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Jovens poetas de escolas públicas vencem Concurso Versos de Identidade

Jovens poetas de escolas públicas vencem Concurso Versos de Identidade

08/10/2025 07h40 Atualizada há 11 meses atrás
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Jovens poetas de escolas públicas vencem Concurso Versos de Identidade

Pódio do Concurso Versos de Identidade Ano II | Créditos: Enzo Ângelo
A 5ª Festa Literária Arte e Identidade celebra a força daescrita jovem, traduzindo identidade e ancestralidade em versos.

Sob a vibração contagiante das torcidas, três estudantes darede pública de ensino tiveram seus poemas premiados no Concurso Versos deIdentidade Ano II, realizado na última sexta-feira (3), durante a 5ª FestaLiterária Arte e Identidade, no Espaço Juventudes, localizado no Largo QuincasBerro D’Água, em Salvador.

O terceiro lugar ficou com a estudante Sueli Barboza dosSantos, autora do poema ‘Resistir e festejar a vida’. De acordo com a jovem, oincentivo para participar do concurso veio da mãe, da diretora da escola e dosamigos, que também estavam presentes no dia da competição.

“Além de representar a minha escola, essa conquista é umgrande estímulo para continuar produzindo, participar de outras competições eacreditar que posso mais e mais”, afirmou Sueli.

Inspirado no amigo Isaac Barbosa, vencedor do primeiro lugarna edição de 2024 do concurso, Luis Alves conquistou a segunda colocação com opoema ‘Resistir é fé’. O estudante contou que a motivação para a escrita veioda ancestralidade presente em sua família, dos ensinamentos das religiões dematriz africana e de experiências pessoais. Dedicando o prêmio à avó, falecidahá seis anos e ex-professora do mesmo colégio em que estuda, e a uma dasprofessoras, para quem havia prometido vencer, Luis afirmou que a conquista é aprova de que é capaz de muito mais.

“Hoje eu não levei o primeiro lugar, mas o segundo significamuito para mim. Significa que a minha comunidade está em festa e que eu possotudo. Na próxima edição volto a me inscrever, pois, como digo em outro poemameu, lutar não é desistir e desistir nunca será uma opção para mim”, declarouorgulhoso.

Com o poema intitulado ‘Entre sonhos e coragem’, no qualabordou a ancestralidade relacionada a mulheres negras, Ysllana Anunciaçãoalcançou o topo do pódio. Participante de uma oficina de poesia cênica pretamusicada, a jovem contou com a orientação do professor, que a convidou paraparticipar do concurso, dedicou-se a estudar mulheres que marcaram a históriacom atos revolucionários para escrever seu texto.

“Ganhar este concurso significa muita coisa. Significa terorgulho de mim mesma, porque eu não confiava muito no meu potencial; conquistarminha autoconfiança; saber que eu posso, sim, ser alguém na vida, que posso termuitas coisas, muito além do que eu imaginava”, disse Ysllana.

Questionada sobre os próximos passos, a poeta afirmou que,quando tiver uma nova ideia, recorrerá novamente ao professor para iniciar aprodução de outro poema. “Agora, em mente, eu não tenho nada, entendeu? Mas vaique daqui até de madrugada, quando eu chegar em casa, vem alguma coisa na minhacabeça. Aí eu só falo com o professor: ‘Professor, bora?’”, concluiu.

A escritora Márcia Mendes, coordenadora pedagógica da FestaLiterária Arte e Identidade e integrante da comissão de seleção dos poemasfinalistas, ao lado da curadora Karla Daniella Brito, destacou que o tema destaedição era subjetivo e exigia dos participantes pesquisa, leitura e mediaçãodos professores. De acordo com Mendes, algo chamou sua atenção nesta edição: aoler os mais de 30 poemas inscritos, ela percebeu que os jovens estão maispolitizados e empoderados.

“Percebi que esses meninos e meninas estão mais politizadosem relação aos seus direitos e ao lugar que ocupam no mundo. Eles estão sereconhecendo, se respeitando e afirmando com mais segurança quem são. É como sedissessem: ‘Eu sou negro, e daí? Qual é o problema com isso?’. Estão maisempoderados, e já percebemos esse movimento mais político, no sentido deafirmar: ‘Eu sou isso, e pronto. Você vai ter que me respeitar mesmo’”,ressaltou.

Ainda segundo Márcia, a presença da dor e da tristezacausadas pelo racismo também foi marcante, sobretudo nas produções das meninas.“Vejo jovens entristecidos diante desse Brasil que ainda insiste em negar oracismo, inclusive dentro das escolas. Essa negação acaba silenciando muitosdeles, impedindo que expressem quem são e o que fazem. Nos textos inscritos noconcurso, identifiquei essa dor muito presente e, entre as meninas,especialmente, uma solidão profunda”.

As observações de Mendes sobre a força, a consciência etambém as dores desses jovens se refletem na fala do homenageado do concurso, opoeta, professor, performer e idealizador do Sarau do Bem Black, Slam Lonan eda Balada Literária da Bahia, Nelson Maca. Para ele, os poemas recitados nestaedição revelaram a potência e a diversidade das subjetividades presentes najuventude negra e periférica.

“Prova que a juventude periférica e negra quer estudar, querfazer poesia, quer se apresentar no palco, quer bater palmas, quer ganharpalmas. Almeja ganhar prêmios pelo estudo, e não pela violência, não pelacapacidade de distribuir ilícitos”, pontuou Márcia.

Três dias de cultura afro-indígena no Pelourinho - Com umpúblico estimado em cerca de 8 mil pessoas circulando pelos cinco espaços fixose oito espaços culturais parceiros ao longo dos três dias de programação, a 5ªFesta Literária Arte e Identidade consolidou-se como um grande encontro deexpressão e diversidade. O evento reuniu aproximadamente 3 mil alunos de 60escolas públicas e privadas, contou com 32 expositores — entre editoras,livrarias, autores independentes e empreendedores negros e indígenas na FeiraMaria Felipa — e ofereceu 140 atividades gratuitas.

A iniciativa reafirma seu compromisso com a promoção dadiversidade cultural, oferecendo um ambiente seguro e inclusivo para quecrianças e adolescentes possam se conectar com as suas raízes por meio depalestras, rodas de conversa, oficinas, apresentações artísticas e vivênciascriativas com artistas baianos e nacionais. A proposta curatorial desta ediçãorealçou as expressões negras e indígenas como pilares na construção daidentidade brasileira, aprofundando o debate sobre seu legado histórico e simbólico.

A Festa Literária Arte e Identidade Ano V é uma realizaçãoda Associação Cultural e Carnavalesca Quero Ver o Momo e tem apoio financeirodo Governo do Estado, através do Fundo de Cultura, Secretaria da Fazenda eSecretaria de Cultura da Bahia. Também foi contemplada pelo edital Gregórios -Ano IV com recursos financeiros da Fundação Gregório de Mattos, SecretariaMunicipal de Cultura e Turismo, Prefeitura de Salvador e da Política NacionalAldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), Ministério da Cultura e GovernoFederal.

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