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O novo ano e o horizonte desafiador

O novo ano e o horizonte desafiador

17/01/2025 08h52 Atualizada há 2 anos atrás
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O novo ano e o horizonte desafiador

Os sonhos e as esperanças se desmancham no ar quando estamosapenas vencendo os primeiros 30 dias de 2025, promessa de projeção do ano quepassou. Se parco é o inventário do que temos por comemorar, extensa é a pautado que devemos temer, habitantes de nação dependente, de uma dependênciageopolítica e ideológica inserida na periferia do capitalismo. Somos umaprovíncia no Sul Global para onde foram designados os subdesenvolvidos deontem, após a repaginação do mundo determinada pelo fim da Guerra Fria, proclamandoa vitória da globalização e dos EUA.

Para bem compreender os tempos presentes, construção detempos passados (compreender para nele intervir), o primeiro passo é a análisedo cenário internacional, que nos lembra os piores momentos do século passado,o qual, entre outras catástrofes humanitárias, nos legou duas guerras mundiais.Mais uma lição da História: é mediante guerras de toda ordem que se desenvolveme se resolvem as disputas de hegemonia, e é este o conflito de nossos dias,anunciante de embates ainda mais graves no amanhã que podemos divisar sem orecurso das lentes do tempo.

Se “lá fora” são maus os presságios, na provínciacontinental os tempos de hoje cobram engenho e arte. E, sem dúvida, algumaaudácia e coragem, predicado dos vencedores.

O mundo, sob a égide do capitalismo, parece haver optadopela regressão, e nela investe com dedicação suicida. Faz décadas, a contarprimacialmente do fim da Guerra Fria, tornada desnecessária com o suicídio daURSS e o fracasso das experiências de capitalismo de Estado do Leste europeu, aclasse trabalhadora, onde a ideologia neoliberal se fez política de Estado – ouseja, praticamente em todo o mundo – vem sofrendo seguidas derrotas nos planoseconômico, social, político e cultural, acumulando recuos políticos e revezesestratégicos que não podem ser reduzidas, tão-só, às consequências anunciadaspelas novas relações de produção, mais e mais condicionadas pela preeminênciado capital sobre o trabalho.

Fruto das contradições inerentes ao desenvolvimento docapitalismo financeiro monopolista, soma-se (e aí não se trata de crise) oacirramento das chamadas guerras comerciais, o aumento do número de confrontosmilitares, o expansionismo terrorista do sionismo, a naturalização dogenocídio, a falência dos organismos internacionais, a começar pelo fracasso daONU. Tudo em meio a uma crise ambiental cumulativa que parece sem solução.Desta tragédia já somos testemunha e vítima, e sabemos aonde pode levar o negacionismo.

Este é o nosso mundo de complexa fragilidade física epolítica que mais e mais se assemelha à casca de noz a que se referia StephenHawking. Desta nave somos passageiros sem acesso à cabine de comando. Mas tudoo que nela ocorre nos diz respeito diretamente, pois intervém diretamente emnosso destino, como planeta e humanidade.

Os cordéis da globalização – fenômeno econômico, político,militar e ideológico – estão sob a égide do maior concerto de poder jamaisconhecido desde a longa era romana, que a paranoia do 3º Reich intentourefazer, ao preço conhecido. Os EUA caminham para o apogeu de seu declínio, emplena crise política, social e ética, que se vem acentuando nas últimasdécadas, ao tempo em que acirra a disputa pela recuperação da hegemonia global,o que pode nos levar à terceira guerra mundial. Dela, se não sabemos qual seráo primeiro passo, e não sabemos mesmo se esse primeiro passo já não terá sidodado, temos certo como será o último capítulo, que talvez ninguém possaregistrar.

É sob tais condicionantes que forcejamos por construir nossahistória, indecisos ainda sobre o que somos e o que queremos ser, carentes,ainda, de um projeto de país.

Se razões objetivas nos dizem que conseguimos em 2022, mesmoa duras penas, deter as maiores ameaças conhecidas pelo processopolítico-social desde 1964 – a possibilidade de reeleição do capitão meliante–, não é racional supor que esmagamos a peçonha. Aos candidatos a doutorPangloss a realidade traz à tona a composição do Congresso eleito com Lula, asmaquinações de dezembro de 2022, a intentona de 8 de janeiro de 2023 e aseleições de 2024, bem como as resistências militares, as pressões e chantagensdo grande capital, e um cenário internacional desconfortável sob todos osaspectos.... enfim, o concerto de adversidades desafiando um governo impedidode afirmar-se.

A consagração de Donald Trump, um dado a mais no entrecho, éinquestionável testemunho, agora reiterado, da identificação da sociedadeestadunidense com o discurso e o programa neofascista, desenvolvido em planointernacional. Criminoso condenado pelo Tribunal de Nova York, denunciado porfraude e conspiração, mitômano contumaz, o republicano retornará no próximo dia20 à presidência dos EUA, um país e uma sociedade visceralmente beligerantes, eassim assumirá o comando da maior força militar jamais conhecida, prometendo aexasperação da velha política do Big Stick, que foi e é a essência doimperialismo norte-americano. Sua eleição, na voragem de votação consagradora,não deve ser vista como raio em céu azul. Também não se trata, o presidentereeleito, de um estranho no ninho do establishment. Trump é personagemfortemente identificado com o que se costuma chamar de americano médio. Osreais valores americanos estão em seu discurso, que por isso mesmo foireferendado.

De igual modo e respeitadas as distinções, a assunção deJair Bolsonaro como líder nacional, e presidente quase reeleito, não deve servista como “um ponto fora da curva”, pois reflete a conquista das grandesmassas brasileiras pelo discurso da extrema-direita, em níveis jamaissuspeitados entre nós, seja durante o Estado Novo, seja durante o apogeuinternacional do nazi-fascismo e do integralismo, seja durante o mandarinatodos generais que em 1º de abril de 1964 assumiram diretamente o poder que semprecontrolaram.

O esboço de panorama nos lembra os idos do século passado,com a avalanche neofascista se espalhando pela Europa e o resto do mundo. Se assimilitudes não são boas, desanimadoras são as dessemelhanças, pois o mundo queseria engolfado pelo nazi-fascismo vivia naquela altura os desdobramentos daRevolução de 1917, a politização das massas, a emergência do sindicalismo e dasforças proletárias, a progressão das ideias e dos movimentos sociais epolíticos, o crescimento dos partidos comunistas e de esquerda de um modo geral– um mundo de avanços que se revitalizava e crescia na resistência aonazi-fascismo. O fim da guerra, com a derrota do Eixo, anunciava a vitória dademocracia e a retomada dos sonhos, alimentando as mais audaciosas utopias.

A confrontação daqueles tempos com o mundo de hoje revela orecesso da resistência revolucionária, a vitória ideológica e política doneoliberalismo, o trânsito da social-democracia para a direita, do trabalhismopara o conservadorismo. Na Inglaterra, o trabalhismo, outrora liderado pelaesquerda conduzida por Clement Attlee e Michael Foot, salta para a direita oucentro-direita de Keir Starmer, e na Alemanha o rotundo fracasso de Olaf Scholze dos socialdemocratas do SPD atapeta a estrada por onde avança o nazismo doAFD (Alemanha para os Alemães), o que, com a ascensão da ultradireita deGiorgia Meloni na Itália, conforma a decadência europeia e a renúncia históricaà expectativa de um projeto alternativo ao capitalismo desenganado.

 

O fascismo parece avançar sem encontrar resistência àaltura.

Assim chega ao fim o ciclo das democracias liberais e apromessa de avanços políticos. Encerra-se também a experiência socialdemocrata,tornada desnecessária desde o colapso soviético; sobrevive na Escandinávia comoenclave de bem-estar social no capitalismo globalizado.

 

Quando nos é dado celebrar os 40 anos do fim da ditadurainstaurada em 1º de abril 1964 – sem nos havermos libertado da preeminência dacaserna sobre a vida civil –, registramos dois anos da intentona de 8 dejaneiro 2023, um desdobramento inevitável de 2018, por seu turno uma das criasdo golpe parlamentar de 2016. A “Nova República”, anunciada com a eleição deTancredo Neves (frustrada na posse de José Sarney), terminara melancolicamentecom a eleição de Jair Bolsonaro. Momentaneamente contidapelas eleições de 2022,a peçonha chega a 2025 ainda muito forte, política e eleitoralmente.

Em todos os planos da vida institucional se estampa apersistente hegemonia da aliança direita-extrema direita.

O Brasil, na sua tragédia política que parece não ter fim,segue a trilha traçada por um mundo historicamente regredido, entusiasmado pelaregressão, a modernidade do atraso, a vitória do passado que parecia morto,expulsando de nossos tempos as expectativas de um futuro melhor.

Este é o mundo do terceiro mandato de Luiz Inácio Lula daSilva, e essas são suas circunstâncias. Um processo político preso àlinearidade, um processo social sem forças para alterar a ordem, que evitasaltos, caudatário do passado que sobrevive no presente, impedindo o parto dofuturo, eterna promessa que não se cumpre.

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Adeus a Lavenère – A notícia chegou sem surpresa, mas feriuseus amigos como um raio inesperado. E deixou um vazio – político, jurídico,cívico – em momento tão difícil deste país que ele tanto amou, lutando pelademocracia, lutando pelo avanço social, lutando pela dignidade de seu povo,cuja tragédia, obra da ordem de quinhentos anos, conheceu ainda menino emAlagoas. Advogado, jurista, professor de direito civil, líder de sua categoria,presidente do Conselho Federal da Ordem dos Advogados, honrou sua geraçãopatrocinando, com Barbosa Lima Sobrinho e Evandro Lins e Silva, o pedido deimpeachment de Fernando Collor. Desde os tempos mais difíceis foi um adversárioda ditadura, combateu a tortura, destacou-se na batalha pela Anistia, lutou aolado das forças progressistas, destacou-se contra o golpe de 2016. Um dosúltimos atos políticos que com ele pude compartilhar foi um comício emCuritiba, em defesa da liberdade do presidente Lula, que as circunstâncias nãolhe permitiram comemorar. Marcelo Lavenère, amigo querido, ele sempre credor,eu sempre devedor.

O Estadão e o golpe – O Estado de S. Paulo festeja seus 150anos de defesa da ordem, da tradição, do agrarismo, do anti-industrialismo, doudenismo golpista e da dependência ao grande capital internacional.Referindo-se à ditadura de 1964, diz, em breve nota: “Em 1964, o Estada?oapoiou, como grande parte da imprensa, a deposic?a?o de Joa?o Goulart(1919-1976). Temia-se o caos e a aproximac?a?o com o socialismo nos moldescubanos”. Demasiada modéstia. O jornal dos Mesquitas não só apoiou, comoparticipou ativamente, pelas suas páginas e por outros meios, da conspiraçãogolpista, superando nessa dedicação seus concorrentes (O Globo de RobertoMarinho e a “cadeia associada” de Assis Chateaubriand). Cordeiro de Farias, umdos articuladores do golpe e da ditadura, revela o sistema de financiamento dainsurreição antidemocrática e antirrepublicana: “As fontes principais dearrecadação eram duas: o governador Ademar de Barros e o jornal O Estado de S.Paulo, através de Júlio Mesquita” (Camargo-Góes. Diálogo com Cordeiro deFarias, p. 553).

Ainda o Estadão – O jornal (“Opinião do Estadão”,12/01/2025), seguido de O Globo(14/01/2025), condena o que denomina “contençãodos preços dos combustíveis”, que, se real, estaria contribuindo para tornarmenos preocupantes os índices da inflação. O aumento dos preços ao consumidorde gasolina, diesel e gás a quem beneficiaria?

Marcados para morrer – No último 10/01, cerca de 40criminosos invadiram o assentamento Olga Benário, em Tremembé-SP, portandoarmas pesadas, e abriram fogo contra os moradores. Valdir Nascimento, oValdirzão, uma das principais lideranças do MST no Vale do Paraíba, e GleisonBarbosa, o Guegue, foram assassinados. Seis vítimas seguem internadas, umadelas em estado grave. No dia seguinte, a PF prendeu Antonio Martins Filho,apontado como mentor do crime; outro miliciano, Ítalo Rodrigues da Silva, aindaestá foragido. Organização de fundamental importância para os esforços pelatransformação do Brasil numa nação, o MST merece toda a solidariedade – umasolidariedade que precisa ser expressa não apenas em palavras, belas que sejam,ou ações pontuais, mas sobretudo em proteção para quem luta por justiça social,e medidas efetivas de combate ao latifúndio, à grilagem e à especulaçãoimobiliária.

Por: Roberto Amaral.

* Com a colaboração de Pedro Amaral.

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