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Precisamos falar sobre Múcio

Precisamos falar sobre Múcio

16/02/2025 21h44 Atualizada há 2 anos atrás
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Precisamos falar sobre Múcio

“Age em relação a teus amigos como se eles devessemtornar-se um dia teus inimigos”

-Cardeal Mazarin, Breviário dos políticos

[Em setembro de 2023, o deputado Glauber Braga (PSOL-RJ),com outros parlamentares, foi recebido em audiência pelo ministro da Defesa.Seu relato: “Fui à Defesa discutir a Lei nº 13.954, de 2019 (que amplia ospoderes dos oficiais superiores e reduz os direitos dos praças). Fomosrecebidos por José Múcio Monteiro e uma mesa cheia de generais. A certa altura,sem pedir segredo, o ministro, referindo-se aos oficiais, diz: ‘São todosbolsonaristas. Tem golpista e legalista. Mas todos bolsonaristas’.”]

No dia 8 de janeiro, o ministro da Defesa saboreava acepipesem um restaurante badalado de Brasília quando foi surpreendido (o depoimento édele) pela notícia da turbamulta invadindo as sedes dos poderes. Uma súciaarrecadada à vista de todos e por muito tempo, trazida de todos os quadrantesdo país, por todos os meios, para se juntar aos insurretos que ocupavam osportões e as imediações dos quartéis, sob a proteção delinquente de seuscomandantes.

Do outro lado da Esplanada, revelando uma salutarcontradição no governo, o ministro da Justiça, Flávio Dino, comandava de seugabinete a reação possível. Diz a crônica que foi apresentada ao presidente,pelo ministro da Defesa, a proposta de decreto que fazia a regência domalfadado art. 142 da CF-88, o dedo perverso do militarismo na Constituinte.Era o meio de consolidar juridicamente o golpe: as tropas, sob o pálio da LeiMaior, voltariam às ruas “para restabelecer a ordem” que elas mesmas haviam ajudadoa decompor, e não se admitia prazo para seu retorno aos quartéis. O planejado éfácil de imaginar.

 

Sabe-se que o texto suicida foi recusado, por instância doministro da Justiça, no “fio da navalha”.

Tudo isso me vem à baila quando o ministro da Defesa,surpreendentemente boquirroto para quem o conheceu de outros tempos, volta àsfolhas, às telas e às telinhas para incomodar a República e pôr em sobressaltoa política. O sobressalto é justo, e compreensíveis são as variadasinterpretações de seu discurso, pois não se trata de um político qualquer.Múcio tem história: expressão graduada da classe dominante pernambucana deraízes rurais, foi o candidato do regime militar contra Miguel Arraes em 1986 ese tornaria amigo e colaborador de Eduardo Campos, neto do patriarca. Deputadofederal por cinco mandatos, transitou pelas siglas do sistema – ARENA, PDS, PFLe PTB – e assim chegou ao posto de ministro coordenador político no segundomandato de Lula Encerrou a carreira política como ministro do Tribunal deContas da União, nomeado pelo mesmo Lula.

Suas falas são coisa séria, pois não consistem em palavrassoltas ao vento. Trata-se, porém, de uma ventriloquia, e é preciso cuidar dodono da voz.

Em sua recente entrevista ao programa Roda Viva, da TVCultura (10/02), Múcio lembrou que teve familiares junto aos portões dosquartéis, naquela tentativa do bolsonarismo de criar a desordem servidora doobjetivo de impedir a posse de Lula. Lembrou que, antes de assumir oministério, procurara seu amigo capitão; precisava de sua ajuda, e a obteve,para abrir-lhe as portas fechadas dos comandos militares. Afinal, portou-se,ainda nesse programa, como o melhor dos defensores do capitão delinquente– cujoadvogado, por sinal, já anunciou o pedido de juntada do programa de TV aosautos do processo de seu cliente, como a mais importante peça de sua defesa(vide O Globo, 11/02/2025).

O ministro falou em “prisão de inocentes” e aplicação de“penas arbitrárias”. Posando de jurista e juiz, defendeu uma nova dosimetriadas penas, diferenciando os envolvidos conforme o grau de responsabilidade,como se isso não estivesse sendo observado – o que é uma forma a mais decondenar o processo. E insinuou haver excesso de condenações e de penas altasimpostas pelo STF. “Você não pode condenar uma pessoa da mesma pena, quemarmou, quem financiou e quem foi lá inchar o movimento”. Quem o está fazendo? Segundo o ministro, “não havianinguém armado”, porque ele não considera as facas, os bastões de ferro, aspedras, as bombas de gás lacrimogênio , os pesados extintores de incêndios etc.

Fez coro à defesa da anistia que os meliantes de todos osnaipes reclamam, sob a alegação de que o país precisa ser “pacificado”.“Ninguém aguenta mais esse radicalismo”, afirmou, sem se dignar a explicar oque entende por “esse radicalismo”, nem apontar sua origem (qual seja, acampanha eleitoral de 2018 e o governo que a ela se sucedeu). Para o ministro,essa aberração política nos quadros de hoje ajudaria a “pacificar o país ereduzir a polarização”. A direita solta fogos.

Assim, não cogitou de discutir a alimentação desseradicalismo, hoje talvez ainda mais agudo do que nos tempos da campanha e dogoverno passado. Rejeitou, reiteradamente, qualificar o 8 de Janeiro comoataque à democracia ou tentativa de golpe. O ministro simplifica a história,qualificando-o como um “movimento” (não indica seu caráter) ainda em apuração.

Questionado sobre a participação das forças armadas nosatos, Múcio sugeriu que não houve tentativa de golpe, pois os militares nãoaderiram à invasão, mas não soube explicar por que os comandantes das Forças serecusavam a recebê-lo e por que o chefe da Marinha e do Exército não procederamà transmissão do cargo, a que estavam obrigados, e por que acoitaram nas portasdos quartéis os arruaceiros que, como parte decisiva da intentona, invadiram edepredaram as sedes dos três poderes..

A quem (e a que) aproveita tudo isso?

Se o presidente Lula não enquadrar o porta-voz da caserna noMD, parecerá, à opinião pública, que o está endossando – o que seria muitoperigoso para o governo e a democracia.

Ouso sugerir aos assessores políticos do presidente queconsultem a história recente do presidencialismo brasileiro, com suasinsurreições, levantes militares e, principalmente, com sua longa eaparentemente interminável série de golpes e contragolpes – e neles, o papelinsidioso da sublevação dos quartéis, cupim voraz na faina silenciosa deconsumir a legalidade. A bibliografia, mesmo aquela dedicada aos temas maisrecentes, como o golpe de 1º de abril de 1964, é vasta. Limito-me à indicaçãode um só título, o depoimento de Almino Afonso sobre o desmonte do governoJango (1964 na visão do ministro do trabalho de João Goulart). Há ali umalição: nenhum presidente da República, em nosso regime, sobrevive sem umsistema (chamava-se à época de “dispositivo”) militar sob seu comando – não sóeficiente, como fiel. Neste caso, comando e fidelidade não se transferem.

Quando Jango se deu conta, já era tarde demais.

***

Miséria do jornalismo – Com o genocídio contra os palestinosde Gaza ainda em curso, e sem fim à vista, o Estado de Israel (sempre dedicadoà sua “hasbará”) bancou a viagem de meia dúzia de jornalistas brasileiros àregião onde ocorre o massacre. Como esperado, começam a aparecer nos“jornalões” nativos as contraprestações do passeio, pela mão dos coleguinhasque se prestaram a esse papel lamentável. Em 11/02, O Globo publicou um texto(“O sentimento em Israel”) de um seu colunista que se arroga a oferecer “umavisão realista do que ocorre no Oriente Médio”. Passando ao largo do sofrimentoindescritível da população trucidada, o autor reproduz, de cabo a rabo – e sempejo de mentir –, o discurso oficial do enclave sionista. É de revirar oestômago. Como dizia o inesquecível Barão de Itararé, “todo homem que se venderecebe muito mais do que vale”.

Lenga-lenga? I – O projeto de exploração de petróleo naMargem Equatorial é indubitavelmente controverso, e desperta preocupaçõesrazoáveis em face do histórico brasileiro de destruição ambiental (que não tempoupado a Amazônia e suas populações), bem como da catastrófica crise climáticaa que o avanço sem freios do capitalismo nos tem levado – crise que se temfeito sentir de modo devastador, inclusive no Brasil. E é natural que sejamcobradas explicações a respeito, quando o país se prepara para sediar, emnovembro próximo, a COP30.

Lenga-lenga? II – Nesse quadro, é de importância crucial,até pelo aspecto pedagógico, que o Governo Federal envolva a população em umdebate amplo e democrático, no qual explique de modo acessível suas razões paraapostar que a não exploração dessas reservas nos levaria a um colapso, suacerteza de que a Petrobras conduzirá a delicada operação de modo seguro e,ainda, o argumento – aparentemente contraditório – de que a abertura de novasfrentes de extração de petróleo irá financiar a sonhada transição energética.Erra o presidente Lula ao desvalorizar ao debate, quando de debate tantocarecemos.

 Por:Roberto Amaral.

*Com a colaboração de Pedro Amaral.

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