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O preço da subserviência ideológica

O preço da subserviência ideológica

16/08/2025 20h39 Atualizada há 1 ano atrás
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O preço da subserviência ideológica

“A fraqueza clássica, quase congênita, da consciêncianacional dos países subdesenvolvidos não é somente a consequência da mutilaçãodo homem colonizado pelo regime colonial. É também o resultado da preguiça daburguesia nacional, de sua indigência, da formação profundamente cosmopolita deseu espírito.”

Frantz Fanon, Os condenados da terra.

O colonialismo não se manifesta apenas pela sua aparênciamais ostensiva ou grosseira: o poder militar e econômico, uma só unidade,alimentada por polos imbricados, canais comunicantes. Os marines, as invasões,as conquistas de territórios, o arsenal atômico, os bloqueios e os tarifaçosfazem o pano de fundo da guerra ideológica — a essencial, a perdurante,glamorosa e insidiosa como Hollywood, mas igualmente letal: ela se embrenha noscorações e nas mentes, domina a alma de suas vítimas.

A preeminência estadunidense, como a britânica que nosmalsinou no Império, não é, porém, um determinismo. O mandato dos impérios estásubordinado ao que usualmente chamamos de “ciclos históricos”, que conhecemtanto apogeu quanto declínio, e entre um tempo e outro, as guerras que montam edesmontam reinos e fantasias, como o sonho do III Reich.

O perdurante é a dominação ideológica. Vão-se os exércitosde ocupação, cortam-se os laços da dependência econômica, mas permanece apreeminência ideológica — de todas as formas de dominação, a mais daninha e amais difícil de erradicar, porque reinante na visão de mundo do colonizado.

O “liberto”, embora politicamente livre, permanececolonizado quando não se desvincula do papel de transmissor do pensamento damatriz. Sua cultura é subsumida pela que vem de fora, dominante simplesmenteporque vem do centro hegemônico: como importa coisas, bens materiais,bijuterias, bugigangas e capital, o colonizado importa ideias, assimilaconceitos, instituições e, finalmente, visão de mundo; aprende a reconhecer asuperioridade do “outro” — mais forte, mais belo, mais inteligente, rico epoderoso graças aos seus próprios méritos, prenda de uma raça superior, porisso mesmo destinada ao mando.

É, em síntese, a interiorização pelo dominado dos valores ecrenças da cultura dominante, naturalizando a dominação; o colonizado é agentede reprodução da ordem social que o oprime.

Festejados intérpretes de nossa história, por sua vezreprodutores da mistificação das teorias da eugenia que dominavam a Europa noséculo XIX, procuraram explicar o incômodo atraso do desenvolvimentobrasileiro, vis-à-vis aos EUA, para assim naturalizá-lo, como inarredáveldecorrência de nossa “pobreza” racial ou étnica. Pontificaram nessa linha,entre muitos, médicos, antropólogos, filósofos e historiadores como SilvioRomero, Nina Rodrigues e Oliveira Vianna: no Norte, uma colonizaçãoanglo-saxônica, assim “superiora”, protestantes voltados ao trabalho e aolucro, que chegavam com suas famílias e liam a Bíblia antes de conduzir seusescravos no eito. Aqui, colonização levada a cabo por portugueses mestiços ecatólicos, negros deprimidos e índios indolentes, mal saídos da pedra lascada.Besteirada em que se destacou Vianna Moog (Bandeirantes e pioneiros).

Os “intérpretes”, eles por seu turno reprodutores daideologia do colonialismo, se esquivaram de registrar as implicações dapresença do braço negro escravizado no sucesso da colonização dos EUA. Oregistro relativo aos indígenas dá conta de seu massacre, necessário para agrande obra civilizatória.

Assim opera a hegemonia cultural da classe dominante.

Em 1950, a perda da Copa do Mundo de futebol, que o Brasilfora determinado a ganhar, explicou-se pela presença dominante e majoritária denegros na final contra o Uruguai, uma ingrata ex-província do Impériobrasileiro. Nelson Rodrigues, sensor da alma brasileira, reagiu ao bestialógicoconstruindo o conceito de “complexo de vira-lata”, com o qual definiu osentimento de inferiorização naturalizado entre nós. Desprovidos de uma visãoprópria de si e do mundo, seríamos um povo à míngua de si mesmo; despojados deorgulho nacional, nos pejamos na idolatria do mais forte. Dela padecemos, e elaé visível tanto na ação de políticos e partidos de direita — no Brasil,exemplarmente entreguistas — quanto na apatia de segmentos significativos doque costumeiramente chamamos de sociedade civil.

O sentimento registrado pelo dramaturgo é a ideologia daclasse dominante brasileira, e pervade hoje nossa sociedade.

Vicente Rao, servindo ao governo títere de Café Filho(agosto de 1954 a novembro de 1955), declara, sob os aplausos da grandeimprensa: “O Brasil está fadado a ser, por tempo indefinido, um satélite dosEUA”. Nada distinto do que ouviríamos do general Juraci Magalhães, nossoembaixador em Washington (junho de 1964): “O que é bom para os EUA é bom para oBrasil”. Mais recentemente (2001), no discurso de transmissão do cargo deMinistro das Relações Exteriores ao professor e empresário Celso Lafer — aquelechanceler notabilizado por tirar os sapatos e as meias para ingressar na“América” —, o diplomata de carreira Luiz Felipe Lampreia proclamava de peitoentufado: “O Brasil não pode querer ser mais do que é”.

Essas reflexões me ocorreram quando, há poucos dias,assistia à inquirição a que foi submetido o embaixador Celso Amorim no programaRoda Viva, da TV Cultura. A bancada de jornalistas, representativa domainstream da imprensa brasileira, ciente de seus valores, reclamou explicaçõespara o “pavio curto” da reação brasileira aos ataques dos EUA e à insistênciade Lula nas críticas a Donald Trump, que, vale recordar, o ofendeu — e a nós —endereçando ao presidente da República carta pública que, ademais de desrespeitarnormas diplomáticas e de mínima civilidade, impôs as medidas conhecidas queagridem nossa dignidade e ameaçam a economia nacional. Um delegado do sionismopôs em xeque o rigor de nossa denúncia do genocídio contra o povo palestino.Muitos estranharam estar o presidente Lula a encetar diálogo com presidentes denações amigas (como China, nosso maior parceiro comercial, e a Índia, a maiorpopulação do mundo), e o Japão, em busca de novos mercados para nossasexportações, ao invés de se dedicar a salamaleques com o magnata, como cobra oempresariado — fingindo ignorar que o Secretário do Tesouro dos EUA acabara derejeitar a audiência prometida ao ministro Fernando Haddad; sem considerar queTrump pressiona os países com os quais cedeu negociar a reduzir as compras desoja e algodão brasileiros, e que o Departamento de Estado acabara de dar apúblico comunicado em que acusa nosso país de suprimir a livre expressão aoimpor limites à ação das plataformas digitais. O mesmo texto aponta, como sinalde ameaça aos direitos humanos no Brasil, as “perseguições” judiciais aocapitão Bolsonaro e seus asseclas que invadiram as sedes dos três poderes nafrustrada tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2022.

E por aí seguiu a entrevista, conduzida por uma bancadamuito menos qualificada do que Amorim merece, e a audiência brasileira têmdireito de exigir. É a miséria do jornalismo.

Reagindo ao ataque, o governo federal, para salvar osempresários exportadores (majoritariamente operadores do agronegócio) dachantagem de Trump, abriu-lhes um crédito subsidiado de R$ 30 bilhões, adiou opagamento de impostos, abriu as portas para compras governamentais do excedentede produção não exportado, pedindo (isto é, sem condicionar) o únicocompromisso de manterem os empregos de seus trabalhadores — o que, aexperiência ensina, não será cumprido. Mas o capital não se satisfaz. Diz, pormeio de seus porta-vozes, que “Lula precisa fazer um gesto e buscar um canalcom a Casa Branca” (Malu Gaspar, O Globo, 14/08/2025).

Na mesma toada, o governador-presidenciável de São Paulo eseu colega governador do DF escrevem ao presidente dos EUA. Este, sob opretexto de explicar a violência na capital da República, acusa o governobrasileiro “de não acreditar no diálogo” e pede crédito por haver promovidoreunião de governadores para defender a abertura de diálogo entre Brasil e EUA— diálogo que não tive a dignidade (pode-se esperar dignidade de SuaExcelência?) de registrar haver sido rompido por Trump.

O Congresso, ativamente reacionário, dirigido politicamentepela extrema-direita brasileira, por sua vez guiada pela extrema-direita dosEUA, governante a partir da Casa Branca, promove a revisão dos principaisdireitos conquistados pela Constituinte de 1987-88. Avança um golpe de Estadoque, desta feita, ainda dispensa o concurso da caserna.

E a sociedade silencia; as ruas estão quietas e vazias, opaís em relativa calmaria; não se registram incômodos cívicos. A Academiarumina em paz celestial: as bolsas de pesquisa (de valores irrisórios) em dia,os restaurantes universitários funcionando e os salários (amesquinhados) dosprofessores pagos. Os sindicatos, esvaziados em sua capacidade de mobilizaçãopor razões consabidas, mal conseguem cuidar dos reajustes salariais de suascategorias. O movimento vem da extrema-direita arruaceira tomando de assalto oCongresso e desmoralizando suas mesas diretoras, na tentativa de, açulada porTrump, impor a impunidade dos golpistas.

A falência de um sentimento coletivo pode ser o fim daaspiração de um povo que já pretendeu ser algo distinto de uma simplesaglomeração populacional.

Talvez seja esta a mais grave crise desde 1964. Trata-se decrise da política, que arrasta a institucionalidade, mas vai além dela. Épreciso reagir já, sem cairmos na ilusão de que tudo se resume à disputaeleitoral e de que ocupar o Planalto é o mesmo que deter o poder.

***

Cavalaria inimiga — “Um grupo de oficiais da reserva ligadoao governo de Jair Bolsonaro tentou escalar a crise política, levando-a paradentro dos quartéis. Foram neutralizados, sem a necessidade de nenhuma conversano Forte de Caxias para lhes impor aquilo que diziam defender quando estavam naativa: disciplina. [...] O radicalismo é assim. Parece ombrear com os quedefendem o Brasil, mas, ao fim e ao cabo, são autores de crimes, massacres,conspurcações e badernas” (Marcelo Godoy, Estadão, 12/08/2025).

Michel Misse foi para Maracangalha — “Eu vou praMaracangalha / Eu vou, cantávamos na saída e chegada do nosso bloco decarnaval, ano após ano, aqui do lado, na Cobal do Humaitá, zona sul do Rio deJaneiro. Michel, além de fundador, era o puxador de samba e um mestre decerimônia. Braços abertos para cada um que chegava para se somar à vontade devida. Elegância na voz, delicadeza nos movimentos, cortesia no trato e alegriacom arte, entre a música e as ciências sociais, como quem costura ritmos eideias num mesmo tecido colorido. [...] Michel foi hoje para Maracangalha. Masnão foi só. Sigo aqui em seu cortejo vivo, com palavra, gesto e voz, com poesiae afeto na resistência por uma segurança pública democrática, para todos nós.Bata bumbo, chora cavaquinho, pausa na voz, silêncio na sociologia para oMichel passar. Confetes e serpentinas para o diplomata das ciências sociaisseguir fazendo da nossa saudade um desejo ainda mais forte pelo amanhã!”(Jacqueline Muniz). À poesia de Jacqueline junto minha saudade do amigo quepartiu.

American Way — Scott Bessent, o Secretário do Tesouro dosEUA que recentemente cancelou de última hora uma reunião virtual com o ministroHaddad (pelo que consta, após interferência espúria de um golpista foragido),afirma que a China é a economia mais desequilibrada da história moderna — isto,segundo ele, por estar voltada para a busca do emprego e não da lucratividade.Decerto melhor modelo é o dos EUA, onde cerca de 42 milhões de pessoas (12% dapopulação) sobrevivem à base de food stamps e 46 milhões não conseguem sequeracessar serviços de saúde...

Por: Roberto Amaral.

* Com a colaboração de Pedro Amaral.

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