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A ascensão fascista e o refluxo das esquerdas

A ascensão fascista e o refluxo das esquerdas

15/03/2025 20h34 Atualizada há 1 ano atrás
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A ascensão fascista e o refluxo das esquerdas

“Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos epersonagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assimdizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira como tragédia, asegunda como farsa.”

(Karl Marx, O 18 brumário de Luís Bonaparte).

A catástrofe que se aproxima a olhos vistos pode ser o preçocobrado pelo encontro da crise do capitalismo com a disputa comercial-militardos grandes blocos pela hegemonia planetária, presentemente mais aguda, emboraas opções que dividem o mundo não mais girem em torno de utopias. Hoje, comosempre, o belicismo é o segundo momento das crises cíclicas do capitalismo,incapaz de superar os problemas econômicos e sociais que ele próprio gera, eainda incapaz de construir uma alternativa à disputa intra-hegemônica. Oesvaziamento político-econômico da antiga Europa Ocidental – e, no mesmoembalo, a falência das democracias ditas liberais – associa-se à aceleradadecadência dos EUA (a grande máquina econômica, política e militar docapitalismo) vis-à-vis à ascensão econômica e estratégica da Eurásia, sob aliderança de uma China que chega aos nossos dias como potência econômica,militar e tecnológica.

O Ocidente e o capitalismo se abraçam em uma crise comum semretorno, e o caminho que constroem, hoje repetindo o passado, é o da violência.A reassunção fascista é uma exigência do capitalismo em crise, e a paranoia éuma necessidade do fascismo.

Se Hegel e Marx estiverem certos, devemos olhar com muitaatenção para a história das primeiras décadas do século passado, pois,conhecendo bem a tessitura histórico-social do horror que foi a emergência dofascismo na Europa, talvez possamos reencontrar engenho e arte para que, nãopodendo impedir que a história se repita, ao menos possamos evitar que, nessasegunda vez, ela não nos chegue como uma nova tragédia. Embora nada nosestimule à crença de que algo que desponta à luz do sol sugira uma farsa.

O fascismo, claro está, jamais foi um produto de geraçãoespontânea. Como fato histórico, é fruto do processo social. Cuidemos dele.

O pano de fundo da ascensão do fascismo no século passadofoi a crise econômica que abalou essencialmente o capitalismo e a Europa nopós-Primeira Guerra Mundial, cujo clímax se deu com a Grande Depressão de 1929e seu rasto de inflação, desindustrialização e desemprego – ingredientes ativosdas crises social e política nas quais se alimentam as propostas autoritárias.Na Alemanha, a tudo isso se somou o trauma da derrota de 1918 e as pesadaspenas impostas pelo leonino Tratado de Versalhes (1919), preparando o terrenopara a semeadura do ódio e do medo, insumos essenciais do fascismo, ao lado dacelebração da violência e da morte.

Mussolini e Hitler (deixando a lição para seus cireneus)souberam explorar a insatisfação das massas diante da precarização dascondições de vida, agravadas pela conivência dos conservadores e das forçasmilitares, e gáudio da grande indústria bélica, que volta a ser estimulada pelotrumpismo sem peias.

Breve, breve a União Europeia será um só e caríssimo barrilde pólvora.

A crise econômica pôs em evidência a incapacidade dosgovernos sociais-democratas e liberais de enfrentarem o desafio da crise sociale política. Essa incapacidade se conserva historicamente e, ano após ano,pavimenta os caminhos por onde transitam as experiências autoritárias. Agoramesmo, na história presente da Alemanha, o fragoroso fracasso do governo do SPDabriu caminho para a ascensão da direita fascista (AfD). De resto, os governosditos democráticos, repetindo erros do passado, não estão conseguindo responderàs expectativas das populações, e o modelo de democracia liberal-ocidentalpadece seu esgotamento. O resto não passa de consequência que a nenhumobservador pode surpreender.

Na Alemanha, derrete-se a República de Weimar quando Hitleré nomeado chanceler pelo presidente Hindenburg, em 1933. De recuo em recuo, esempre com medo da reação das massas, o rei Emanuel III termina por ceder opoder a Mussolini, nomeando-o primeiro-ministro em 1922. A Itália, apesar deser uma das potências vencedoras da guerra, também enfrentava uma crise sociale política, agravada pelo fracasso da monarquia. Com ela sucumbiria ademocracia liberal burguesa. Morria a política, e essa morte, como sempre,alimentaria os surtos fascistas, protofascistas e autoritários que percorrerama Europa – Portugal e Espanha se somaram à Alemanha e à Itália na opçãoautoritária – e se aninharam no Japão da dinastia Hirohito, nacionalista,autoritária e militarista. No Brasil, o autoritarismo chega em 1937 com aditadura varguista do Estado Novo, acusada de simpatias com o Reich e, deinício, apoiada pelos integralistas, até pelo menos a intentona de 1938.

O discurso, na Alemanha, na Itália e no Japão de antanho (enos EUA de hoje), é a promessa de reconstrução da “grandeza nacional” e arestauração do poder militar, o que comove tanto as massas quanto os grandesempresários, que anteveem negócios vultosos. Esses não perderão a guerra que osEUA já perderam. Jamais perdem com as guerras, e seus interesses nunca seconfundem com os interesses dos países nos quais atuam ou dos quais sãofornecedores. A Fiat, como a Olivetti e a Piaggio (Vespa), fundamentais no esforçode guerra 80 anos atrás, estão no mercado internacional ao lado das alemãsVolkswagen, Mercedes-Benz, Siemens, BMW e Bayer, todas presentes em nosso dia adia.

Mussolini prometia restaurar a ordem, combater o comunismo erecuperar a grandeza italiana. Hitler acenava com o Terceiro Reich. O leitmotivque empolga a todos é o retorno aos tempos de glória, que, passados cem anos,Trump recuperará com o slogan Make America Great Again, o ímã de seu retorno àpresidência, pateticamente entoado pela extrema-direita brasileira, insuperávelem sua vira-latice.

Afastando-se de suas fontes, o neofascismo brasileiro, longedo nacionalismo entoado na Alemanha e na Itália, assumirá sem receios umprograma antinacionalista e de absoluta dependência dos interesses econômicos,políticos e estratégicos de Washington. Mas retoma a tradição fascista aoabsorver a ideia de que a destruição deve preceder a reconstrução da sociedadeem novas bases. Em Nova York, pouco antes de tomar posse na presidência, ocapitão declarou: “O Brasil não é um terreno aberto onde nós pretendemosconstruir coisas para o nosso povo. Nós temos é que desconstruir muita coisa.Desfazer muita coisa. Para depois nós começarmos a fazer.”

Ou seja, tomar o poder para destruir o sistema – o objetivodo bolsonarismo com a intentona frustrada de janeiro de 2023. Continuavaseguindo os passos de seus epígonos. Tanto Mussolini quanto Hitler chegaram aopoder segundo as regras do sistema, que, na primeira oportunidade, destruírampara construir sobre seus escombros o fascismo.

O fascismo (uma necessidade do capitalismo) precisa de umgrande inimigo, e o fascista precisa odiar e espalhar o medo. Hitler investiucontra judeus, comunistas e ciganos. Mussolini proclamou os comunistas inimigosdo novo regime. Trump berra contra os imigrantes. O hitlerismo, por alegadasrazões racistas, econômicas e estratégicas, levou a cabo o expansionismoterritorial (Lebensraum) e, em nome dele, anexou a Áustria, invadiu aTchecoslováquia e ocupou a Polônia. Trump – herdeiro ideológico-político do autocrataque os Aliados lograram derrotar a um custo humano incalculável – começa seugoverno prometendo transformar o Canadá no 51º estado dos EUA e anexar aGroenlândia, pertencente à Dinamarca.

A ascensão do trumpismo não se deve a um surto patológico doeleitorado. Ele é o produto de um processo histórico e o sinal mais evidente dacrise política do grande império, finalmente consciente de sua decadência.Trump é política e ideologicamente tão representativo da sociedadenorte-americana quanto a apple pie. Como seus modelos, ele se vê como umsemideus e sonha com o trono, o cetro e a coroa de Rei do Mundo.

Ainda não estamos vacinados contra a expansão do extremismode direita, e ela mal foi contida em janeiro de 2023 para, já nas eleições de2024, pôr a nu o enraizamento da direita e do neofascismo na sociedadebrasileira.

Não são de lago sereno as vagas que aguardam a defesa danossa frágil democracia. Assustando-nos com as lembranças do passado, o fatoobjetivo é que nossos governos, os governos que se colocam à esquerda da ameaçafascista, a começar pelo governo federal, não estão conseguindo responder aodesafio histórico, o que pode ajudar a explicar a crise política e o crescenteafastamento de suas bases populares. A história antecipou no século passado oque se pode esperar de tal cenário, principalmente quando consideramos asdificuldades crescentes do governo Lula e o refluxo político e estratégicodaquelas antigas forças políticas identificadas como as esquerdas brasileiras.

***

Aceno aos deserdados – Na última semana, o presidente Lulaanunciou a destinação de 12.297 lotes para famílias acampadas em 138assentamentos rurais, totalizando 385 mil hectares espalhados por quase todasas unidades da federação. É pouco: os números atendem a menos de 10% da demandaimediata por assentamentos. De todo modo, ainda que lenta e tardia, amovimentação do governo em direção à reforma agrária de que o país tãodramaticamente necessita é muito bem-vinda, inclusive por apontar um caminhoefetivo para a contenção dos preços dos alimentos e o enfrentamento deproblemas estruturais – como a fome, a insegurança alimentar, a desigualdade ea crise ambiental – que até hoje impedem o Brasil de se tornar o grande paísque precisa vir a ser.

O mantra do ajuste fiscal – A direita, pela voz da aindachamada “grande imprensa”, anuncia o risco do crescimento da inflação,atribuindo-o à defasagem entre a demanda do mercado e a capacidade de oferta daeconomia. Esse desencontro decorre do crescimento econômico, que resulta noaumento da capacidade de consumo da população – um dos frutos da elevação doPIB em 2024, para o qual a Faria Lima torce o nariz. Nesse contexto, se alógica fosse soberana, o combate ao aumento dos preços se daria por meio da ampliaçãoda capacidade produtiva do país. No entanto, essa alternativa está vedada, poistal crescimento depende diretamente do aumento dos investimentos no setorprodutivo. Mas esses investimentos estão travados: os públicos, pelo ajustefiscal imposto como um verdadeiro mantra (um auto de fé que dispensademonstração), e os privados, pelo aumento dos juros, que encarece o custo docapital.

O mantra II – A alternativa para evitar a inflação, então,passa a ser simplesmente não crescer – num país com a gigantesca dívida socialque conhecemos. Assim, em vez de saudarmos o crescimento do PIB – algo desejadopor todas as sociedades razoavelmente lúcidas –, devemos lamentá-lo. E viva oatraso que nos é imposto pelos velhos Chicago boys!

Cambalaches da banca – O dito “mercado” – tendo comoporta-voz, hoje e sempre, os envilecidos jornalões – passou meses elogiando aspolíticas implementadas pelo bufão neofascista Javier Milei na vizinhaArgentina, pontificando que os hermanos estavam “no caminho certo”. A violentarepressão policial a um protesto de aposentados e torcidas organizadas, quetransformou o centro de Buenos Aires numa praça de guerra na últimaquarta-feira, é mais uma demonstração de que os próceres da especulaçãofinanceira – com seus “humores” e preconceitos ideológicos – deveriam sertratados por todos nós com muito menor reverência.

Eles não estão mais lá – Na tentativa de pegar carona nosucesso político de Ainda estou aqui, um grupo sionista denominado Stand WithUs publicou nos jornalões brasileiros uma matéria publicitária que, encimandoas fotos coloridas de 54 prisioneiros do Hamas, anunciava: “Eles ainda estãolá.” Lamentavelmente, o mesmo não se pode dizer dos mais de 50 mil civispalestinos assassinados pelo enclave sionista, armado, financiado e apoiadopoliticamente pelos EUA, sob governos democratas e republicanos. Também Gazanão está mais lá: hoje é só escombros.

 Por: Roberto Amaral.

*Com a colaboração de Pedro Amaral.

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