Geral De

De Auschwitz a Gaza

De Auschwitz a Gaza

01/06/2025 13h47 Atualizada há 1 ano atrás
Por:
De Auschwitz a Gaza

Gaza foi transformada no maior campo de concentração a céuaberto jamais conhecido pela humanidade. Um inimaginável “corredor da morte”onde o povo palestino, mais da metade crianças, aguarda a condenação sem sursisditada pelo inimigo luciferino assustadoramente belicoso e perverso. E, namesma medida, covarde. O governo sionista de Israel promove, há meses, sob asvistas cegas da comunidade internacional, cínica, uma declarada limpeza étnica.Nesse verdadeiro “campo de concentração e extermínio” os desgraçados nãocaminham com seus próprios pés para as câmaras de gás a que eram condenadas asvítimas do nazismo: são destroçados pelas bombas do moderníssimo exército doEstado de Israel, fundado em 1947 sob os auspícios da ONU exatamente paragarantir um lar ao povo sobrevivente do holocausto. Como os judeus de ontem, ospalestinos de hoje não têm condições de defesa; mas sobre eles (como se a fome,o vilipêndio e o roubo de suas terras não fossem suficientes) um poderosoexército – aviões supersônicos, drones, mísseis, tanques de guerra e toda sortede artilharia – vomita bombas. Trata-se de um genocídio operado às claras e àsombra da iniquidade moral de uma comunidade internacional que a tudo assisteimpassível. Ao contrário dos prisioneiros do campo de concentração deAuschwitz, as vítimas de hoje não podem sonhar com a libertação do ExércitoVermelho, que em janeiro de 1945 avançou sobre a Polônia a caminho de Berlim.Ninguém marcha em seu socorro. Estão abandonadas “à própria sorte”, que se temrevelado madrasta.

Em 1947, a Palestina, então ocupada por 600 mil judeus e 1,3milhão de árabes (dos quais cerca de 700 mil palestinos foram expulsos), seriapartilhada para que ali se instalassem dois Estados, um judeu (o futuro Estadode Israel) e outro árabe. O primeiro se estabeleceu, e sabe-se o que é elehoje. O outro, passados 78 anos, aguarda o reconhecimento internacional que lheé negado. Lideram a recusa os EUA e sua coorte: Reino Unido, Alemanha e a maioria da União Europeia. Israel ocupa ebloqueia os territórios palestinos da Cisjordânia, de Jerusalém Oriental e deGaza, onde deita e rola desde a invasão de 1967, no curso da “Guerra dos SeisDias”. 

Os palestinos de Gaza são um povo cativo em país ocupadopara ser destruído, hermeticamente bloqueado, privado de combustível,eletricidade, água, alimentos e remédios, com sua infraestrutura civildestruída, as escolas postas abaixo, e os hospitais à mercê dos bombardeios. Asestimativas falam em algo como 35 e 45 mil vítimas civis. Mais de 15 milcrianças já morreram, e a ONU adverte que outras, mais de 15 ml bebês, aindapodem morrer se o governo de Israel continuar bloqueando a entrada de alimentose remédios. A propósito, o insuspeitíssimo Estadão (29/5/25), claramentevinculado aos interesses da direita internacional, reproduz matéria de agênciade notícias estrangeira sob o seguinte título: “Palestinos famintos invademcentro de distribuição de comida”. Abaixo estampa foto de multidão de jovens evelhos, todos famélicos, disputando uma cuia de farinha ou um naco de pão.

Enquanto a comunidade internacional se omite, e o sionismoaplaude os crimes de guerra, Ehud Olmert, ex-primeiro ministro de Israel(2006-2009), define a política sionista como “perversa, maliciosa eirresponsável”. É preciso ouvi-lo:

“Netanyahu, tipicamente, tenta obscurecer o tipo de ordensque vem dando, a fim de se esquivar de responsabilidade legal e criminal nodevido tempo. Mas alguns de seus lacaios dizem isso abertamente: ‘Sim, vamosmatar Gaza de fome’”. Acusa: “Israel está cometendo crimes de guerra”.

Ehud Olmert certamente identifica como lacaios do genocidapersonagens como o ex-ministro e ex-deputado e líder direitista Moshe Feiglin,fundador do Zehut. Vejamos o que declarou em entrevista ao Canal 14, datelevisão israelense:

“Toda criança, todo bebê em gaza é um inimigo. O inimigo nãoé o Hamas, nem a ala militar do Hamas. Toda criança em Gaza é um inimigo. Temosque conquistar Gaza e colonizá-la e não deixar uma só criança lá. E não háoutra vitória”.

O conteúdo do áudio foi registrado pelo The Guardian ecorreu o mundo, sem, contudo, despertar o menor interesse da grande imprensabrasileira.

Ao contrário dos nazistas, que tentavam esconder oholocausto, o genocídio levado a cabo contra os palestinos é escancarado,exposto ao mundo, tonitruado e exaltado pelos dirigentes de Israel e dos EUA, apotência imperial que lhes fornece apoio político, econômico, militar elogístico. Ao contrário do povo alemão, que alegava desconhecer os consabidoscrimes do nazismo, a população de Israel aplaude o genocídio. 

Segundo pesquisa encomendada pela Penn State University, eanalisada por Tamir Sorek, “82% dos judeus-israelenses apoiam a limpeza étnicade Gaza, enquanto 56% apoiam a expulsão de palestinos com cidadania israelense,comumente designados pelo léxico colonial como árabes-israelenses, e 47%concordam com a matança de palestinos em áreas conquistadas por Israel”. Avisão fundamentalista, messiânica e supremacista, todavia, não muda, quando,diz a pesquisa, é ouvido o público secular: “69% dos secularistas apoiam aexpulsão forçada dos moradores de Gaza, e 31% deles veem o extermínio dosmoradores de Jericó como um precedente que as Forças de Defesa de Israel (IDF,na sigla em inglês) deveriam adotar.”

Os últimos acontecimentos, porém, e o temor de que abarbárie sionista torne impossível o retorno dos reféns ainda nas mãos doHamas, podem mudar o quadro interno. Registram-se as primeiras reaçõespopulares contra os reiterados crimes de guerra do Estado sionista.Manifestações de protestos surgem em várias capitais europeias.

A tudo o que se sabe e não se pode mais ignorar, a imprensamaistream batiza de “a guerra de Gaza”, como se estivéssemos em face doconfronto entre dois exércitos. Assim participa da “guerra”, manipulando ainformação, uma de suas frentes mais importantes. Ecoa a narrativa ideológicaque interessa a sionismo, e ainda distorce ao reiterar que as ações militarestêm os guerrilheiros do Hamas como alvo, quando qualquer análise fria põe a nuque o objeto dos massacres é uma hedionda limpeza étnica. É preciso denunciar erepetir à exaustão.

Agências internacionais, em meados deste maio, estimavamalgo entre 35 e 40 mil como o número de vítimas civis fatais em Gaza. Ainda éimpossível calcular o número de feridos e mutilados e invalidados. Mas já sepode dizer que todos perderam seus bens e a cidade foi reduzida a nada. Onde jáse comemorou a vida, onde um dia foi possível acreditar no futuro, apostar nosonho de um novo lar, o sionismo construiu um grande túmulo; nele se misturamvidas mortas e ruínas. Os palestinos amargam a angústia de não saberem atéquando estarão vivos.

Nosso silêncio, nossa inação, como povo, como sociedade,como agentes políticos, o silêncio de nossas organizações, a apatia daacademia, o sono dos sindicatos, a miséria de nossos partidos, nossa pobrezarevolucionária, nosso recuo diante do establishment serão registrados pelaHistória como cumplicidade moral.

Do nosso governo é justo esperar algo mais que a justaretórica.

A miséria nazista, que atingiu de forma bruta e até entãoimpensável os judeus, os comunistas, os progressistas e o pensamento deesquerda de um modo geral, os homossexuais, os ciganos, os doentes mentais, osdissidentes – a miséria dos crimes de guerra cometidos na Segunda Guerra –, foicondenada tanto pela indignação ética do mundo que então se recompunha, quantopelo direito internacional, erguido pelo poder vencedor dos aliados. O direitocarece da força para se impor.  Quasetodos os criminosos de guerra do Eixo (afora os que se suicidaram, como Hitler)foram julgados e condenados pelo Tribunal de Nurenberg. Ocorre que oscriminosos de hoje são os que controlam a força que controla o direito.

Os crimes de guerra dos EUA no Vietnã foram julgados peloTribunal Russell. Na altura, era o máximo possível diante da potênciaguerreira. Não implicou consequências objetivas, não evitou novas invasões, nemnovas ocupações, nem novos crimes de guerra, mas, pelo menos, pode-se dizer quenossa consciência crítica, com aquele gesto de notável carga simbólica, rompeucom a inércia moral, e, não podendo intervir no processo histórico, deixamosnosso testemunho. A posteridade julgará os omissos.

Desprotegida do que ainda chamamos de civilização, que delase apartou, Gaza, vazia e morta, logo se transformará na formosa Riviera dossonhos imobiliários de Trump. Suas praias, nas margens orientais do Mar Negro,hoje interditadas, em breve estarão liberadas. Bem guardadas, serão desfrutadaspor brancos europeus, norte-americanos e israelenses endinheirados, livres depalestinos e dos pobres de um modo geral. Não será ainda o grande sonho, maspode ser a nano sugestão de uma terra prometida.

***

A miséria nossa de cada dia I – Se a sociedade se cala, oSenado Federal altera a voz. No último 20 de maio a chamada Câmara Altaaprovou, por injustificável unanimidade, isto é, com os votos dos partidosconhecidos como progressistas, projeto de lei que institui o dia 12 de abrilcomo o “Dia da Amizade Brasil-Israel”, que nunca esteve tão rala como agora. Eesmerou-se na escolha do pior momento, exatamente quando o Estado sionistaintensifica o genocídio de que é vítima o povo palestino. Resta saber se o presidenteda República terá força política para vetá-lo. Abraços ao sempre mestre PauloSérgio Pinheiro, que nos honrou com seu protesto.

A miséria nossa de cada dia II - O Senado se esmera noesforço por autodesqualificar-se. Isso não é bom para a República, nem muitomenos para a democracia, fundada na representação popular. No dia 27 de maio, aministra Marina Silva, do Meio Ambiente, compareceu à Comissão deInfraestrutura para discorrer sobre “a criação de unidade de conservaçãomarinha na margem equatorial do Amapá”. Abordou o tema requerido, mas por elenão se interessaram os senadores. Isso não lhes dizia respeito: o convite se converteraem mero despiste para uma cilada. Ao invés de debater com a Ministra, ossenadores, agindo como coletivo, partiram para o ataque gratuito, e aagrediram, no limite da ofensa física. Abusaram dos gritos, da tentativa dedesconstituição política e pessoal, abusaram dos insultos, mesmo daquelesdescabidos em roda de bar de beira de estrada. Abusaram da prepotênciamachista, da misoginia, do racismo e da exposição dos preconceitos os maisrepugnantes. Exaltaram-se na defesa lobista dos negócios de empreiteiras, doscapitães de motoserra e dos interesses inconfessáveis, mas conhecidos, que selevantam contra a proteção do meio-ambiente, que, ao fim e ao cabo, é a defesada vida. A comissão saiu-se mal, os senadores saíram-se mal (todos, osgrosseirões e os que fugiram da defesa da ministra), mas ela saiu-se muito bem,fez-se forte ante os que queriam enfraquecê-la; saiu limpa e digna como entrou.Fico de pé para aplaudir Marina Silva.

Enfim, há o que saudar – Em meio a tanto mal-estar, em meioao choro de saudade de tanta gente que partiu aumentando nosso vazio, há umaalegria por festejar: os prêmios de Kleber Mendonça e Wagner Moura, doisintelectuais comprometidos com a construção de uma nova ordem social.

Por: Roberto Amaral.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários