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Como deter o avanço da direita?

Como deter o avanço da direita?

02/03/2025 07h47 Atualizada há 1 ano atrás
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Como deter o avanço da direita?

Os números das eleições parlamentares da Alemanha confirmamo cenário antevisto pela unanimidade dos analistas, tão claras eram asevidências do crescimento da extrema-direita e do neonazismo, que lá floresceupara incendiar o mundo e construir uma era de horror. Agora, com matizestirados da modernidade, ressurge ameaçador, empolgando majoritariamente aEuropa Ocidental, em crise econômica, política e mesmo de identidade. Oneonazismo é uma doença que nem a guerra, nem a fome, nem a barbárie dos camposde concentração conseguiram erradicar. Nascida com a crise de 1929-1930,recrudesce com o esgotamento capitalista e a falência das alternativas até aquicogitadas.

O capitalismo, além de dominar o aparato militar, avançasobre corações e mentes: o Estado de bem-estar social, promessa dasocial-democracia do pós-guerra, foi substituído pelo neoliberalismo. Oindivíduo toma o lugar da sociedade. Os EUA, em declínio, reivindicam aunipolaridade, e o trumpismo vitorioso é a voz da “nova” ordem mundial:belicismo, intolerância, expansionismo, avanço do sionismo, nacionalismoexcludente, racismo desabrido.

A ascensão de Hitler em 1933 foi alimentada pela criseeconômica que chegara ao seu clímax em 1930, mas foi facilitada pelo recuo dasocial-democracia. Doutrinariamente oportunista, essa corrente viu na ascensãodo futuro Führer um meio de derrotar seus inimigos figadais: os comunistas.Hitler esmagou a ambos.

O fracasso do governo de centro-esquerda (SPD) semeou ocrescimento dos neonazistas nas eleições deste ano, assegurando à AfD seuresultado mais expressivo desde sua fundação, em 2013, e garantindo o retornoda direita (CDU/CSU) ao posto que Angela Merkel controlou durante dezesseisanos.

A direita capitaliza as frustrações populares.

As eleições alemãs expuseram, mais uma vez, o avanço dasforças reacionárias caminhando pelo terreno deixado livre pela esquerdatradicional.

Quando um lado recua incondicionalmente e não como condiçãopreparatória para o ataque, esse movimento deixa de ser tático: cada recuotorna-se condicionante do próximo. O outro lado, em contraste, negocia cadarecuo seu; recua quando é necessário, taticamente, para evitar ou minimizarperdas – ou ainda para tomar impulso e voltar a avançar.

Quando as tropas russas de Kutouzov, na campanha de 1812,abriram caminho para o ingresso do exército napoleônico, não estavam de fatorecuando, mas se preparando para uma ofensiva: a Batalha de Borodino.Derrotados no front de Stalingrado, em 1943, os exércitos nazistas recuavam sobo peso da grande derrota. Não era um recuo tático, desejado como artimanha, maso fim da linha.

Em 1938, no regresso a Londres após o Acordo de Munique,Neville Chamberlain, primeiro-ministro britânico, declarava que a Europa haviaconquistado a paz. Mas os fatos mostrariam que a capitulação do Reino Unidosimplesmente oferecia mais tempo ao nazismo para preparar-se para a guerra. Jáno ano seguinte, a Alemanha avançava sobre os Sudetos, na entãoTchecoslováquia. O que se seguiu é conhecido.

Nossa história também registra uma sucessão de recuosaparentemente táticos que se converteram em derrotas estratégicas. Nacontemporaneidade, é exemplar o recuo das forças progressistas em 1961, aoconcordarem com a reforma constitucional negociada entre Tancredo Neves e osmilitares sediciosos, que esvaziava os poderes do presidente da República,quando a nação, de pé e nas ruas, clamava por avanço. Ali, com nosso recuo,começava a construção do golpe de 1964 e o avanço da direita comandado pelasbaionetas.

O crescimento da direita, onda que percorre o mundo, é frutoda crise do capitalismo (como nos anos 1920-1940) somada ao desencanto dasgrandes massas com governos de esquerda e centro-esquerda que falham emresolver seus problemas. O quadro se agrava quando a esquerda abdica da lutaconcreta.

Nas últimas eleições alemãs, confirmando todos osprognósticos, o fracasso do governo da social-democracia de Scholz foi o outrolado do assustador crescimento da direita, que agora chega também à América doSul e se instala confortavelmente entre nós, alimentada pelos primeiros passosdo trumpismo arrogante no governo do mais poderoso e belicoso império moderno.A direita de Friedrich Merz (CDU/CSU) e Merkel (que governou entre 2005 e 2021)sagrou-se majoritária, com 28,6% dos votos, os quais, somados aos 20,8%conquistados pela direita fascista (AfD), totalizam 49% dos votos e dascadeiras no Parlamento. O nome do novo primeiro-ministro já foi anunciado:Friedrich Merz, líder da CDU.

Se a grande vitória sorriu para a direita, o grande perdedorfoi o SPD, partido da social-democracia, até aqui liderado por Olaf Scholz, queobteve apenas 16,4%, uma queda vertiginosa de 50% em relação à última eleição.Outro partido que perdeu substância eleitoral foi o Grüne (Verdes), que maisdefinha quanto mais se aproxima da direita. Obteve 8,8% dos votos, uma queda de38% em comparação com os números de 2021. Se somarmos os votos da direitatradicional (CDU/CSU), liderada por Friedrich Merz (28,6%), aos votos dados àextrema-direita neonazista da AfD, liderada por Alice Weidel (20,8%), vemos que49,2% do eleitorado alemão se alinhou com a direita e extrema-direita nestaeleição. A direita nazista obteve seus maiores ganhos na antiga RDA, e no Oesteda RFA, sua área mais pobre.

Seria bom que a esquerda brasileira se pusesse a pensarsobre esses números.

Entretanto, é preciso registrar que a extrema-direita teveum grande salto: cresceu nada menos que 79,5% no apoio do eleitorado, dobrandosua bancada no Bundestag. E a esquerda? O Die Linke, apesar de possuir, ainda,uma pequena bancada, cresceu 41%. Aliás, nesta eleição, cresceram apenas aextrema-direita (AfD) e a esquerda socialista (o citado Die Linke), ou seja, asforças que não tomaram emprestado ao adversário seus programas.

Entre nós, o crescimento da direita – e, consequentemente, acrise das esquerdas – é uma constante desde julho de 2013. Desde então, aperplexidade domina as reflexões. Em 2022, um grande arco de alianças permitiu,com dificuldade, deter o avanço do neofascismo com a eleição de Lula, mas nãoofereceu meios para a construção de uma maioria política. E a intentona dejaneiro de 2023 (ainda não totalmente desvelada) demonstra o nível deinfiltração do extremismo de direita nas estruturas do Estado, a começar pelasforças armadas.

Nas eleições que garantiram o retorno de Lula à Presidência,o candidato da direita obteve, no segundo turno, 49,1% dos votos. A esquerdafoi derrotada na maioria dos governos estaduais que disputou, perdeu naseleições para a Câmara dos Deputados (80 cadeiras num coletivo de 513) e noSenado conquistou apenas seis das 27 em disputa. Assim, o governo nasceminoritário e refém de uma aliança parlamentar conservadora, na qualfisiologismo é mato. Esse arranjo instala, sem reforma constitucional e semconsulta à soberania popular, um estranho “presidencialismo”, mais quemitigado, no qual o Congresso controla a governança por meio do controle daelaboração do orçamento da União e da aplicação das verbas públicas (pela qualnão tem, contudo, qualquer responsabilidade) por um sistema esdrúxulo deemendas.

Limitado politicamente e condicionado pela maioriaconservadora tanto do ponto de vista político quanto programático, o nosso é umgoverno ainda – ainda! – indefinido. Não podendo ser um projeto decentro-esquerda, trata-se de um governo por ser – e cada vez mais próximo de umpleito decisivo para os rumos do país.

As pesquisas de opinião pública registram a desaprovação dogoverno, a queda da popularidade de Lula e a ascendência do pensamento dedireita, que já se fazia sentir desde as eleições de 2018. Essas mesmaspesquisas (vide 163ª Pesquisa CNT de Opinião, 24/02/2025) mostram que 31,8% doeleitorado se declara de direita, 18,8% de esquerda e 16,3% “de centro,centro-direita e centro-esquerda”. Agora, são os números que expõem a disputaque não conseguimos enfrentar: a batalha ideológica, a construção de um pensamentopróprio e a defesa de nossas teses.

Uma das formas de ajudar o governo a sair das cordas é aesquerda retomar o proselitismo e assumir a ação política. Uma das formas de ogoverno ajudar a esquerda e o movimento democrático-progressista de um modogeral é abandonar o taticismo estéril, o enredamento numa governabilidadeduvidosa, e construir um projeto estratégico claro. A experiência mostra quejamais avançamos – e jamais avançaremos – governados no pensamento e na açãopor um projeto de conciliação. Este tem sido o principal instrumento ideológicoda classe dominante para a conservação do statu quo, do qual depende suasobrevivência. Mas a esquerda deve ser, sempre, movimento, ação e mudança.

Há sempre uma esperança. Desta vez, precisamos olhar para ofracasso da centro-esquerda alemã, considerar a ascensão (embora severina) daesquerda socialista (buscando entendê-la), arregaçar as mangas e focar noenfrentamento à direita, com discurso e organização adequados.

Temporão tem razão

De tão anunciada, a demissão da ministra Nísia Trindadechegou sem surpresa. É lamentável, porém, que o governo, em meio a uma crisepolítica que acentua dificuldades funcionais de origem – tanto mais gravesquanto mais nos aproximamos de um ano eleitoral crucial –, resolva se desfazerde uma profissional honrada e competente, e o faça da forma a mais deselegante:a velha “fritura”, nada republicana e nada leal.

A fritura de Nísia durou o tempo de sua gestão à frente daPasta, iniciada pelo chamado “Centrão”, que vê os recursos públicos como presa,e o Ministério como uma mina de ouro. É de lamentar mais esse equívoco, poistorcemos e trabalhamos para que o governo – necessidade urgente da democracia –se reencontre com seus objetivos e descubra, a tempo de se salvar, o destinoque precisa perseguir.

Com essa demissão, agravada em seu aspecto negativo pelaforma como foi levada a cabo, o governo inicia mal a reforma ministerialanunciada para dar mais eficiência à administração e facilitar as negociaçõescom o Congresso – seu consócio nada republicano, onde é minoria mínima,conformada com seus limites.

A forma engendrada pelo Planalto para despachar a honradapesquisadora não é apenas cruel, pois é, antes de tudo – repito –antirrepublicana. Ademais, representa mais um recuo do governo, e deve estarsendo festejada pelo Centrão, que sempre desejou ver a ministra pelas costas.Ainda assim, o cargo retorna ao guarda-chuva do PT e passa a ser operado por umquadro experiente, inclusive no relacionamento com a pequena política: umex-parlamentar e ex-ministro da Saúde que, até ontem, era o responsável pelas difíceis(para dizer o mínimo) relações do governo com o Congresso e os partidos.

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Horror cotidiano – Igor Melo, estudante de jornalismo efuncionário de uma boate, voltava para casa de Moto Uber, no bairro da Penha(Rio de Janeiro), quando foi alvejado nas costas por um policial militar que otomou por um ladrão – e julgou poder abatê-lo à queima-roupa, prendendo ocondutor. O leitor já adivinhou a cor da pele de Igor, que segue internado,tendo perdido um rim. Enquanto a democracia não valer para todos, continuarátendo bases fragilíssimas.

Mordidas do atraso – Recentemente, os gigantes do agro – nemtodos adimplentes com a União – chiaram, e, como seu chiado se faz ouvir, emBrasília, mais alto que o de grande parte da cidadania, rapidamente obtiveramdo governo federal a bagatela de R$ 4 bilhões, a título de"adiantamento" do generosíssimo Plano Safra 2024/25. Não é poucacoisa: o agrado equivale à quase totalidade do valor alocado para o ProgramaNacional de Alimentação Escolar (PNAE), uma das políticas públicas maisimportantes do país; supera o destinado ao Farmácia Popular e equivale a 8vezes o que o SUS teve de desembolsar em demandas judiciais em 2023.

Que país queremos? – “Gastos com PPPs viram prioritários emOrçamento do governo federal – Dispositivo na LDO dá preferência a despesas dosministérios com parcerias, que ficam menos sujeitas a contingenciamentos”(Folha de S. Paulo, 27/02/2025). A pergunta que não pode calar é: por quê? Aque projeto de país atende a decomposição do Estado, levada a cabo por FHC,Temer e Bolsonaro?

 Por: Roberto Amaral.

*Com a colaboração de Pedro Amaral.

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