Os judeus, como os árabes, mais do que outros povos,conhecem essa danação. No Oriente Médio presente, porém, embora haja judeusperseguidores e árabes perseguidos, não há guerra, eis que não há confronto detropas, não há embate entre guerreiros, senão o puro e simples massacre depopulações civis, indefesas e por definição desarmadas, na sua maioria genteidosa, mulheres e crianças, contra as quais ruge e vomita bombas um exércitoluciferino comandado pelo ódio; um exército todavia moderno, excepcionalmenteequipado, armado até os dentes pelo que há de mais mortífero na tecnologia friada indústria da morte.
A luta entre tropas militares e civis desarmados não éguerra, mas, simplesmente massacre sem sursis, pois sua essência é mistura devindita e covardia. Mais ainda quando os alvos preferidos são centros médicos,escolas e campos de refugiados. Segundo as estatísticas possíveis nascircunstâncias, já morreram mais de 40 mil palestinos desde o primeiro ataqueisraelense a Gaza que foi reduzida à condição de terra-arrasada, um monturo denada. Conta-se em torno de 1,7 milhão o número de desabrigados.
Na retaguarda de Israel, hoje um fora-da-lei, pois nenhumalei ou código, ou tradição de convivência internacional respeita, está o maispoderoso Estado beligerante já conhecido pela humanidade, o mais longevo dosimpérios (militar, econômico, tecnológico e cultural) registrados pela idademoderna: os EUA. Um país, aliás, tanto quanto o Estado israelense, muito afeitoaos massacres de civis e à rapina de terras estrangeiras: os mexicanos no finaldo século XIX perderam para seu vizinho algo como 2,3 milhões de km², ou seja,55% de seu território. O desprezo pela vida humana conhece seu extremo no finalda II Guerra Mundial, quando duas bombas atômicas massacraram as populaçõescivis de Hiroshima e Nagasaki, no Japão.
Na “guerra da Coreia”, invadida pelos EUA com o respaldo daONU em 1950, morreram 2 milhões de civis. Por fim, mas não fechando o ciclo quecompreende ainda um sem-número de guerras de caráter colonialista espalhadaspelos quatro cantos da Terra – como as invasões do Afeganistão e do Iraque, aguerra do Vietnã é o grande destaque da história contemporânea. A agressão dosEUA, iniciada em 1965 e só encerrada em 1975 com a queda de Saigon, custou asvidas de 2 milhões de civis. O império, que desesperadamente luta pelahegemonia mundial que conheceu entre o fim da Guerra Fria e a emergência daChina, encontra no Estado-tampão de Israel o aliado perfeito.
Na verdade, suas políticas de guerra se completam,desempenhando, cada uma segundo suas características e circunstâncias, papelestratégico na atual política de guerra do dito Ocidente: 1) a guarda doOriente Médio por Israel; 2) a guarda da Europa (governada majoritariamente porpartidos protofascistas) e a contenção da Rússia, pela OTAN; 3) o Japão,virtual porta-aviões do Pentágono posto a vigiar a China, e, por fim, 4) ospróprios EUA, policiando o mundo, com suas cerca de 800 bases militares em maisde 70 países.
Não é obra do acaso que desde 1947, quando, para existir,ocupou parte da Palestina, o Estado de Israel tenha tomado para si aCisjordânia, o Sinai e as colinas de Golã, e ainda administra ou controla cercade 85% dos territórios originários da Palestina. Em nome de sua “autodefesa”Israel destruiu a possibilidade do Estado palestino – a contraparte da ONU parao Estado judeu. Atendendo a interesses próprios de Estado de alma colonialista,de que decorrem o belicismo e a fome de territórios (um dos pontos em queIsrael e EUA se encontram com a Alemanha de Hitler, obcecada com seuLebensraum), o Estado sionista mata civis em Gaza, na Cisjordânia, no Líbano,no Iêmen, voltou a matar na Síria e voltará a matar no Irã e onde mais se fizernecessário à geopolítica da destruição. Em quase todos os eventos agindo comoprocurador do imperialismo.
A OTAN não é peça ausente nesta arquitetura. Sob o comandoestratégico e os recursos militares, táticos e financeiros dos EUA, cumprepapel crucial no conflito Ucrânia-Rússia, que traz a Europa e uma grandepotência nuclear para o epicentro da crise. Ao mesmo passo em que garante umenclave bélico nas fronteiras da antiga república soviética, a presença da OTANlogra paralisar em seu território aquele que já foi considerado o maiorexército do mundo, e que hoje guarda o paiol do maior estoque de ogivas nucleares.
Esses conflitos são cruciais para o Pentágono, poisconstituem peças decisivas no projeto (de vida ou de morte) estadunidense: recuperar a hegemonia mundial, mesmo que aopreço de um conflito que, hoje, para o bem e para o mal, sabemos como começa ejá podemos prever como terminará. Podemos, mesmo, anunciar como será seusucessor: “Eu não sei com quais armas a Terceira Guerra Mundial será lutada,mas a Quarta Guerra Mundial será travada com paus e pedras” (Albert Einstein.Liberal Judaism, 1949).
A lenta decadência do império ainda cobrará sacrifíciosimpensáveis à humanidade. Roma, desta feita, se prepara para a guerra. Oconfronto de nossos dias tem na sua antessala a explosão do Oriente Médio,projeto que remonta aos idos do imperialismo britânico; o atual teatro deoperações deve estender-se em pouco tempo, e toda guerra, antes da paz, é a mãede outra, como a II Guerra Mundial foi o desdobramento inevitável do conflitodesencadeado em 1914.
Por isso, o conflito Rússia-Ucrânia jamais se circunscreveuaos dois países, e logo se transformou no embate EUA-OTAN versus Rússia, com osolhos dos EUA voltados para a ameaça real: a emergência de uma Eurásia lideradapor uma China industrializada, em condições de pleitear o cetro da hegemoniamundial.
A imprensa brasileira, perdidamente parcial, porta-voz que éda Hasbará (a máquina de propaganda do enclave sionista), noticia a invasão doLíbano como se estivéssemos diante de uma gincana de fim de semana. Não se dáao dever de informar que se trata de mais uma agressão ao território de um paíssoberano, como foi, na sequência, a incursão dos bombardeiros na Síria,violando as regras da convivência internacional e a Carta das Nações Unidas,que não se peja em desrespeitar, como desrespeita a Corte Internacional deJustiça.
O desafio de Israel à chamada comunidade internacional seexpressa, ainda, pelo desplante com que seu chanceler declarou persona nongrata no Estado ninguém menos que o secretário-geral da ONU.
O objeto da violência sionista, armada e financiada pelosEUA, não é a legítima defesa de um Estado ameaçado, posto que sabidamente oEstado-tampão de Israel não o é; ameaçada, e, ademais, ocupada, é aCisjordânia, é parte de Jerusalém e para tal tragédia parece condenado oLíbano.
Sob o terror estadunidense-israelense, Gaza foi reduzida aescombros; e desde o primeiro dia da agressão sionista seu povo, indefeso, àmíngua da solidariedade internacional, é exterminado a sangue-frio: fuzilado,bombardeado, mutilado, deixado à míngua de assistência médica, privado decomida, de medicamentos, de eletricidade, de água. A fúria luciferina não sedetém diante de hospitais e escolas. Seus mortos são civis que não oferecemcombate ao agressor, nem sequer esboçam o legítimo direito à resistência(anatemizado como terrorismo pela imprensa ocidental, macaqueada pelabrasileira).
Matar o desarmado é covardia, mesmo segundo os códigos dehonra dos marginais. Matar de tocaia, sem dar ao outro o direito de defesa é,ademais, crime hediondo. Mas o sionismo não está só; sabidamente dispõe deapoio bélico, político, logístico, econômico, estratégico e tecnológico dosEUA, de quem recebe respaldo absoluto, diante uma comunidade internacionalcúmplice e de uma ONU sem qualquer serventia, que, quando muito, protesta nasredes sociais. Ao seu lado, a União Europeia e a direita hidrófoba de todos osquadrantes. Esta de hoje, é filha do nazifascismo que nos legou a II GuerraMundial, com seu inventário de miséria que chega aos nossos dias.
A Europa – agora com a significativa adesão da Áustria –começa a fechar o círculo do avanço da extrema-direita. A ascensão doprotofascismo e o ímpeto das políticas de guerra não podem ser vistos comofatos isolados. Desse veneno a humanidade já provou. Se a peça de hoje, cujoenredo também detestamos, não é a mesma de ontem, e nunca é, o diferencial dehoje é que alguns atores trocaram de papel. Os alemães também invadiram seusvizinhos porque alegadamente precisavam de “espaço vital”, isto é, mais terrase mais recursos para levar a cabo o projeto do III Reich: assim, foramavançando, invadindo, anexando: Renânia, Áustria, Tchecoslováquia, Polônia...Hoje, Israel tenta justificar seu expansionismo em nome da necessidade de maisterritório para assegurar-se de sua defesa.
Não há guerra no Oriente Médio. Mas naquele barril depólvora chafurdado pelos grandes impérios coloniais, hoje protetoradospolítico-militares dos EUA, pode estar sendo gestado o próximo grande conflito,certamente universal, porque já envolve a economia mundial, e tem presençaefetiva em todos os continentes, seja na versão clássica, seja na versãoconhecida como guerra híbrida, que já nos atinge.
***
Uma matriz que se vai – Nada obstante sua saúde delicada e aidade provecta, a notícia do falecimento de Saturnino Braga chegou de surpresaa todos os seus amigos, porque jamais aceitamos como favas contadas as perdasdos amigos excepcionais, dos renovadores, dos construtores, animados com asvitórias, indiferentes aos percalços. Não era pelo temor da eventual derrotaque Saturnino recusaria uma luta. E quantos embates desafiou! Desafeito aosseus interesses de classe, dedicou a vida à construção de uma sociedade feliz,pousada na prevalência do trabalho, justa socialmente, livre da concentração derenda e da fome, a peste humana que nos degrada. Ou seja, lutou sempre,lançando mão das diferentes armas que as circunstâncias ensejaram (engenheiro,funcionário público, senador da república, deputado federal, prefeito de suacidade querida, vereador) pela transformação social, sem antes indagar o preçoque o sistema cobraria. Nada obstante a consciência da tragédia biológica, eupensava que sempre estariam conosco, na mesma batalha, amigos admirados comoAntônio Houaiss, Jamil Haddad, José Aguiar Dias, Paulo Bonavides e Evandro Linse Silva. Mas todos se foram e outros e outros os seguirão, pois essa é a “ordemnatural das coisas” que dá sentido à vida e faz de cada de nós o fruto de suavida. O homem é o que faz. Saturnino somente no final da trilha revelou ossinais de ave ferida. Até há pouco desafiava o passar do tempo sem jamais abrirmão de seu dever existencial – uma opção pessoalíssima mas histórica – de reescrevero tempo presente enquanto ele se fazia. Político, haveria de ser socialista.
Uma socialista na disputa – “O socialismo não é sequerradical. Ele só parece radical porque vivemos numa sociedade que normaliza amiséria. Não é radical acreditar que a humanidade merece moradia, um pratocheio de comida, assistência médica e lazer.” (Claudia de La Cruz, candidata àpresidência dos EUA pelo PSL – Party for Socialism & Liberation).
Por: Roberto Amaral.
* Com a colaboraçõ de Pedro Amaral.
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