– Shakespeare, Hamlet
Quando o filme – uma crítica de Stone, filho de um corretorda bolsa de valores, a esse universo amoral e parasitário – foi lançado, DonaldJohn Trump contava 41 anos de idade e comandava o império imobiliário de suafamília, com foco em projetos extravagantes de arranha-céus, hotéis e cassinos(aproveitando o crescimento de uma bolha que não tardaria a estourar), eaperfeiçoava o dom de usar a seu favor as facilidades de um sistema financeiroe uma ordem jurídica moldados para beneficiar o homem branco endinheirado.Embevecidos, os meios de comunicação exaltavam o seu “toque de Midas”.
Havendo iniciado sua trajetória na década anterior, Trumpestava habituado aos usos e costumes da máfia nova-iorquina, especialmente oscapi do setor de construção, como Paul Castellano (chefe da família Gambino) eAnthony “Fat Tony” Salerno (capo do clã Genovese). Além disso, o estrambóticobusinessmanalardeava seu flerte com a carreira política por meio de entrevistase anúncios pagos na imprensa, e lançava, com êxito, The Art of the Deal, oprimeiro dos livros que assinou, testemunho de seu apreço pela automistificação,pela hipérbole como recurso retórico e pela mentira como ferramenta detrabalho.
A interessante série “Trump – Um sonho americano” (Netflix),conta boa parte dessa história, mostrando características do personagem como amegalomania, a misoginia e o uso instrumental da chantagem e da intimidação,bem como seu narcisismo patológico (registra-se, por exemplo, que ele teriapronunciado um discurso ególatra e triunfalista no enterro do próprio pai).Singularidades à parte, já no título a série deixa claro: Trump é tão americanoquanto a torta de maçã.
Talvez esta seja uma pista para interpretarmos a apatia deuniversidades estadunidenses (a prestigiada Columbia é um exemplo conspícuo),grupos de comunicação, escritórios de advocacia etc. diante dos ataquesfrontais de Donald, agora presidente reeleito em um pleito consagrador, aosinstitutos da chamada democracia liberal – como, por exemplo, a liberdade deexpressão. Jodi Dean (“Cowardice Is Constagious Too”) observa que essesinstitutos eram e são falhos, ficando muitas vezes aquém da retórica que os embalae dos ideais que os sustentam... mas agora esses ideais estão sendosimplesmente demolidos. E a reação tem sido tímida.
É como se Trump, com sua linha política centrada nacrueldade e no uso da extorsão como prática cotidiana, própria dos chefesmafiosos, retirasse um manto de hipocrisia de sobre um modelo de democracia quede democrático sempre teve muito pouco (como bem sabem os Gordons Gekkos daficção e do mundo real), ou mostrasse que os pilares do edifício estão comidospor cupim. Por isso, a pensadora socialista evita a armadilha de defender oretorno ao statu quo ante: para ela, a luta contra o extremismo de direita epitomizadopelo magnata não nos deve levar ao resgate de instituições carcomidas, mas àbusca de algo melhor: uma nova economia centrada na satisfação de necessidadeshumanas (e não na geração de lucro), e em “relações sociais de igualdade erespeito mútuo”.
Num ensaio de 2018, "The Cruelty Is the Point", ojornalista Adam Serwer argumentava que o apelo de Trump junto a uma parcelaexpressiva do eleitorado não se resumia a queixas de ordem econômica ou"incorreção política", mas envolvia, ainda, a crueldade compartilhadacomo mecanismo de união. Seus apoiadores teriam encontrado solidariedade, umchão comum, no ato coletivo de menosprezar os outros – seja rindo das vítimasdo furacão em Porto Rico, zombando das mulheres do movimento #MeToo ouridicularizando pessoas com deficiência. Essa dinâmica, que não nos é estranha,estaria historicamente enraizada, segundo o escriba, na violência racial dosEUA, onde o espetáculo público da crueldade, como os linchamentos de homensnegros, foi um aglutinador para algumas comunidades (“As árvores do sul dão umafruta estranha / Sangue nas folhas e sangue na raiz”, canta Billie Holiday,maravilhosamente, em “Strange Fruit”).
No segundo mandato, como temos visto, a natureza e aintensidade da crueldade evoluíram (e talvez não haja melhor exemplo disso quea grotesca caça a imigrantes por milícias de encapuzados, sobre a qual a“comunidade internacional” tem guardado um silêncio cúmplice): não se tratamais, apenas, de estabelecer laços por meio da humilhação grupal, mas deproduzir instabilidade generalizada como estratégia de governança.
Há também um outro fenômeno que permite vislumbrar ondeentramos nós nessa história, que é o inegável declínio do império americano: osEUA seguem sendo a principal potência militar, financeira e cultural do mundo,mas sua influência relativa está diminuindo, sobretudo na economia e nadiplomacia, enquanto seu maior rival decola. A China (principal parceirocomercial de mais de 130 países, Brasil incluído) produz hoje 30% dos bensmanufaturados do mundo (os EUA, 16%) e já ultrapassou a terra do Tio Sam em produçãocientífica, ao mesmo tempo em que forma novas alianças (como o BRICS) quedesafiam a liderança global dos EUA e contribuem para a redução da influênciade sua moeda: em 2001, o dólar estadunidense representava 72% das reservascambiais globais; em 2023, esse percentual caíra para 58%.
Trump é, também, uma reação a esse declínio, que sinaliza umreordenamento global.
E isto nos leva, por fim, à carta endereçada a Lula que omandatário estadunidense, em vez de encaminhar pelos meios adequados, divulgounas redes sociais na semana passada. Coincidentemente ou não, a mensagem veio alume no último dia 09/07, quando se encerrava a cúpula do BRICS no Rio deJaneiro, evento em que o Brasil estendera o tapete vermelho a Narendra Modi,líder de uma Índia que é hoje o país mais populoso do mundo, com cerca de 1,450bilhão de habitantes, PIB de U$ 3,4 trilhões e projeção de crescimento de 6,5%para 2024-2025 (mantendo, assim, um ritmo robusto de expansão, ainda que maismoderado que no biênio anterior).
Com ofensas à gramática, redundâncias e emprego de umaretórica mais afeita a campanha política e propaganda comercial que ainstrumentos diplomáticos, inclusive fazendo uso de uma agressividadeinadmissível, o petardo de Trump, como já se comentou, parte de um ataque àsinstituições brasileiras pelos infortúnios do golpista Jair Bolsonaro, e afinalse queixa de um superávit comercial do Brasil em relação aos EUA – algo que nãoocorre há mais de 15 anos.
A ameaça do capo – aplicar um tarifaço de 50% a todas asexportações brasileiras para os EUA – decerto pode gerar prejuízos para osnossos setores de manufaturados, agroindústria, petróleo e derivados (entreoutros), resultando em desemprego; mas pode também elevar os custos de setoresindustriais estadunidenses que hoje carecem de insumos brasileiros (como aço,alumínio, celulose), gerando pressão doméstica, e contribuir para estreitar oslaços entre Brasília e Beijing.
Extasiado com o próprio umbigo, Donald esquece que tudo tem,ao menos, dois lados.
O fiasco do rugido presidencial, neste caso, se assemelhariaao do cassino Taj Mahal, um de seus muitos empreendimentos fracassados – oqual, afundado em dívidas, entrou em falência apenas um ano após ser inauguradocom pompa e circunstância (patrimônio da humanidade, o magnífico Taj Mahalindiano subiste há quase 4 séculos).
Um dado curioso: investido no papel de bully global, Trumpenviara, dois dias antes, cartas idênticas entre si (e quase idênticas à queendereçaria a Lula) aos líderes de Coreia do Sul, Lee Jae-myung, e Japão,Ishiba Shigeru. Também atravessadas por erros gramaticais e problemas deestilo, as cartas padronizadas ostentam um tom autocongratulatório descabido,passam ao largo do que se conhece como diplomacia e ignoram o modo comonegociações comerciais se dão entre nações soberanas: ao lado da ameaça de elevaçãode “Tariffs” (assim mesmo, com maiúscula), o magnata convida os contrapartes a“participar da extraordinária economia dos Estados Unidos”.
Prato cheio para estudos nas áreas de linguística,psicanálise e, claro, relações internacionais.
Reforçando o mergulho no bizarro, e a impressão de que opaís de Abraham Lincoln não está sendo governado por um adulto funcional, osperfis da Casa Branca e do próprio Trump no ex-Twitter exibiram, dias depois,uma imagem do presidente retratado como Superman. É, sem dúvida, desafiadorinterpretar essa avalanche semiótica. Por onde começar? Para o filósofoitaliano Franco Berardi, "Trump é a erupção psicótica do inconscientebranco senil; ele é a forma política monstruosa na qual se manifesta a inumerávelmultidão de fantasmas que assombram a memória e a autopercepção desse povoinfeliz".
A carta ao presidente Lula provocou reações diversas noBrasil, por exemplo: os presidentes da Câmara e do Senado exibiram, juntos, acovardia que deles se espera, o jornalão dos Mesquita teve um arroubonacionalista inusitado e um diplomata de pijama sentenciou, sabujíssimo, que “oassunto é técnico; politizá-lo é um erro”. Como se habitasse um universoparalelo, o presidenciável governador de SP (que dia desses posou parafotografia exibindo um boné com o lema “Make America Great Again”) saiu-se comesta: “Lula colocou sua ideologia acima da economia, e esse é o resultado.” Asredes sociais foram inundadas por expressões de repúdio à agressãonorte-americana (com direito a um hilário vampetaço), e uma manifestação emdefesa da soberania nacional convocada pelas frentes Povo Sem Medo e BrasilPopular, além de sindicatos, levou mais de 15 mil pessoas à Avenida Paulista.
Registre-se, para os anais da indignidade de um Congressoque mais e mais se rebaixa: horas após a diatribe de Trump ganhar as manchetes,a Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados,comandada pelo partido do ex-capitão, aprovou uma “moção de louvor” aomandatário estadunidense. Sem medo ou pejo do ridículo, o proponente da coisa(um deputado fluminense ligado a Silas Malafaia), se permitiu justificar ahomenagem "pelo brilhante trabalho desenvolvido por ele como presidente damaior nação e pela incansável luta em defesa da democracia e da liberdade deexpressão em todo o planeta". Uma pérola da vassalagem.
Há quem diga que, na semana que passou, a corridapresidencial de 2026 começou para valer. É possível. Seja como for, o governoLula finalmente demonstrou acerto na estratégia comunicacional, reagindo comfirmeza à agressão, e mostrando que a paralisia pelo medo não funcionará poraqui. O ataque de Trump, pondo a nu o caráter conspiratório, antinacional, deBolsonaro e sua gangue (que já fornece condições para a prisão cautelar),também os expõe a conflitos com sua própria base; além disso, permite a Lula sairda defensiva e dar passos na direção da frente amplíssima com que sonha asocialdemocracia.
O caminho pelo centro, contudo, tende a ser tortuoso,difícil, como são os ensaios de conciliação de classes neste país moldado peladesigualdade abissal, e dominado por uma elite avessa a compromissos. Vejamos,para refrescar a memória, o que dizia o Valor Online em 21/09/2018, em matériasobre a queda do dólar, que vinha em trajetória de alta: "O alívio nomercado brasileiro se dá pela leitura de que Jair Bolsonaro se firma como ocandidato forte para o 2º turno da eleição presidencial. Por mais que não sejao candidato ideal para parte dos profissionais de mercado, o presidenciável éapontado como o principal ponto de resistência contra a volta de governos àesquerda."
Nossos Gordons Gekkos – grandes e pequenos – topam tudo,tudo mesmo, para deter qualquer ameaça de redução da desigualdade social, istoé, para evitar a substituição disso que aí está pelo “something better” que,como aponta a camarada Jodi Dean, é algo que podemos conquistar.
Por: Pedro Amaral.
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