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É cedo para festejar: a denúncia da gangue não é o ponto de chegada

É cedo para festejar: a denúncia da gangue não é o ponto de chegada

22/02/2025 18h36 Atualizada há 2 anos atrás
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É cedo para festejar: a denúncia da gangue não é o ponto de chegada

A denúncia da PGR contra a choldra liderada pelo capitãodelinquente, tão esperada, não chega a constituir surpresa, mas implicaprofundo corte no cenário político. De um lado, pode despertar a esquerda(tomada em plano mais geral) de sua letargia; de outro, deve impor à direita —até aqui fogosa por não enfrentar adversário à altura — um recuo ao canto doringue, onde hoje se encontra o governo, enredado em sua insegurançaestratégica.

Antes de nós, essa distinção, nada sutil, foi percebida peladireita troglodita, que, na impossibilidade de defender o indefensável — avasta teia de crimes penais e políticos cometidos e prometidos pela catervachefiada pelo ex-presidente —, levantou a bandeira de uma anistia bastarda.Isca que a esquerda prontamente mordeu, dedicando-se a combatê-la edesviando-se do foco central, qual seja: a denúncia dos crimes do bolsonarismo,concebida como instrumento de combate ao avanço da direita, nosso adversárioestratégico. Sem clareza sobre o processo histórico e de seu papel nele, aesquerda se torna reativa, e assim sua práxis passa a ser condicionada pelocampo adversário.

É como enfrentamento à direita (a dita civilizada e atroglodita) que devem ser compreendidos a denúncia e o combate à choldrabolsonarista e seu contencioso de crimes.

Cumpre à esquerda, valendo-se da oportunidade que se abre,politizar o debate, destrinchar para o povo o conteúdo e o significado da gravedenúncia, explicar os crimes do neofascismo como coletivos e pressionar o STFpara a aceitação da denúncia, agora, e amanhã o processo. Deve esclarecer aopinião pública e pressionar o Judiciário, mas tudo isso como ação política,cujo objetivo, no curto, médio e longo prazos é a desmoralização política emoral da direita e seus agentes — direita fascista que já estava enraizadaentre nós antes da liderança do capitão e aqui permanecerá, mais forte ou maisfraca, mais perigosa ou não, alimentada pelos avanços que vem logrando desde2018 e, agora, impulsionada pelo trumpismo em ascensão que encontra noviralatismo ideológico da classe dominante terreno fértil para a semeadura.

Seja do ponto de vista material, seja do ponto de vistaideológico, a extrema-direita (nativa e importada) jamais esteve tão fortepolítica e eleitoralmente, tão bem aparelhada financeiramente e tão vinculada ànova ordem internacional, que, ascendente na Europa e nos EUA, favorece oavanço das correntes neofascistas em todo o mundo.

No Brasil, o reacionarismo controla as duas casas doCongresso, a maioria dos estados (como SP, RJ e MG), as prefeituras e câmarasmunicipais. Tem atrás de si o grande capital, além de infiltração nas forçasarmadas do Estado brasileiro. Dispensado falar no controle dos grandes meios decomunicação e das redes sociais, bem como da inefável ajuda doneopentecostalismo comercial. Combatê-lo é o objetivo da esquerda — e deveriaser o ânimo do governo e dos liberais, caso ainda existam, e da socialdemocracia,se esta não houvesse se suicidado.

A condenação penal e moral dos principais próceres daextrema-direita, a começar pelo capitão delinquente, será um instrumentovalioso de luta e mobilização popular, mas apenas um ponto de partida. Omomento, ou seja, o cavalo que passa selado diante de nós, exige uma revisãocorajosa do governo e da esquerda, que não podem permanecer letárgicos, nemcelebrar uma vitória que ainda não chegou.

Há trabalho pela frente.

O governo precisa discutir o conceito de frente ampla — umafrente para ganhar eleições e outra para governar —, e sustentar essa frenteeleitoral com um projeto aglutinador e diretor. Sem definição, o governo, quejá não podia ser de centro-esquerda, se descobre sob as diretivas de um projetoalheio e perde sua identificação com o eleitorado que foi base da eleição deLula e deveria ser sua sustentação política hoje, como foi na conjuntura dochamado “mensalão”.

(A crise é política, e não de comunicação, que no entantocontinua inexistente, pois comunicação de governo envolve questões que osmarqueteiros não costumam perceber, como projeto politico e programa de governodele servidor.)

O combate ao avanço da direita, seja qual for o desfecho dosjulgamentos do STF, depende do desempenho político do governo e da ressurreiçãodas esquerdas, da retomada do trabalho de organização sem o qual não hámobilização popular, ponto de partida indispensável para a batalha ideológicaque a direita tem vencido sem combate efetivo.

Uma urgência é livrar-se da pauta conservadora imposta pelosistema e construir a nossa, mas isso depende, nas circunstâncias, de umgoverno com visão estratégica e comando a ela adequado, como de estruturaspartidárias vinculadas à luta social, e não ao cotidiano das disputas internasde facções sem perspectivas históricas, apegadas ao aqui e agora e à disputa deespaços irrelevantes nas estruturas institucionais. O velho fratricídio damicropolítica.

Se o governo Lula não conseguiu, até aqui, organizar-se emtorno de um projeto de país, a esquerda tampouco formulou ou defendeu umprograma de mudança voltado à crise estrutural do capitalismo dependente,dirigindo-se à sociedade e enfrentando o desafio ideológico colocado peladireita em ascensão. Terminamos, ao fim e ao cabo, repetindo os passos quehistoricamente condenávamos na antiga socialdemocracia, ou seja, trabalhamospara tornar o capitalismo suportável. É o que fazemos quando deixamos de enxergara luta de classes, quando deixamos de denunciar a iniquidade do capitalismo,quando renunciamos a apontar alternativas. A desigualdade social, assim, toma aaparência de fenômeno natural.

Nessa toada, refazemos os passos vencidos dos caminhantessem esperanças: revolucionários, reformistas... por fim conservadores. E nosespantamos quando os explorados não reconhecem mais nosso discurso, e menosainda nossos governos.

Perdida a utopia fundante, a esquerda se queda no desamparoideológico, e assim se descobre à mercê do discurso que nega e que ao mesmotempo a nega. No governo, é presa do neoliberalismo.

Disfunções à parte, a grande vitória do capitalismo se deu ese renova no plano político-ideológico: a adoção de seus valores por aquelesque deveriam combater esse sistema iníquo. No rasto dessa vitória caminha adireita, com suas expressões distintas entre em si, porém irmãs: aquela que“joga dentro das quatro linhas”, e assim se apresenta como civilizada, e atresloucada, que atinge sua máxima expressão na figura do capitão delinquente esua súcia de assassinos.

***

Quem se trumbica? — Durante a ditadura militar instalada em1º de abril de 1964, os militares impunham severa censura aos jornais, quereagiam publicando receitas de bolo nas primeiras páginas, para sinalizar aopúblico que estavam sob o jugo do arbítrio. Hoje, com o mundo em convulsão e aaprovação do governo em queda, os anódinos bolos voltam a ser destaque — agorana comunicação oficial. Com a palavra, os exegetas.

Por: Roberto Amaral.

* Com a colaboração de Pedro Amaral.

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