Geral Memórias

Memórias de uma geração que desafiou o poder e moldou Paulo Afonso

Memórias de uma geração que desafiou o poder e moldou Paulo Afonso

21/06/2025 18h42 Atualizada há 1 ano atrás
Por:
Memórias de uma geração que desafiou o poder e moldou Paulo Afonso

Gilberto Santana é um dos Revolucionários que esteve na festade confraternização do grupo de jovens que moldou a história e o futuro dacidade de Paulo Afonso na Bahia. Ele hoje mora em Juazeiro e viajar quatrocentosquilômetros de estrada sob o sol nordestino não são apenas distância. Foramfios que puxaram o novelo da história. Diante de olhos atentos, ele desembrulhoua saga coletiva de Paulo Afonso, uma cidade que um dia foi "partida aomeio por um esgoto", convivia com urubus e lixo, e viu nascer, do ventreda resistência, uma geração que ousou sonhar por justiça. Não apenas umarecordação. Sua fala foi um mapa do afeto e da luta que esculpiram a identidadede um lugar. 

A geração de 1978 não hesitou. Desafiou a polícia do"Antônio Carlos Malvadeza", enfrentou o temido batalhão de choque ese ergueu contra a estrutura política do poder estatal e da burguesia local. ACHESF, comandada por um coronel (Gabriel), era um estado dentro do estado, uma"democracia operária" sob controle militar. Foi nesse caldeirão quese forjou a estratégia: o populismo como ferramenta para a grande greve de1979. Pariu frutos: em 1980, nasceu a disputa pelo Sinergia; em 1981, oCongresso da Classe Trabalhadora; em 1982, a eleição livre que consagrou JoséIvaldo de Brito Ferreira como o mais votado da história local. Neste mesmo anofoi eleito Evandro Paiva, o primeiro vereador do Partido dos Trabalhadores noNordeste brasileiro. 

Os anos seguintes foram de construção. A UBES (UniãoBrasileira dos Estudantes Secundaristas) foi reconstruída em 1983, a CUT (CentralÚnica dos Trabalhadores) nasceu. Em 1984, Paulo Afonso ecoou com um dos maiorescomícios pelas "Diretas Já". Com a abertura política em 1985, acidade fez história novamente, elegendo Zé Ivaldo, então o prefeito mais jovemdo Brasil pelo MDB. Seu governo inovou: inaugurou o "governoparticipativo", uma experiência pioneira antes mesmo de o PT ter vitóriaseleitorais sólidas. Reuniões na "Prefeitura Velha" reuniamassociações e líderes comunitários. Zé Ivaldo priorizou a cultura popular, nãoa indústria cultural, plantando sementes de identidade local. Paulo Afonsotornou-se um "farol", uma referência de esquerda vibrante no Nordeste,citada até no Sul do país. 

Mas o destino reservava uma curva. O ano de 1988 marcou um"trauma coletivo", um "acidente de percurso" profundo. Aderrota eleitoral naquele ano não foi um simples revés. Foi uma operaçãocirúrgica das elites unidas, como o Gilberto Santana testemunhou. A CHESF,outrora palco de lutas, forneceu palanques e estrutura para os adversários. Aesquerda, fragilizada pela divisão entre as candidaturas de Lina Ester eFrancisca Siebert, e uma tentativa tardia de unidade com Gil do Castro, nãoresistiu. A prioridade da direita baiana era clara: apagar o "farol"de Paulo Afonso. "Eu não consigo ainda digerir aquela derrota",confessa, pois foi "dialética, estratégica". Representou o fim de umaera de hegemonia popular. 

O que fica? "Nós não temos nada no bolso", diz,metaforizando a falta de poder material hoje. Mas o legado é imenso:"bolso cheio de papel" (documentos, memórias) e "empolgado"diz que aquela geração foram "estrelinhas" que iluminaram o caminho,formaram movimentos sociais, ajudaram a construir sindicatos. "Essa cidadeé o que é... graças a essa geração", proclamou, exigindo justiçahistórica. E é desse reconhecimento que brota o apelo urgente: participarativamente do PED 2025 no PT, eleger Renata em Paulo Afonso (Presidenta do PTlocal), Tássio (presidente estadual do PT). O PT precisa, clamou, "sereconectar com as bases", sair do "institucional", voltar aconstruir movimento social, "fazer lutas". Precisa resgatar a"perspectiva revolucionária, a utopia, o direito de sonhar",organizar as mulheres, o movimento negro, antirracista, LGBT. "O PTprecisa ser um partido vivo" além das eleições, disputando hegemonia nacomunicação e no dia a dia. 

"Já fomos fogo, hoje somos brasas." A metáforafinal do orador queima com verdade. A chama que transformou uma cidade partidapelo esgoto e pela segregação com um muro que separava a sociedade literalmente,que enfrentou coronéis e batalhões de choque, que ergueu governosparticipativos e foi farol de esperança, não se apagou. Reduziu-se a brasas sobas cinzas do tempo e das derrotas. Mas brasas guardam calor. O discurso é maisque memória: é um chamado ao sopro. Soprar as brasas da organização, da utopia,da coragem coletiva que um dia pariu um Paulo Afonso mais justo. A pergunta quefica ecoando no auditório que um dia foi o "centro de convenções" daresistência, é: quem se juntará para soprar? A história, afinal, não é só o quefoi. É o que decidimos reacender.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários