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Eleições municipais: anatomia de uma queda

Eleições municipais: anatomia de uma queda

12/10/2024 21h33 Atualizada há 2 anos atrás
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Eleições municipais: anatomia de uma queda

“As eleições gerais não medem corretamente a força políticados partidos por causa das várias influências burguesas, mas servem como umcenso para indicar como as forças populares estão se desenvolvendo.” (Carta deFriedrich Engels a August Bebel, 28 de outubro de 1884).

É desnecessário pôr de manifesto o cenário do recessoideológico-político da esquerda brasileira, de que decorre, de modo natural einequívoco, o desastre eleitoral. Mas cabe delinear o quadro da clamorosaderrota deste ano: recuo no Nordeste (destacando-se a derrota contundente emSalvador, por W.O.); em Minas Gerais (destacando-se o desastre em BeloHorizonte); e consolidação da direita nos três estados do Sul. Desastreeleitoral no ABC paulista e nas grandes concentrações eleitorais do interior deSP, como Campinas e Araraquara. Na capital paulista, onde obtivemos nosso maisimportante desempenho (o segundo turno com Guilherme Boulos) -- maior cidade daAmérica do Sul, maior concentração industrial, cultural e tecnológica, ondeLula venceu em 2022 -- nada menos do que 60% do eleitorado votaram com as duasfacções da extrema-direita.

Há dados positivos a celebrar, como o avanço darepresentação indígena e quilombola, e o fato de o MST haver logrado, de formainédita, eleger 133 candidaturas à vereança e ao executivo municipal, sobretudono interior do Brasil profundo, distribuídas por 19 estados. Mas esses avançosalvissareiros não alteram o quadro geral.

Os números eleitorais de 6 de outubro são ponto dereferência para uma tentativa de investigação das transformaçõespolítico-ideológicas que se operam em nosso país; verdadeiros movimentostectônicos muitas vezes despercebidos na superfície, o que induz o espectadordesatento a confundir as aparências com a essência dos fenômenos. Exemplar daincapacidade de os sismógrafos sociais registrarem essas mudanças foi aincapacidade dos ditos quadros políticos de compreender o significado dosmovimentos de contestação popular – as chamadas “jornadas de junho” de 2013 –que tomaram as principais cidades do país, anunciando as raízes de um fenômenoque nos recusávamos a reconhecer.

Os números deste pleito, para além de indicador de umpronunciamento eleitoral, devem ser colhidos como corpo de análise do recente erápido e profundo processo social e político brasileiro. A essência (de fácilidentificação) é essa: o país marcha para a direita, e não é de hoje. Oexercício é procurar explicações, e, a partir delas, engendrar o enfrentamento.Como não estamos em face do acaso, nem muito menos da ingerência dos deuses doOlimpo, precisamos identificar como as forças populares estão se desenvolvendoentre nós, para, a partir daí, podermos (porque devemos) rever estratégia etática e, portanto, nosso discurso.

O ponto de partida é que a crise é nossa. E um indicador,trágico, inquietante, é o fato de a capacidade de mobilização popular dadireita superar a da esquerda, e avançar, nas pegadas do recesso de nossamilitância, na organização popular nas periferias, junto a trabalhadores e aosdeserdados do capitalismo.

Nada obstante a crise do capitalismo financeiro-monopolista,em guerra, que em breve nos atingirá a todos, e os impactos do avançotecnológico nas relações de produção, as teses socialistas vêm, gradativamente,perdendo espaço junto às grandes massas. A direita protofascista conseguiu,nessas últimas eleições, o prodígio de, em pleno século XXI, ressuscitar oanticomunismo, e a Faria Lima elegeu o pleno emprego como ameaça ao “equilíbriofiscal”, o mantra dos economistas a serviço da especulação financeira. Ocantochão da velha imprensa.

 

Não foi por falta de avisos que tropeçamos no abismo.

Repetindo a incompetência de 2013, continuamos, nos anosseguintes, nos negando a reconhecer as transformações político-ideológicas quecaminhavam na contramão de nossas propostas. Nos recusámos a ver em 2014 osignificado das gritantes dificuldades da reeleição de Dilma Rousseff, ameaçadapelo avanço de uma candidatura e uma campanha de direita, já indicando os novosrumos da socialdemocracia. A tese: Dilma foi deposta não exatamente por nãohaver conseguido amealhar 247 votos no Congresso, mas porque, nas ruas, nãoencontramos apoio popular para alterar a correlação de forças congressualadversa. A eleição de Jair Bolsonaro, seu governo predador e a difícil campanhade 2022 são desdobramentos naturais desse refluxo.

Resistimos a reconhecer esses fatos e resistimos a procurarentendê-los. Demos o desastre como favas contadas, e assim, de uma forma ou deoutra, terminamos por facilitar a progressão da direita hidrófoba.

Apressadamente festejamos a dificílima derrota da propostaprotofascista em 2022 como uma vitória da esquerda. Reação de último fôlego dademocracia, a contenção do golpe continuado decorreu da derradeira carta namanga, a oportuna composição da centro-esquerda, liderada por Lula, com setoresda direita, com forças políticas conservadoras e liberais – sempre adversáriasda esquerda, mas que, naquele ensejo, temiam a proposta exacerbadamenteautoritária e destrutiva. Os números justificariam  a angústia vivida e homologam a composição dafrente-ampla, mas não forneceram a Lula senha para salvar-se do labirinto emque se encontra atrapado.

O espelho do Brasil real fez-se representar no atualCongresso, eleito naquelas mesmas eleições, o mais reacionário de quantos secontam na República. O resto é história sabida, com a emergência da ditaduraparlamentar do Centrão, liderado pelo jagunço de Alagoas.

O resultado das eleições de 2022, não sendo nem um ponto departida nem de chegada, é, porém, o indicador do que poderão ser as eleições de2026, considerando: a) o quanto nelas estão investindo as direitas (a direitanegocista e a direita troglodita), aguerridas, agressivas, organizadas, e temodizer, competentes, pois armadas de objetivo claro e catalizador, qual seja, atomada do poder, como possível, pela via eleitoral (como em 2018) ou pelo golpede mão, como a frustrada intentona de janeiro de 2023; e b) quanto têm recuadonossas esquerdas, seja do ponto de vista ideológico, seja do ponto de vista daorganização, seja do ponto de vista estratégico.

 

O ponto crucial é sempre o desvio ideológico.

Paralisado, condicionado pela maioria reacionária doCongresso, nosso governo, quando não recua, é obrigado a não avançar, e assimtransita da centro-esquerda (proposta da campanha eleitoral) para o centro,frustrando as massas que dele ainda espera as mudanças prometidas, hojetornadas inviáveis em face da correlação de forças de que depende parasimplesmente sobreviver. E que, aparentemente conformado, não busca alterar.

 

O quadro pode piorar?

Por sem dúvida que pode, se não houver a revisãoprogramática das esquerdas e do governo. O governo Lula, olhando de frente ecom coragem a realidade fática, precisa ser um novo governo, amparado em umprograma reconhecível pelo país, corajosamente mudancista, refazendo práticas,projetos e composição em função de novas práticas e projetos. E, sem poderabrir mão das negociações, decidir-se (é bom lembrar-se que já está noencerramento do segundo ano de seu mandato) a dialogar com o povo, que emgrande medida ainda acredita nele. A tarefa é árdua, pois se trata de trocar ospneus com o caminhão andando. O tempo alimenta a angústia. A habilidade, emesmo a manha, continuam necessárias, mas deixaram de ser suficientes, pois asnovas circunstâncias exigem também decisão e coragem para mudar.

A tarefa é dos partidos, mas não apenas deles, pois aesquerda está comprometida com os destinos do governo que ajudou a eleger etenta sustentar. Os fatos exigem, dos partidos e do governo, dos sindicatos eda militância, um sistemático trabalho de educação política, de sorte a fazerfrente à permanente lavagem cerebral a que são diuturna e sistematicamentesubmetidas as grandes massas, indefesas em face da grande mídia, aparelhoideológico da classe dominante, tanto quanto as redes sociais e a ação politizadae partidarizada de seitas religiosas postas a serviço do atraso.

 

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O ranço ideológico da caserna e o ministro patético –Constrangendo (espera-se) o governo que representa, e pelo qual é prestigiadoalém da medida, o ainda ministro da defesa defende publicamente financiarmos ogenocídio palestino, vendermos armas para o governo nazifascista da Ucrânia(afrontando a Rússia, nossa parceira estratégica no Brics), violentarmos ospovos indígenas e acobertarmos de maneira farsesca a participação da cúpula dasforças armadas na intentona de 8 de janeiro. O ex-usineiro José Múcio fraudaseu papel no Ministério, transformando-se em locutor do que resta de maisatrasado entre os fardados. O pacote de reacionarismo empedernido expelido porele, orgulhoso representante das viúvas da ditadura militar encasteladas nasforças armadas do Estado brasileiro, exige sua imediata demissão. Um recuo deLula nesse tema estratégico seria uma péssima sinalização.

Vingança bandoleira – Fustigada pelo desejo de vindita docoronel Arthur Lira contra o STF (quando este age corretamente), a CCJC daCâmara dos Deputados – de composição lamentável, com raras e honrosas exceções– acaba de aprovar projetos que confrontam cláusulas pétreas da Carta de 1988como a limitação dos poderes do Judiciário. O bando conta com o esperávelendosso do plenário da Casa, bem como da rebaixada oposição instalada noSenado. Assim, vai se consolidando no país o golpe de um parlamentarismo defato, sem audiência constitucional e sem a homologação da soberania popular(que sempre o rejeitou). Um parlamentarismo, em suma, sem amarras, semresponsabilidade... e sem vergonha.

 Por: Roberto Amaral.

* Com a colaboração de Pedro Amaral.

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