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Dependente e ocupado ideologicamente, o Brasil resiste

Dependente e ocupado ideologicamente, o Brasil resiste

01/11/2025 21h36 Atualizada há 10 meses atrás
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Dependente e ocupado ideologicamente, o Brasil resiste

“Onde o poder públicodescuidou da integridade física dos mais pobres, o regime democrático não passade uma fachada de papelão esburacada por tiros, chamuscada por pólvora queimadae borrifada de sangue.”

Eugênio Bucci, O Estado de SP, 30/10/2025

Nascemos como mera feitoria, ponto de apoio para naussedentas de água, remanso de piratas e aventureiros. Na Colônia, sem povo,nosso destino foi traçado como economia primário-exportadora fundada naescravidão de negros e indígenas, a serviço das demandas do consumo europeu,via Lisboa — a metrópole decadente, salvando-se como entreposto de nossocomércio: pau-brasil, açúcar, minérios, algodão, carne, café... — queexportávamos, e de entrada do que necessitávamos, que era quase tudo.

No Império, exportávamos mão de obra escrava (sob a forma deaçúcar, minérios etc.) e tudo importávamos, como reclamava Joaquim Nabuco aindano Segundo Reinado:

“[...] o Brasil é uma nação que importa tudo: a carne-seca eo milho do Rio da Prata, o arroz da Índia, o bacalhau da Noruega, o azeite dePortugal, o trigo de Baltimore, a manteiga da França, as velas da Alemanha, ostecidos de Manchester, e tudo o mais, exceto exclusivamente os gêneros deimediata deterioração. A importação representa assim as necessidades materiaisda população toda, ao passo que a exportação representa, como já vimos, otrabalho apenas de uma classe.” (Discurso no Senado, 1884)

Esqueceu-se de dizer que importávamos também ideologia.

Sobre a mão de obra escrava se estabeleciam a economia e apolítica do Império, quando — é ainda a voz de Nabuco — “o espírito comercial eindustrial do país parecia resumir-se na importação e na venda de africanos”,prenunciando o atraso relativo que se acentuaria nos dois séculos imediatos.

A preeminência dos interesses agrários, conservadores dostatu quo, sobre o desenvolvimento das demais forças produtivas — o comércio ea indústria — sobreviverá na Primeira República: um longo pacto que asseguraráos interesses da lavoura.

No nascimento da República, o Brasil era ainda uma feitoriacolonial. Rui Barbosa, seu primeiro ministro da Fazenda, atualizaria aspalavras do grande tribuno do Segundo Império:

“Sem indústrias manufatureiras, [o Brasil] é exportador sóde produtos da lavoura e matérias-primas, que recebe depois, em produtosfabricados, pelo duplo do seu valor. É exportador de moeda, não só porque temde pagar juros da grande dívida externa e de capitais estrangeiros empregadosaqui, como também porque supre as grandes despesas dos nossos compatriotas quevivem na Europa, ou por lá passeiam exibindo sua ociosidade, nenhumacompensação nos vindo desses fatos, porque os estrangeiros não procuram o Brasilpara consumir suas rendas; ao contrário, por dolorosa experiência sabemosquanto nos custa o seu capital empregado aqui.” (Relatório de 1891)

No século XX, exportávamos mão de obra sobre explorada naforma de commodities. No século XXI, ainda economia periférica, prosseguimos nomesmo destino e na mesma dependência, cumprindo o papel de supridores do centrohegemônico com alimentos (que faltam à mesa de nosso povo), minérios in naturae commodities, e importadores de tecnologia, ciência e conhecimento — além deideologia.

Nossa classe dominante, colonizada, reproduz os valores e osinteresses do colonizador. Exportamos minério de ferro e importamos lingotes.Exportamos soja e proteína animal, enquanto importamos valores, hábitos etecnologia.

A modernização se dá naqueles setores necessários à produçãode matérias-primas de baixo custo para o consumo dos países desenvolvidos — omotor da expansão do agronegócio, que alimenta o PIB com divisas, ao preço dadevastação ambiental e do despovoamento do campo.

A dependência ao capital estrangeiro não é, pois, um acaso.A crise, como lembrava Darcy Ribeiro, é um projeto.

Em que implica uma economia voltada para fora? Ocomerciante, o latifundiário, o senhor de engenho no Nordeste e os traficantesde escravos e mercadorias, os mineradores de Minas Gerais e do Centro-oeste eos grandes estancieiros do Sul não careciam de um país rico para desenvolverseus negócios; não careciam de mercado interno para o consumo de seus produtos.Essa elite — ou essa classe dominante — estava, nestes termos, desvinculada dosdestinos do país e de seu povo, os pobres e os não brancos, com os quais jamaisse identificou.

Qual seria a classe dominante produzida por essa economia?Meia dúzia de latifundiários, uns poucos comerciantesexportadores/importadores, uma sociedade sem povo e uma classe dominantedependente dos negociantes do mercado internacional, que ditavam o que comprar,como comprar e a que preço comprar.

Preocupava-a, então, a movimentação da bolsa de mercadoriasde Londres — como hoje se volta para os indicadores de Wall Street, aspolíticas do FED e os humores da Faria Lima. Economia voltada para fora nãoprecisa cuidar da formação de mercado interno; daí sempre desinteressar-se pelodesenvolvimento nacional, fazer vistas grossas para a miséria e asdesigualdades sociais.

Esse é o caráter da casa-grande que chega aos nossos diasdescomprometida com o destino do país — ou seja, sem identidade a perseguir.Não havia no passado, e não há no presente, por que pensar ou cuidar de umprojeto nacional. E não há ainda a consciência de povo, uma comunidadeimaginária unificada por um coletivo de valores comuns. Há, sim, população: umcoletivo disperso pela desigualdade social.

Ainda hoje, o país se move não para prover às necessidadesde seu povo, mas para manter o enriquecimento da minoria dominante — seja osenhor de engenho do século XVI, sejam os rentistas do sistema financeiro —ontem como hoje, de costas para as necessidades nacionais e a serviço deinteresses que não são os nossos.

Na Colônia e no Império era o mercado externo quem decidia oque deveríamos importar e o que deveríamos ou poderíamos produzir. Nacontemporaneidade, os países da periferia do capitalismo — nosso caso — estãosubmetidos à lógica da economia globalizada. O Estado dependente cede o poderde regular sua própria economia.

Refletindo sobre a sociedade capitalista de nossos dias,Celso Furtado observa:

“As decisões sobre o que importar e o que produzirlocalmente, onde completar o processo produtivo, a que mercados internos eexternos se dirigir, são tomadas no âmbito da empresa [transnacional], que temsua própria balança de pagamentos externos e se financia onde melhor lheconvém.”

Para o autor de Formação econômica do Brasil, a subordinaçãodo crescimento econômico à iniciativa das grandes empresas multinacionais, empaíses ainda em formação, como o Brasil, é a boa receita para a inviabilizaçãode um projeto de país — e a boa explicação para os bolsões de miséria em quetentam viver milhões de brasileiros, acossados pelo desarranjo social, o crimeorganizado e a violência do Estado.

Não há, portanto, qualquer surpresa em que o Brasil, sendouma das dez maiores potências econômicas do mundo, seja também uma das campeãsem desigualdade social. Em 2024, o índice de Gini medido pelo IBGE ficou em0,506 (a escala de Gini varia de 0 a 1; quanto mais perto de 0, menos desigualé o país). Há razões de surpresa para a tragédia social?

A dependência política e econômica, a renúncia a um projetopróprio de soberania e desenvolvimento, foi — e é, ainda — a opção da classedominante brasileira, desde os primeiros momentos de construção do país,engenho político-administrativo que antecedeu a Nação.

Furtado apresenta a disjuntiva: a) saber se temos um futurocomo nação que conta na construção do devir humano, ou b) se prevalecerão asforças que se empenham em interromper nosso processo histórico de formação deum Estado-nação.

Até aqui, as forças do atraso é que têm prevalecido — e nadaestá a indicar sua próxima derrogação.

Nossa classe dominante é herdeira legítima do país-colônia:supostamente branca, refratária à miscigenação, reacionária, beneficiária dostatu quo, de que dependem seus privilégios e o mando, que se expressa sobretodas as formas possíveis — a miséria, a segregação, a violência estatal —, quese abate preferentemente nas periferias das grandes cidades, onde os pobresmais pobres tentam sobreviver.

Por isso, a classe dominante não se confunde nem com osinteresses do povo nem com os do país, e reage negativamente a qualquer sinalde reforma — principalmente daquelas que possam alterar o estatuto dapropriedade, base do mando que é o mesmo da Colônia à República dos nossosdias, de um país que, em pleno terceiro milênio, ainda trata a reforma agráriacomo tabu.

Produtor de devastação ambiental, concentração fundiária eexpulsão do camponês de seu habitat, além de pressão inflacionária ecommodities que não enchem barriga de gente, o agronegócio é a grande vedetedos nossos dias. Anúncios veiculados insistentemente na maior rede de televisãodo país enaltecem o modelo predatório: “Agro é pop, agro é tech, agro é tudo”.Por volta dos anos 1950, cerca de 80% da nossa pauta de exportações e doingresso de dólares derivavam das vendas de café para o exterior; hoje, quandoo Brasil parecia haver alcançado o estágio da industrialização, cerca de 60%dependem do agronegócio.

Nos anos 1940/1950, nossa atrasada classe dominante aindadiscutia a díade agricultura–industrialização. Eugênio Gudin, ícone dopensamento conservador, certamente o mais influente economista brasileiro doséculo XX, delegado brasileiro à Conferência Monetária Internacional de BrettonWoods (1944), ministro da Fazenda de Café Filho (1954–1955), criticava aindustrialização e defendia o que denominava “vocação agrícola” do país.

Não é de estranhar a destruição da indústria manufatureira,levada a cabo pelo neoliberalismo. A participação da indústria no PIB nacional,que já foi de 35,8% em 1984, caiu para os atuais 13%, quando essa participaçãochega a 43,1% na China, 30,4% na Coreia do Sul e, para citar um país da Europadesenvolvida, chega a 20,8% na Alemanha (dados da ONU para 2021).

O passado não é só herança; ajuda a explicar o presente, masnão o determina, pois a história é um processo vivo — uma construção humana. Jásabemos o que devemos evitar e sabemos o que devemos fazer.

E, nada obstante tantos fracassos, há registros deconquistas, como a resistência do processo democrático burguês, resistência tãomais significativa quanto mais ameaçador é o avanço, entre nós, do projeto daextrema-direita. O fato de havermos vencido a tentativa de golpe de Estado dejaneiro de 2023 e sustentado até aqui um governo inspirado por princípiossocial-democratas, que serve de contenção ao avanço do fascismo, indica ganhosque devem ser festejados pelo povo brasileiro.

***

Mais uma chacina — Comandado há muito pelo reacionarismomais tosco, sem política de segurança pública digna de qualquer consideração, oRio de Janeiro amanheceu de luto na última terça-feira (28/10), apóscatastrófica operação policial nos complexos proletários do Alemão e da Penha,na capital, deixar mais de 130 mortos — muitos deles com claros sinais deexecução, alguns degolados. E o massacre ainda está por ser apurado. É a maiorchacina de uma história de chacinas recorrentes. Um Carandiru a céu aberto.

Mais uma chacina II— Na velha imprensa, comentaristasaplaudem a operação como “bem-sucedida e necessária”, embora os maisempertigados disfarcem a euforia, ressalvando que a brutalidade policial(planejada, e sabidamente inútil como tática de repressão ao crime organizado)“talvez tenha sido excessiva”. Entre o desamparo e a atração pelo fascismo,parte da população — exatamente aquela mais exposta à violência — aplaude omorticínio e vê com bons olhos a conversão de policiais em bestas-feras,dispostos a agir com o máximo de letalidade e o mínimo de inteligência. E,dentre estes, boa parte não se percebe, ainda, como vítima potencial de umapolítica assassina.

Mais uma chacina III — O horror atiça o campo da direita,desorientado em face dos sinais — tímidos embora — de avanço social, e que,afora a violência, nada tem a oferecer ao país. Governadores esboçam uma frenteneofascista, na esperança de levar uma população amedrontada às urnas em 2026.Há os que insuflam a retórica do “narcoterrorismo”, ansiosos por umaintervenção estrangeira no Brasil (o exemplo de Nayib Bukele, que transformouEl Salvador num grande presídio privado internacional a céu aberto, os fazsonhar). É, sem dúvida, um momento desafiador para as forças progressistas, queprecisam ofertar à sociedade uma política sensata de segurança pública — a PECque tramita no Congresso pode ser um primeiro passo, bem como a ADPF dasFavelas (mas, sempre, apenas um primeiro passo). Do luto e da indignação surgeuma oportunidade para apresentarmos um outro projeto de país, um outro modelocivilizatório. Precisamos, antes de tudo, saber de que lado estamos — e repelira barbárie.

O chefão ainda impune — O deputado Glauber Braga (PSOL-RJ)foi preciso na denúncia: o bandido mais perigoso do estado do RJ está solto,dando entrevistas e despachando no Palácio Guanabara. Acumula uma extensa fichacorrida, repleta de crimes covardes e brutais, e com ela espera se cacifar paranovos mandatos. A carnificina produzida nesta semana desperta na cidadania umadúvida que reflete nossos tempos: a que facção criminosa o governador terábuscado beneficiar, ao atacar redutos do Comando Vermelho, impondo um revéspontual a essa organização? Dada a deletéria situação do comando político doestado, uma autópsia independente dos cadáveres recolhidos pelos moradores(abandonados pelo poder público) é uma exigência inegociável.

 Por: Roberto Amaral.

Coma colaboração de Pedro Amaral.

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