, além de réu em doisprocessos criminais - sem falar nas 21 ações contra ele no Tribunal SuperiorEleitoral.

O que nos leva a uma pergunta: por que a direita, defensorada violência policial contra os “bandidos”, tem tanta atração por candidatoscom problemas na Justiça? 

Por: Marina Amaral - Diretora Executiva da Agência Pública.

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