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Os desafios da nova ordem em disputa

Os desafios da nova ordem em disputa

21/11/2025 11h57 Atualizada há 9 meses atrás
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Os desafios da nova ordem em disputa

Vivemos as inquietações do processo de construção de uma“nova ordem mundial”, algo a lembrar as tensões sofridas em meio às duasúltimas guerras mundiais, que, ao preço conhecido, redesenharam o mundo, suapolítica, sua geografia e sua economia.

Os tempos de hoje, herdeiros daquelas conflagrações e da“Guerra Fria” (sua continuidade em novos termos) — e de seu principal fruto, ocolapso da URSS, com a reconfiguração do mundo e da visão de mundo querepresentava a promessa socialista —, não lograram proporcionar o convívio coma paz: guerra da Coreia, invasão do Vietnã, as guerras de libertação nacionalespalhadas pelo mundo, a hecatombe que se abateu sobre o chamado Oriente Médioetc. Passamos a lidar com a amarga sensação de viver em intervalos de guerras,pois assim a humanidade atravessou todo o século passado, e assim estamoscaminhando nas primeiras décadas deste terceiro milênio, sem sabermos queguerra é esta do nosso tempo, e muito menos para onde ela está nos levando.

Sua raiz é, ainda, a disputa pela hegemonia mundial, e estanão está resolvida — nem jamais estará —, pois as soluções historicamenteconhecidas são sempre pro tempore. Assim, podemos dizer que tanto a Primeiraquanto a Segunda Guerra Mundial do século passado eram inevitáveis, poisatendiam a necessidades de domínio e poder de que tanto carece o imperialismo,Moloch que mais tem fome quanto mais se alimenta da dieta do dominado.

O fato novo, no quadro de guerra explícita, terá sido, nosidos do século passado, a “Guerra Fria”: o engenho político que, ao administraras disputas, adiou o conflito temido. A polaridade dos arsenais atômicos,levados a extremos de destruição impensáveis, convenceu os senhores do mundo dodesatino de um conflito que não ensejava a possibilidade de vencedores.

Em outros termos, a iminência da destruição absoluta,tornada factualmente possível, faria da paz um imperativo. O medo, ou oinstinto de sobrevivência, manteve a disputa em níveis de certa razoabilidade,embora o antagonismo entre as potências produzisse ou amplificasse confrontosmortíferos na periferia do sistema. É o caráter do cenário internacional dehoje, pontuado por focos de tensão e de conflitos de toda ordem: é a pazpossível, a paz assegurada por guerras sob o controle das superpotências; guerrasque não terminam, que se sucedem umas às outras, enquanto afastam do horizonteimediato o grande embate do fim dos tempos.

A disputa pela hegemonia se mantém de pé, mas a “grandeguerra”, agora, opera-se “pelas beiradas”. A Segunda Guerra Mundial (1939–1945)pôs em cena a dissensão intercapitalista ao opor o Eixo (Alemanha, Japão,Itália) aos Aliados, condomínio que reunia, à frente de todos, os EUA e a URSS(invadida pela Alemanha), cujas respectivas vitórias políticas, militares eterritoriais impuseram a dita Guerra Fria. Vencida a ameaça nazista e superadoo exercício intercapitalista, o conflito dos dois mundos passava a ser oconfronto dos blocos comunista e capitalista. O enredo muda.

Vivemos uma outra Guerra Fria, coerente com os desafios dehoje: um intermezzo entre a polaridade comercial, política e militarescancarada (EUA – China) e seu esperável desfecho, gestado nas entranhas doprocesso histórico.

No desenho deste cenário em construção, os países daperiferia do capitalismo não são arquitetos, mas nos incumbe saber que papeldesejamos e podemos desempenhar; que espaço precisamos defender; que projetosde sociedade, nação, país podemos perseguir; é o espaço que as circunstânciasde hoje nos ensejam. É o que ditam nosso tamanho e nossa população, e é o quedita a realidade geopolítica que nos faz, brasileiros, irmãos do México.

O giro conservador que percorre o mundo como rastilho depólvora, à beira da naturalização, e com o qual hoje convivemos — em nossocontinente e em casa — não é um determinismo, muito menos capricho dos deuses.Fenômeno histórico, precisa ser compreendido, pois esta é a melhor, senão aúnica forma de conter seu avanço. 

O enfrentamento que nos incumbe é político-ideológico, e sóadquire sentido quando se transforma em ação. Os recuos do passado abriram assendas que possibilitaram o quase livre caminhar do fascismo e de suasvariações históricas, todas fundadas na brutalidade devastadora das liberdades,espancando esperanças, sonhos, projetos de uma civilização minimamente digna.

Daí a promoção da violência, de mãos dadas com o farsescoclamor pelo seu combate — este, o novo cantochão da direita, no mundo, e aqui eagora, devolvendo aos arquivos as prédicas sobre liberdade e democracia. Não setrata da violência larvar, intrínseca à sociedade de classes (violência que senega, que se escamoteia): trata-se da violência dos aparelhos repressores dosEstados, que caminha da repressão indiscriminada de imigrantes ao genocídio depalestinos e a destruição de Gaza.

Todos estamos e devemos estar preocupados com nosso processoeleitoral, mas ele precisa ser analisado e enfrentado como desdobramento defenômeno ainda maior, e mais importante, porque fonte de tudo: o crescimentodas ideologias e da ação concertada da direita, da extrema-direita e dosreacionários de um modo geral, e sua forte influência sobre as massas popularese, portanto, sobre o comportamento político de nosso povo, como estamos vendomais claramente desde 2018, como vimos em 2022 e como poderemos ver em 2026.

Este é o fato, concreto e contundente; mas não encerra ahistória toda: o dever da interpretação sociológica, superando a aparência dofenômeno, é identificar sua essência, os condicionantes da formação dopensamento de direita no Brasil, sua gênese e o desenvolvimento que vemalcançando nas últimas décadas, quando a leitura do processo social queantecedeu o fim da ditadura — nomeadamente a partir de 2002, com a ascensão degovernos de centro-esquerda — sugeria o reencontro do projeto nacional-democrático,com justificadas aspirações de justiça social.

A reversão de expectativas não foi abrupta — raramente é. Emtodo o mundo, a social-democracia vinha se revelando inepta para enfrentar osdesafios impostos pelo mundo real. Cessada a “ameaça comunista”, o novofantasma era a crise social (uma vez mais o desemprego, agora acicatado pelacrise do trabalho; a brutal e crescente concentração de renda), quando maisalto era o desenvolvimento econômico, científico e tecnológico.

Cresceram as disparidades entre as nações e, dentro delas,entre seus povos.

No Brasil, os sinais de desarranjo — ou desencanto dasmassas — já poderiam ser vistos a partir dos idos de 2013. O desenho retrata oavanço do pensamento e da ação da direita, com suas vinculações internacionais,palmilhando o fracasso do neoliberalismo. Ela salta das ruas, muitas vezesseguindo as regras do jogo dito democrático-representativo burguês, paraconquistar a centralidade do poder no mundo que o capitalismo globaliza paramelhor governar.

Refiro-me, evidentemente, à hegemonia dos EUA e, neles, àascensão do trumpismo, o novo farol do pensamento e da ação articulada dadireita, da direita tout court e da direita belicosa no mundo.

No Brasil, o registro óbvio e inevitável é o da ascensão daextrema-direita, hegemonizada pelo bolsonarismo. Trata-se de fato objetivo,nada obstante o insucesso desse campo na eleição presidencial de 2022 e afrustração do golpe de 8 de janeiro de 2023, após maquinação de mais de quatroanos e comprometimento dos altos escalões das Forças Armadas. Maquinação quepermanece na ordem do dia, pois não contou, até aqui, com ampla rejeição dasociedade.

Assim, põe-se de manifesto a complexidade do fenômeno, quenão é uma contingência nossa, e não é fenômeno apenas político, mas igualmenteeconômico, social e cultural; e, em todas as hipóteses, interfere na qualidadedo poder e na estabilidade da ordem internacional, quando, em todo o mundo — eem particular entre nós —, cresce (embora ainda livre do acirramento merecido)o conflito inerente à sociedade de classes, que o sistema, ainda quandogovernado pela centro-esquerda (em condomínio com a direita dita civilizada),cuida de naturalizar.

Trata-se de processo, repito, que insinua configuraçãoglobal. Mas, sem ignorar que nenhum país é uma autarquia política, cuidemos,pois,  nossa história e do presente quenos aflige, para podermos modificá-lo conscientes de nossa contingência de paísno qual o processo de mudanças se converte na conservação do statu quo, e omantra da ordem nos manda evitar qualquer risco de ruptura. É a ideologiareacionária da conciliação, servidora da Ordem, mãe do atraso.

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Fogo no parque oligárquico — Em país que sedesindustrializa, o horizonte da burguesia residente é a especulaçãofinanceira: Daniel Vorcaro, preso quando tentava fugir do país, é a contrafaçãodo Barão de Mauá que a Faria Lima e o estamento puderam produzir. O estouro doBanco Master é apenas mais um episódio de uma série: Banco Nacional,Bamerindus, Banco Santos, Banco Rural, Banco Halles, Banco Econômico... ParaMaria Cristina Fernandes, colunista de mão cheia do Valor, a “prisão de Vorcaroassusta mais a política que a de Bolsonaro”. Quem mais, além dos governadoresde RJ e DF, tem culpa nesse cartório e muita explicação a oferecer à Justiça eà sociedade? A punção do tumor se deveu a investigações da PF, cujos recursos adireita, na Câmara, precatadamente forceja por reduzir.

Palestina abandonada — A ONU produziu uma das páginas maislamentáveis de sua história na última segunda-feira (17/11), quando o Conselhode Segurança acatou o plano neocolonial da autocracia estadunidense paraconsolidar a tomada de Gaza. Rússia e China, que poderiam e deveriam ter vetadoa ignomínia, escolheram se abster. Países árabes e Autoridade Palestina, quetinham a obrigação — inclusive moral — de se opor à espoliação, não o fizeram.É solitário morrer em Gaza.

País no espelho – De acordo com o MDS, das 95 milhões depessoas inscritas no CadÚnico, que abriga a parcela mais vulnerável dapopulação brasileira, mais de 60 milhões se declaram negras. Dentre elas, maisde 37 milhões são mulheres pretas e pardas. Muito além de um feriado nacional,o Dia da Consciência Negra (20/11) é uma data para reflexão do país como umtodo.

Por: Roberto amaral.

*Com a colaboração de Pedro Amaral.

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