— Glauber Braga
É a resposta do atraso às denúncias de Glauber Braga contraa corrupção desavergonhada do “orçamento secreto” (afinal derrubado pelo STF) eda criminosa manipulação dos recursos públicos mediante as chamadas emendasparlamentares, que beiram uma sangria de recursos na casa dos R$ 57 bilhõesdestinados a obras que ora não começam, ora não são concluídas — recursos que,no entanto, sempre são consumidos.
Farra dos recursos da União, do contribuinte, a qual, àmargem do controle político-judicial, assegura o mandonismo dos potentadoslocais e a renovação dos mandatos de seus delegados e procuradores na Câmarados Deputados. É uma troca de favores remunerados pelo bem público que lembra atraficância: o prefeito elege o deputado, que retribui com a dotação de verbasfederais que, por sua vez, levarão o alcaide a reeleger-se.
É a roda da política que está na raiz do escândalo dasopacas emendas parlamentares, assim como são administradas, majoritariamente nacontramão do interesse público e atendendo a projetos qe seus autores não podemconfessar.
Se o objetivo da trama fascista fosse tão só a cassação domandato do deputado — e já não se trataria de pouca coisa —, a jogada já seriauma ignominiosa vindita de uma súcia flagrada com a mão na botija. Mas essavingança, ainda em marcha, não encerra a história toda, pois igualmente seabate contra Glauber a mão pesada do consórcio fascismo-neoliberalismo que,ceifando-o da vida política, como pretende, dará grave aviso à esquerda como umtodo. Assim, o poder real da instituição ditará os limites dentro dos quais éconsentida a atuação parlamentar desapartada dos interesses dominantes. Nestecaso, a punição, dirigindo-se aparentemente a um parlamentar — alvo para sertomado como exemplo do que deve ser evitado —, na verdade terminará por ameaçartodos os parlamentares.
O pau que bate em Chico bate também em Francisco.
Para além de Glauber, contudo, e (simbolizado por ele), doamplo campo da esquerda, a grande vítima, ao fim e ao cabo, será a própriademocracia representativa, cuja sobrevivência é incompatível com aautoflagelação moral do Poder Legislativo.
Com isto não se importam os neofascistas e não parece seimportar a direita como um todo, mas deveriam estar preocupados os democratas.Aos democratas de hoje, muitos se deixando embriagar pelos arreganhos dadireita, lembramos que a quebra da ordem democrática de 1946, por muitosdefendida nos idos de 1964, terminou por ceifar a todos, sem olhos paraenxergar direita, centro e esquerda.
A cassação de Glauber Braga, se a sociedade brasileira não aimpedir, será registrada como um harakiri sem honra, anunciador do réquiem dademocracia que nosso povo vem tentando construir e conservar, já desiludido deaprofundá-la, desde quando viu apeada do poder, por fadiga, a ditadura de 1º deabril de 1964, que se abateu contra nosso povo, constrangendo a história,quando mais supúnhamos estar construindo uma sociedade política e socialmenteavançada.
Agora sabemos que a democracia é espécime em risco, poissobre seu futuro se abate o avanço da onda fascista, totalitária por essência,que se espalha pelo mundo como rastilho de pólvora, agora com o estímulopolítico, militar e financeiro do trumpismo — ameaça que já é fato em nossosubcontinente. Dessa ameaça já conhecemos seus objetivos e seus métodos com atrágica experiência bolsonarista, a peçonha que saltou do ovo e ainda não foiesmagada.
***
Para quem olha para o passado pensando no futuro — Em 1964,ano do último golpe militar, faziam oposição ao presidente João Goulart, entreoutros, os governadores do Rio Grande do Sul (Ildo Meneghetti); de São Paulo(Adhemar de Barros); do então estado da Guanabara (Carlos Lacerda) e de MinasGerais (Magalhães Pinto). Hoje, militam na oposição ao presidente Lula osgovernadores do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina, do Paraná, de São Paulo,do Rio de Janeiro, de Minas Gerais e de Goiás. Jango tinha maioria parlamentar,assegurada pelas bancadas do PTB e do PSD, as duas maiores do Congresso. Ogoverno Lula é minoritário nas duas casas.
Para quem mira o presente para ver o futuro — Com areeleição de Daniel Noboa no último domingo (13/04), fica claro o planoinclinado da direitização da América do Sul, o principal e mais estratégicoespaço de nossa política externa: à Argentina do trêfego Javier Milei, soma-seagora o Equador. E não é pouco, consideradas as turbulências no Peru e naBolívia, a insegurança política no Chile e na Colômbia (talvez os últimospalosda resistência da esquerda) e o desencontro com a Venezuela. Mais quenunca as circunstâncias e nossos interesses reclamam a política ativa e altiva,cunhada por Celso Amorim.
Por: Roberto Amaral.
Com a colaboração de Pedro Amaral.
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