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Há algo de novo no front

Há algo de novo no front

27/09/2025 18h06 Atualizada há 11 meses atrás
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Há algo de novo no front

A última semana teve início promissor no domingo, 21 desetembro, pois se ouviu, a lembrar outros eventos, a voz do povo: livre,espontânea, alegre, mas trazendo para as ruas um grito reprimido deinconformismo, um rotundo não! à atonia política que parecia dominar o país,receoso de fazer frente à maré montante da extrema-direita, apresentada comohistória já acontecida, cantada nas ruas, recitada na imprensa, nos púlpitos,nas portas dos quartéis. As ruas e as praças, o espaço onde o povo atua e faz história,seriam agora o território privilegiado do reacionarismo.

A história parava aí.

Mas o povo, mobilizado, disse não, e com seu gesto pôs demanifesto o torpor de nossas lideranças, políticas e governantes, a anomia dospartidos, o conhecido recesso do movimento sindical.

Fracassada a intentona de janeiro de 2023, julgados econdenados os principais mandantes, articulava-se à luz do dia, no Congresso efora dele, uma vez mais — e certamente não ainda pela última (a persistirem osvícios letais da conciliação e da impunidade) — a desmontagem do pacto políticodemocrático conquistado com a constitucionalização em 1988, fruto dos 21 anosde resistência à ditadura instalada em 1º de abril de 1964, sustentada enquantopossível pela aliança dos militares golpistas com o grande capital e o apoiopolítico, financeiro e estratégico dos EUA, este mesmo que hoje azucrina ogoverno Lula.

Na sequência da desmontagem do que ainda tínhamos de Estadosocial (ofício em que se esmera desde o impeachment de Dilma Rousseff), após ogolpe branco continuado contra o presidencialismo, açambarcando competências doPoder Executivo, a direita articulava o golpe no golpe, cujo ponto de partidasem retorno residia na virtual decretação da falência do Poder Judiciário,mediante a anulação de suas decisões e a ameaça de impeachment pairando comoespada de Dâmocles sobre as cabeças de seus ministros.

A senha, na sequência da tomada de assalto da Mesa da Câmarados Deputados por parlamentares celerados, era o encontro da PEC da Bandidagemcom o PL da Anistia, reunindo, nas graças da impunidade, criminosos comuns ecriminosos políticos, passados, presentes e presuntivos, os parlamentares dehoje e de amanhã, e os golpistas fardados e os golpistas paisanos que atentamcontra a ordem democrática desde a proclamação da República.

A população entendeu que se davam as mãos as iniciativas dadireita nativa com as ações agressivas e reiteradas dos EUA contra nossaeconomia e nossa soberania, e as unificou como uma única ameaça. Contra elas selevantou, tecendo como uma só luta o combate à impunidade e o fim daconciliação política mediante a defesa da democracia e da soberania nacional.Foi o enlace que mobilizou a consciência política e levou o povo a ocupar asruas, afirmando sua vontade.

Que seu grito não fique parado no ar.

O saldo histórico mais relevante deste 21 de setembro terásido, para além do veto à impunidade parlamentar (já consagrado no Senado) e àanistia aos golpistas (ainda tramitando na Câmara dos Deputados), haver o povose assumido como o fiador da democracia. Esta é a bandeira que as forças deesquerda e progressistas, de um modo geral, deverão sustentar.

As manifestações do domingo têm, do ponto de vista político,um significado exemplar que as aproxima das memoráveis mobilizações que,fechando a campanha das Diretas Já, desaguaram em abril de 1984 nos comícios doRio de Janeiro e de São Paulo. Os idos de abril anunciavam o fim da ditadura,que, velha e exaurida, sairia de cena no ano seguinte. O melhor retrato dessefim sem honra nos foi ensejado pelo último ditador, o general João BaptistaFigueiredo, ao abandonar o Palácio do Planalto pelas portas dos fundos, no dia15 de março de 1985.

A festa de 21 de setembro deste ano deve encerrar o ciclodas dúvidas táticas da esquerda no enfrentamento dos desafios e anunciar umanova fase da ação política.

Desta feita, as mobilizações, convocadas por intelectuais eartistas identificados com sua gente, sem a presença ostensiva das organizaçõespartidárias e sindicais (mas com a necessária participação delas), sem apoio dagrande imprensa, sem transporte facilitado, percorreram todas as capitais emuitas cidades do interior do país, reunindo multidões em número ainda nãocontabilizado.

No Rio e em São Paulo, estados e capitais governados peladireita, os militantes da democracia foram calculados em algo superior a 90mil. E a Avenida Paulista, como respondendo ao desafio posto pelo fascismo, seesmerou ao estender a imensa bandeira do país, fixando a imagem icônica daopção nacional, contrastando com a vassalagem oferecida pela direita aocarregar como sua a bandeira do imperialismo, quando os EUA mais atacavam nossaeconomia, nossa dignidade, nossa independência, nossa soberania.

Assim, a direita e a esquerda, no Brasil, passaram a terseus símbolos, e o nosso é aquela imagem da Avenida Paulista no dia 21,fundindo ideia, sentimento e ação.

O que virá, a seguir, serão suas consequências, ainda maissignificativas na medida em que as ruas não forem novamente abandonadas, e aslideranças políticas de nosso campo tiverem, enfim, compreendido que a únicaluta que se perde é aquela que se abandona, ou não se trava. E que o povo nãose omite, quando corretamente sensibilizado.

Essa história em processo, e este renascido projeto de umpaís que luta por preservar sua independência e sua soberania — independência esoberania que precisam ser defendidas com ações afirmativas todo dia (diz ahistória dos povos) — constituiu a coluna dorsal do discurso do presidenteLula, ao abrir a 80ª Assembleia Geral da ONU, no último dia 23.

O presidente pôs de pé o país, com firmeza e sem recorrer abravatas; respondeu a todas as agressões e ameaças com dignidade e coragem e,ao fim e ao cabo, traçou as linhas mestras de uma política externa que já foiidentificada como “ativa e altiva”.

É documento para ser distribuído, ouvido e lido em todo opaís, nas escolas e na caserna, massificado, discutido e, afinal, adotado comoseu pela Nação, que, consciente de seu significado, saberá cobrar a fidelidadedo Estado, do atual governante e de seus sucessores.

Nada de novo no front

As comemorações são justas, ademais de necessárias, mas todocuidado é pouco para não confundirmos ponto de partida com ponto de chegada. Érecomendável considerar, sempre, o poder do grande capital e da gendarmeria doimperialismo, tanto mais agressivo quanto mais se revela sua crise.

Há que ter presente as resistências de uma economiadependente da exportação de commodities, matérias-primas e minério in natura,como é a nossa, incrustada na periferia do capitalismo.

E é preciso considerar as limitações objetivas do governo decentro-esquerda, minoritário em Congresso controlado pela extrema-direita, e àmercê de uma classe dominante cuja visão de mundo é condicionada por umenraizado sentimento de inferioridade em face do mundo dito desenvolvido (esteque está destruindo o planeta), seus valores e seus interesses, os quais, semqualquer crítica, ela procura reproduzir como se fossem seus.

Por esta ótica de vira-lata é que o mainstream da imprensanacional se vê, nos vê e enxerga o mundo. Por isso pouco viu e ouviu Lula e seudiscurso. A FSP e O Globo do dia 24/09 trouxeram para a primeira página oimproviso de Donald Trump, acusando a descoberta de uma certa “química” com onosso presidente (que a confirmaria mais tarde, acrescentando reciprocidade),captada em 39 segundos de um encontro casual nos corredores da ONU. O longodiscurso de Lula, em contraste, seria matéria para as páginas internas.

Nesse encontro, que certamente entrará para os anais dapolítica internacional, de tão relevante que pareceu aos grandes jornais, Trumpteria convocado nosso presidente para um tête-à-tête, e logo vêm, deles, asrecomendações para Lula não postergar o encontro. E chovem conselhos sobre asconcessões que teríamos de fazer ao império.

Concessões que devem ser anunciadas antes das negociações, eassim caberá ao Brasil entregar a cereja de seu bolo: para o oligopólio dacomunicação, o que haveria por barganhar deve ser ofertado de graça, como quemrenuncia aos ases no jogo de cartas.

Nem um pio sobre nosso direito a reclamar explicações sobreas agressões sofridas pelo nosso país, repetidas e acentuadas por Trump em seudiscurso autorreferente e racista, proferido na sequência do pronunciamento deLula.

Nenhum dos jornalões registrou que o magnata, numa afrontaao nosso país, disse que o Brasil vai mal (sob que aspecto? Os dados sobrequeda do desemprego e aumento da renda, por exemplo, são conhecidos), e que sóirá bem se estiver com os EUA. Justiça seja feita à síntese do CorreioBraziliense: “A mensagem central do discurso de Trump na ONU: ou é do meujeito, ou nada feito”.

O Estadão de nada gostou e reduz o discurso de Lula a um“show ideológico”. Para o jornal dos Mesquita, nosso presidente foi “umpapagaio a repetir chavões esquerdistas contra o imperialismo ocidental”. Maisrealista do que o rei, cobra de Lula críticas à Rússia pela invasão da Ucrânia(coisa que o presidente já fez noutras oportunidades), enquanto VolodymyrZelensky agradece publicamente a Lula por haver apelado por um cessar-fogo emseu discurso, e pelos esforços do Brasil pela paz na região.

A classe dominante diz que o fundamental é negociar“tecnicamente” (como se esta e qualquer negociação entre Estados pudesse nãoser política...), aproveitando a brecha “inesperadamente” aberta por Trump. OValor, dos Marinho, dita a etiqueta: “É mais a hora de demonstrar competênciadiplomática que protestos políticos” (25/09).

Governo e setor privado, diz O Globo (25/09/25), estariamtrabalhando um “cardápio de itens”, e já seriam conhecidas propostas deconcessões em áreas estratégicas, como minerais sensíveis (terras-raras eoutros), energia, data centers e inteligência artificial.

Como se vê, se temos todas as razões para comemorar os atosde 21 de setembro e apostar em seus frutos, a experiência recomenda muitacautela e muita vigilância na proteção de nossos interesses, que depende depermanente mobilização política.

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O mundo desperta I — Para além do aplaudidíssimo discurso deLula, e do embaraçoso pronunciamento do líder dos EUA (“memorável e esquisito”,nas palavras de um colunista do Financial Times; “violento e confuso”, segundoo Libération), a 80ª UNGA contou com uma gama de declarações impactantesconcernentes ao tema incontornável de nossa época: o genocídio palestino. SeLula sentenciou, com acerto, que “o mito da superioridade ética ocidental estásepultado sob os escombros de Gaza”, os líderes de Irã e Turquia foramveementes na denúncia dos crimes de Israel, e a primeira-ministra da Eslovêniaafirmou que o criminoso será preso se pisar em seu país. Num belíssimopronunciamento, o colombiano Gustavo Petro conclamou o mundo a fornecer aospalestinos aquilo de que eles mais precisam, hoje, para não serem varridos domapa: ajuda militar. Como se houvessem ouvido seu apelo, Itália, Espanha eGrécia enviaram navios de guerra para escoltar a Flotilha da Liberdade, queleva solidariedade, alimentos e medicamentos à população violentada de Gaza —algo que Israel considera inadmissível.

O mundo desperta II — Superando a fase das denúncias —necessárias, mas claramente insuficientes —, o Brasil age e suspende a remessade petróleo para o enclave sionista. Mas mantém, ainda, o fornecimento de aço,fundamental para a indústria assassina. Os atos precisam seguir acompanhando aexcelência das palavras.

 

O assassino voa — Com mandado de prisão expedido peloTribunal Penal Internacional, pelos notórios crimes de guerra que tempraticado, Benjamin Netanyahu discursou hoje (26/09) no púlpito da ONU — o que,em si, é uma afronta à razão de ser da Organização. Repetindo o gesto que já sedera no ano passado, dezenas de delegações se retiraram do plenário no momentoda infâmia. Registre-se que a delegação brasileira, coerente com os princípiosinscritos na nossa Constituição (inclusive aqueles que regem as relaçõesinternacionais do país), foi uma das que deram as costas para o genocida.

Por: roberto Amaral.

* Com a colaboração de Pedro Amaral.

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