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QUANDO A MÚSICA ACABOU

QUANDO A MÚSICA ACABOU

14/08/2025 05h44 Atualizada há 1 ano atrás
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QUANDO A MÚSICA ACABOU

Antigamente, as músicas me diziam coisas. Não gritavam nomeu ouvido, não me empurravam um refrão goela abaixo. Elas chegavam devagar,como quem bate na porta com respeito. Entravam, puxavam uma cadeira econversavam comigo. Às vezes falavam de amor, outras vezes de dor, outras só meolhavam em silêncio  e aquilo já bastava.Hoje, não sei. Tenho a sensação de que a música, aquela que morava no coraçãodas palavras, foi embora. Fugiu, se picou. Talvez tenha se cansado de sertrocada por rimas fáceis e danças coreografadas em câmera lenta.

Vejo os videoclipes com mansões alugadas por hora, garrafasde uísque e mulheres que parecem moldadas pela mesma fábrica de ilusões. Àsletras? Repetem sempre as mesmas três dores e os mesmos quatro vícios: bebida,chifre, carrão e fazenda. É um distúrbio emocional onde ninguém ama de verdade,só se afoga em ressaca e ego.

Não estou dizendo que toda música nova é ruim. O novo énecessário. Mas o raso cansa. A gente também precisa de profundidade prarespirar, como quem mergulha lá no fundo e precisa voltar à superfície.

Às vezes penso nos compositores de hoje como operários emuma linha de montagem. Produzem hits como quem monta peças de plástico:rápidos, descartáveis, todos com a mesma fórmula. Falta alma, falta verdade,falta beleza. Sinto saudade de quando a música me fazia pensar. De quando umafrase bem escrita me derrubava como um soco no estômago. De quando o silêncioentre dois acordes dizia mais do que um refrão repetido mil vezes.

Talvez ainda existam canções assim. Escondidas em algumcanto da internet. Tímidas, esperando por ouvidos desocupados e dispostos.Talvez a música não tenha acabado. Talvez ela só esteja descansando pra voltarmais viva.

Por: Jorge Papapá.

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