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O ataque ao Brasil pode ser um fator de mobilização

O ataque ao Brasil pode ser um fator de mobilização

09/08/2025 18h11 Atualizada há 1 ano atrás
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O ataque ao Brasil pode ser um fator de mobilização

A natureza da agressão dos EUA ao nosso país é claramenteintervencionista, política na origem e nos objetivos que persegue. Aescandalosa coação ao Judiciário, imiscuindo-se em nossa domesticidade em níveljamais conhecido entre nações soberanas em paz, tanto quanto o “tarifaço”,atingindo em cheio nossa economia e anunciando desemprego, não se encerra em simesma, pois muito está por vir, e o que nos espera poderá agravar-se se nãoencontrar a resistência de uma sociedade organizada, apta à mobilização e preparadapolítica e ideologicamente.

Os idos de 2025 olham para 2026.

A ameaça toma os contornos de fato concreto, corre comorastilho de pólvora; sua relevância muda de qualidade quando passa a serconduzida pela — ainda — maior potência econômica e militar dos últimos cemanos, ferida pela sua crise interna, acossada pela desindustrialização,assustada com as ameaças à sua hegemonia representadas pela ascensão de umaEurásia liderada por uma China desenvolvida e em crescimento.

Neste quadro, a lei do mais forte substitui o diálogo; aforça se antepõe à persuasão ideológica, que pede tempo para frutificar: asubmissão do colonizado aos interesses e à vontade do colonizador. O discursose mostra ineficiente, e as novas circunstâncias reclamam o retorno do bigstick, a doutrina que, no início do século XX, inspirou as relações imperiaisdos EUA com a América Latina, nada diversas das relações das grandes potênciaseuropeias com suas colônias — e do que foi, entre nós, no Império, a preeminênciainglesa.

Não se trata, pois, de mero acaso sua vinculação com aextrema-direita brasileira e, mais precisamente, com o bolsonarismo, hoje ummovimento de massa. Muito menos podem parecer desarrazoados os braços dados aosionismo e a associação ao genocídio do povo palestino. Os EUA levam a caboverdadeiro bullying contra o humanismo e a paz — valores sempre secundáriospara o autoritarismo que se transfigura em fascismo, o destino a que sempre noscondena o capitalismo em crise. A ascensão da extrema-direita é, assim, produtodo processo histórico, e o Brasil se apresenta, pela sua economia, pela suapopulação, pelo seu território, pela sua liderança, como peça importante a serconservada como território de segurança.

A internacional neofascista encontra no Brasil de hoje umespaço de penetração facilitado pelo vira-latismo de nossa classe dominante epelo excepcionalismo de uma direita entreguista que investe contra a nação —logo ela, que tanto gosta de bater no peito, fazer continência e gritar o amorà pátria, trajando a amarelinha da CBF. Estranha horda de “patriotas”, que fazcontinência à bandeira dos EUA e, nas passeatas, estende com orgulho a bandeirade Israel, para registrar seu aplauso ao sionismo e a seus horrendos crimes. Noplenário da Câmara dos Deputados e nos palanques dos comícios, seus próceres,como o governador de São Paulo, se exibem com o boné da campanha de Trump, ondese lê MAGA — Make America Great Again.

O partido de Jair Bolsonaro expulsa de seus quadros umdeputado federal que ousa criticar Trump quando este nos ataca. Que faz aqui —e em Washington — a família do capitão? Que faz aqui a maioria parlamentar quecontrola o Congresso? Que fazem o PL e seus similares? Que fazem aqui osgovernadores dos mais importantes Estados da federação? Nada se deve esperardas chamadas elites, do grande capital internacionalizado, de um empresariadorentista sem visão de país e nação.

A burguesia que aqui reside na maior parte do tempo só temolhos para a constância de seus lucros, e não hesitará em mudar de rumo, ramoou país — como já anunciaram uma grande metalúrgica gaúcha fabricante de armase a Embraer, de malas prontas para migrarem para os EUA. A montadora de aviões(erguida e viabilizada, como se sabe, com dinheiro do contribuinte brasileiro)já anunciou investimentos de US$ 500 milhões em suas instalações na Califórnia,para onde pretende levar o projeto do KC-390, apresentado como o maior aviãomilitar já fabricado na América do Sul.

Esta é a resposta do grande empresariado nacional aotarifaço.

As lideranças empresariais reclamam de nosso governo umanegociação que ele sempre buscou — sem êxito — e exigem que o presidente Lulatome a iniciativa de procurar Trump e, preferencialmente, seja atencioso eprestativo. O conceito de dignidade nacional é ignorado pela elite aquiinstalada.

Os EUA, com o tarifaço — mas principalmente com suajustificativa, abusivamente reiterada por Trump — já intervieram na políticabrasileira. Estamos ainda distantes do ponto de chegada, mas está evidente quea operação em curso olha para o processo político e eleitoral brasileiro. Oobjetivo é intervir na história, seja invertendo os números do apertado pleitode 2022, seja transformando em sucesso a frustrada intentona de 2023, sejainterferindo nas eleições de 2026. Seu alvo é assegurar a consolidação do projetoneofascista, interrompido com a eleição e posse de Lula, eventos fundamentais,mas insuficientes para garantir a consolidação de nossa democracia — tão frágile tão ameaçada, hoje, não menos que ontem.

Há uma disputa institucional, há um confronto na sociedade,e há a registrar o avanço da extrema-direita, no limite de conquistar uma novamaioria — a nuvem negra que se anuncia desde 2018 e chegou tão perto de setransformar em realidade em 2022. E, porque ganhamos as eleições presidenciais,cuidamos de esquecer que havíamos perdido a disputa na maioria dos Estados e noCongresso.

A resistência neofascista e a intervenção dos EUA indicam oque deverão ser as eleições do próximo ano (uma disputa, a rigor, já iniciada),quando as forças populares enfrentarão um bloco de direita e extrema-direitaorganizado: como sabemos, não lhe falta base popular, nem o conforto oferecidopelo apoio da maioria dos governadores de Estado, da maioria dos prefeitosmunicipais, da maioria esmagadora de deputados estaduais e federais, da maioriados senadores, da velha imprensa, o apoio político e financeiro da Faria Limae, agora, o apoio ativo, explícito e incondicional dos EUA (que terá faltado aoputsch de 2023).

Um quadro que traz um incômodo sentimento de déjà vu a quemacompanhou as eleições de 1962 e viveu os idos de 1964.

Por contraditório que pareça, contudo, muito passamos adever aos EUA, ao trumpismo e a esse intervencionismo. Trump escancarou anatureza do imperialismo (inclusive com a manipulação grosseira do conceito deDireitos Humanos, que Washington nunca teve tão pouca moral para invocar).Assim, foram postas na ordem do dia questões descuradas pela esquerdabrasileira desde que passou a flertar com o neoliberalismo. Por ingenuidadepolítica, deformação teórica ou mesmo por comodismo, ela supôs estar no poder —e supôs ainda que a conciliação ideológica era o caminho mais simples para nelepermanecer. Esqueceu-se de que há uma coisa chamada consciência de classe,valor bem cultivado pela classe dominante. Ideologia não é brinquedo...

Assim, ganhamos, mas com limitadas condições de governança,das quais derivam graves riscos à institucionalidade democrática. A maioriaparlamentar de hoje é (e não é preciso qualquer esforço para ver) ainda maisreacionária, obtusa e irresponsável do que aquela que decretou o impeachment dapresidente Dilma Rousseff, “corrigindo” o resultado das eleições de 2014.Aprende com as lições da história quem quer.

Na última semana, o chorume neofascista paralisou asatividades do Congresso para protestar contra a decretação da prisão deBolsonaro, criminoso contumaz. Com isso, o bolsonarismo impediu a votação de aomenos um projeto de interesse da população: a isenção de IR para quem ganha atéR$ 5 mil. O deputado Glauber Braga (PSOL-RJ) repudiou a ação do bando, masironizou: “Deputados do PL terem se autoimposto a colocação de esparadrapos naboca, eu acho uma boa medida. É uma ação voluntária para contribuir com a paz.”

Lamentavelmente, não se trata de um raio em céu azul oavanço do pensamento e da ação da direita e da extrema-direita. O processopolítico que nos inquieta seria inviável sem nossa colaboração, ainda queinvoluntária: a política é produto da luta social, à qual renunciamos, deixandode desempenhar o papel fundamental de vanguarda. Mas, se não nos faltar ânimo,sobrarão condições objetivas de enfrentar o desafio, com a retomada da lutaideológica.

O trumpismo, com sua agressividade tóxica, nos oferece aoportunidade de discutir o interesse nacional, de falar em nação e emnacionalismo, retomar a defesa de nossas riquezas naturais, voltar a falar emimperialismo — pois ele, em lento declínio, arreganha os dentes — e denunciarseu papel corrosivo. É a oportunidade de encontro da sociedade com o país, odespertar da consciência de pertencimento a um projeto comum.

Seremos, afinal, uma nação, e, em torno desse sentimento,poderemos construir uma nova maioria nacional, progressista, apta a enfrentar omaior dos desafios da nacionalidade: a desigualdade e a injustiça socialestampadas na segunda maior concentração de renda do mundo.

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Aviso aos navegantes — Há mouros na costa.

Tem gente com fome 1 — É difícil, e talvez inútil, tentaridentificar o que há de mais horrendo e repugnante em um genocídio. Mas o lentoassassinato de civis desarmados pela desnutrição forçada choca especialmente.Assim, gravaram-se na memória da humanidade as imagens de corpos esqueléticosdos prisioneiros de Auschwitz — uns ainda vivos, outros jogados em pilhas decadáveres, como se nem humanos fossem. O horror se repete com o genocídio, emcurso, dos palestinos de Gaza, que, além dos bombardeios covardes (assistidospor uma “comunidade internacional” inerte e desmoralizada), enfrentam agora aescassez de remédios, água e alimentos imposta pelo Estado de Israel. Erepetidas vezes são atacados pelos terroristas de Tel Aviv quando se aglomeramna busca desesperada de ajuda humanitária! Relembremos Primo Levi: “Destinadosa uma morte quase certa, resta-nos uma única opção, que devemos defender aqualquer custo, justamente porque é a última: a de não permitir que nos façamvirar um ‘nada’.”

Tem gente com fome 2 — Nesse cenário de horror, deveria serdada atenção especial ao relatório SOFI 2025, lançado no último 28/07 durante aabertura do UN Food Systems Summit +4, na Etiópia. O documento destaca que,embora o número de pessoas com fome no mundo tenha se estabilizado após o picoda pandemia, ele continua em patamar preocupante: mais de 730 milhões depessoas estavam em situação de fome crônica em 2024, com Ásia e Áfricaconcentrando cerca de 90% desse total. Quanto ao Brasil, um ansiado anúnciopositivo: o país foi oficialmente retirado do Mapa da Fome da ONU, menos detrês anos após haver retornado ao ranking, na longa noite bolsonarista.

Tem gente com fome 3 — Evidentemente, os dados dignos defestejo não podem nos fazer esquecer que a desnutrição ainda afeta milhões debrasileiros, e que o país tem diante de si o desafio de melhorar a qualidade daalimentação do seu povo, hoje repleta de ultraprocessados. Mas essa vitória jámostra um caminho a ser perseguido e aprofundado: a combinação de políticas deincentivo à geração de emprego e renda, manutenção de benefícios como o BolsaFamília e o BPC, e apoio à agricultura familiar. Além do repúdio ao fascismo. Onecessário sentido de urgência é dado pelo verso do poeta, multiartista emilitante comunista pernambucano Solano Trindade, que adverte: “tem gente comfome”.

Por: Roberto Amaral.

* Com a colaboração de Pedro Amaral.

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