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É preciso sair do imobilismo

É preciso sair do imobilismo

11/04/2025 07h23 Atualizada há 1 ano atrás
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É preciso sair do imobilismo

Estamos a 61 anos do golpe de 1º de abril de 1964, e a 40anos do fim da ditadura. Mesmo após a reconstitucionalização, o regimecastrense sobreviveu como bedel do país democratizado. Graças a um pactotransacionado nos salões de Brasília, imunes aos sons do povo nas ruas,elegemos Tancredo Neves para dar posse a José Sarney, o último grande lídercivil do partido da ditadura. Assim, ingressamos na frustrada “Nova República”e chegamos à Constituinte de 1988, condicionada pela concordata com os militares— acordo que compreendia veto à Constituinte ordinária (que nos permitiriapassar o país a limpo), veto à revisão da anistia capenga (que só beneficiavaos criminosos), veto ao julgamento dos crimes da caserna e, cereja do bolo, oinfame art. 142, ditado pelo general Pires Gonçalves, estafeta designado pelacaserna para vigiar os trabalhos dos parlamentares. Foi assim que nasceu a“Constituição Cidadã” do dr. Ulysses, um belo projeto que vem sendocontinuadamente desconstituído, dilapidado — seja pelo neoliberalismo voraz,seja pela direita em seu largo espectro.

Há sempre um ponto de partida, por óbvio, para a análise doprocesso histórico, e o nosso é o mantra da conciliação — pai e mãe daimpunidade, pai e mãe de todos os golpes intentados e perpetrados contra ademocracia. Otávio Mangabeira, falando nos tempos em que os liberais tinham oque dizer, comparava a democracia a uma “planta tenra que precisa ser regadatodos os dias para que não morra”, porque entre nós — ontem como hoje — ela éameaçada por um reacionarismo larvar, antissocial e antinacional, fundamentalmenteautoritário, velho como a Sé de Braga, porque nos persegue desde sempre e nãose desapega de nossa História, sustando o futuro. Como faz no momento presente.

Quando não apela à violência — como nos sucessivos golpes deEstado que fazem nossa história desde o nascimento do Império —, a classedominante impõe a conciliação, inventada para impedir não só qualquer arte deruptura, mas qualquer mudança — salvo aquela engendrada para que nada mude.

Ao sabor das circunstâncias, a vontade supostamentemajoritária da sociedade brasileira vinha mantendo de pé a luta democrática,respeitosa dos ritos e das regras do sistema, padecendo derrotas, mas aqui eali logrando, ainda que em vezes raras, algum progresso social — à mercê,porém, da maldição de recuar dois passos sempre que logra caminhar um à frente.

Passam as águas da política sob a ponte da história, masparece que foi ontem o golpe parlamentar de 2016, porque ainda convivemos comsuas consequências, que nos abraçam e nos ameaçam com sua presença numhorizonte a perder de vista — se nos faltarem as forças de que carecemos paraenfrentar a ofensiva política e organizacional da onda neofascista. Ou secontinuarmos, por falsa defesa, minimizando a letalidade do adversário. Aextrema-direita é articulada internacionalmente, inclusive por meio do ramo neopentecostal,mas outro erro fatal — embora fale ao espírito dos tíbios — é reduzir ofenômeno nacional (o progresso das legiões fascistas) a simples manifestação doquadro internacional, aguçado de último pela consagração norte-americana deTrump. É a teorização do “não há o que fazer”.

Em 1985, e mais ainda em 1988, pago o preço humanoconhecido, havíamos retomado os trilhos da democracia descarrilhada em 1964.Caminhamos segundo as regras da conciliação, mediante avanços e recuos — maisrecuos do que avanços (trágica sina!) — e chegámos a um estranho 2018, queainda não conseguimos explicar.

Segue-se, daquele então até aqui, uma penca de recuospolíticos, atingindo os interesses populares e restringindo os espaços — mesmoos mais formais — da democracia possível.

Ainda incomoda a persistente lembrança do quatriênio daextrema-direita — no poder pelo voto, em pleito legítimo —, e a intentona do 8de janeiro de 2023 veio lembrar, aos que têm olhos para ver o indesejável, oavanço do projeto de poder do fascismo caboclo. Trata-se de avanço notável, quese revela num plano de organização política e material, nacional einternacional, desconhecido entre nós, porque agora sustentado em basespopulares e eleitorais que falaram em 2018 e 2022 — e já rosnam olhando para 2026.

Frustrados os projetos da esquerda mais moderada (e já nãoregistro o arquivo a que foram condenadas as esperanças socialistas, sonho deuma militância em recesso), o presente nos assalta com maus presságios.

A eleição de Lula — pelos seus números e pelas dificuldadesda governança, que o passar do tempo só agrava — é ponto de alívio eadvertência, para nos ajudar a medir o tamanho e o peso do adversário que nãoensarilhou as armas. Não é uma posição de conforto. Ademais, é momento querequer reflexão.

Como, porém, conservar as posições atuais e avançar —conditio sine qua non para sua sobrevivência política — se o governo (fruto deuma coalizão eleitoralmente necessária, mas heterodoxa tanto do ponto de vistapolítico quanto ideológico) carece de um projeto político, regente de umprograma de governo? Se a política nacional, de um ponto de vista progressista,padece anomia letal? Se o chamado campo das esquerdas se imola na doença senildo imobilismo, cedendo espaços políticos e ideológicos às forças do atraso,deixando-nos como herança perversa a contingência de defensores dasinstituições e da ordem?

As contingências roubaram-nos o ardor revolucionário; umcerto oportunismo nos levou a esquecer nossas teses fundamentais — como adenúncia do sistema e a contestação da ordem. Mesmo a esquerda socialistaparece haver retirado de sua bandeira a denúncia da iniquidade que é ocapitalismo em si.

Não está mais no vocabulário da militância a miséria daexploração do trabalho.

Discutimos teses importadas de nossos adversários, cuidamosde ajuste fiscal. Pouco nos referimos à concentração de renda e, quando elaentra em nossos discursos, chega desapartada da indispensável denúncia de suascausas. Tratamos o fim da impunidade dos golpes — que pode mudar os rumos daRepública — como uma questão processual adstrita ao STF e ao seu plenário decapas pretas. Não vamos à rua para dar respaldo ao processo e não temos força(ou será ânimo?) para a mobilização popular contra a impunidade, ora batizadade “anistia”.

Os riscos são os de sempre. A caserna se conserva comoinstrumento de conservação do statu quo, mas o cenário de hoje — agravado peloquadro internacional — lembra os riscos de 1937 e 1964. Não há propriamenteincompletudes, mas há muito o que fazer. E o fazer é resistir para avançar,olhando para o grande objetivo: retomar o comando do processo histórico.

Aliás, a história da democracia na República não é um lagosereno. Jamais foi. Sérgio Buarque de Holanda já nos disse que “a democraciaentre nós foi sempre um mal-entendido” — e ele se referia à democraciapolítica. A democracia social, aquela que deve ser o leitmotiv da esquerda, nãoé entre nós apenas um mal-entendido, mas o fantasma que a classe dominanteforceja por exorcizar — sem  medir  o preço a pagar, mormente agora, quando suasvelas são enfunadas pelo vento quente que nos chega dos EUA, animando osreacionários de todos os naipes, no mundo inteiro.

 

A batalha de Glauber Braga na Câmara

 

Prepara-se, na pior legislatura da história da Câmara dosDeputados, um dos mais graves atentados contra a democracia e contra oprincípio que a justifica: a soberania popular. No chamado Conselho de Ética —chorume político-parlamentar que nos avilta — articula-se a cassaçãoencomendada do mandato do deputado fluminense Glauber Braga.

As razões são as do lobo, consagradas na fábula de LaFontaine. A motivação — mais que tudo uma vendeta — é política. Mas trata-se dapequena política, da política de várzea, que expressa interesses mesquinhos einconfessáveis dos “coronéis” de paletó e gravata e da direita de todos osjaezes, grupos e grupelhos que infestam e controlam o poder legislativo,abastardando-o. É a política do atraso: atraso econômico,  atraso social,  atraso ético e aviltamento moral; a políticaque se alimenta do “orçamento secreto”, da manipulação de verbas públicasdenunciada por Glauber Braga, da orgia das emendas parlamentares destinadas afins inconfessáveis — mas conhecidos pelo país —, como o enriquecimento ilícitode agentes públicos.

É o usufruto de recursos para obras públicas nuncarealizadas (ou jamais concluídas), mas pagas pelo erário, pois sua realfinalidade é financiar projetos eleitorais. É a pequena política da advocaciaadministrativa, levada a cabo por deputados-procuradores e lobistas deinteresses privados. É o tráfico de influência, a deslavada manipulação deverbas públicas — instrumento superior do envilecimento da política.

A tudo isso Glauber Braga oferece um combate firme, semquartel. E esse combate, feito de peito aberto, pode custar-lhe o mandato.

No Brasil que já aspirou à modernidade, o campeão de hoje éo patrimonialismo associado à política dos rincões. É o Centrão — um valhacoutode políticos marginais (embora bem-sucedidos nos negócios e na traficância) —que governa a Câmara, seu redil controlado a rédeas curtas. Pois é essa súciaque  lança mão de todas as armas paracassar o mandato do deputado fluminense e expeli-lo da política, com umainelegibilidade adicional de oito anos.

Glauber está há cerca de um ano sendo processado no referidocolegiado Câmara dos Deputados — agora já com a aprovação do parecer escritopara ser lido pelo relator: um pobre, mas perigoso zé-ninguém, criado pelovelho carlismo, que propõe a cassação de seu mandato. O pretexto acusatório éuma reação passada do parlamentar que, seguidamente agredido por um trânsfugaassalariado da extrema-direita, expulsou das dependências da Câmara essemeliante — usando a força necessária. Glauber reagiu à baixaria quando, além deagredido em sua integridade política e moral, viu a agressão estender-se — emnível abjeto, o natural dos fascistas — contra sua mãe, um raro exemplo depolítica e administradora proba, já bastante doente, vítima de Alzheimeravançado. Saudade Braga viria a falecer poucos dias após a agressão sofridapelo filho.

Pois o pobre diabo que leu como seu o relatório pedindo acassação do mandato de Glauber Braga é o mesmo que, no recinto da Câmara,agrediu fisicamente um escritor que ali lançava um livro tido como desairoso aocacique Antônio Carlos Magalhães — tio e mentor do hoje relator.

O Conselho aprovou o relatório espúrio, que será afinalsubmetido ao Plenário — quando decidir o presidente da Câmara (pau mandado doantecessor), isto é, quando estiverem somados e contados os votos necessários àsua aprovação. A cassação será também um aviso, que dirá ao coletivo de quelado está a força do arbítrio. E assim será, se essa violência não forrepudiada pelo conjunto da Casa, pressionada pela sociedade.

Por: Roberto Amaral.

* Com a colaboração de Pedro Amaral

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